10/09/2005
Ano 8 - Número 441

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

DESARMAMENTO: SOU A FAVOR

Amigos, confesso que não pretendia manifestar minha modesta opinião sobre este assunto que anda a gerar polêmicas tantas. Ocorre que alguns fatos aconteceram nesses últimos dias e acabaram por acender o que chamo de “pavio da responsabilidade”, que eu também tenho e, pronto, aqui estou a opinar.

Uma boa amiga me repassou, assim como a todos da lista dela, um artigo que trazia como autora a respeitável Juíza Denise Frossard. Esta se mostrava francamente contra o desarmamento e apresentava seus argumentos. Julguei que deveria emitir minha opinião para a amiga de quem recebi o artigo, pois meu silêncio poderia deixar a falsa impressão da minha concordância com a autora do artigo. Ele saíra em jornal.

Passados alguns minutos começaram a chegar mensagens, tanto da minha amiga como de alguns dos da sua lista, dizendo-se serem a favor do desarmamento. Até me surpreendi pela iniciativa que um deles, com esta opinião, teve em divulgar a matéria acima aludida. Ele depois explicou que pretendia que o assunto fosse ser mais debatido. Então entendi sua iniciativa.

Posteriormente soube por outro amigo que o tal artigo fora escrito há algum tempo quando a ilustre Juíza estava entrando para a política. Todavia, este me garantiu que atualmente ela mudou radicalmente de opinião. Não sei onde está a verdade ou a mentira porque na internet esses e outros princípios ficam altamente vulneráveis à adulteração. Não raras vezes alguém desmente ser autor de algo que divulgam neste espaço virtual. Aconteceu recentemente com o cineasta e cronista Arnaldo Jabor.

Mas, também motivou-me escrever sobre este tema outra mensagem, vinda de longe e de um bom amigo. Ao saber da minha opinião, teceu-me uma séria e longa crítica, que respeitei, sem nenhuma obrigação de concordar com ela, claro. Um dos seus argumentos para se dizer contra o desarmamento da sociedade foi o fato de ter sido vítima desta descontrolada violência que assola o nosso Estado do Rio de Janeiro.

Parece que um dia foi acordado com 4 ou 5 marginais a apontar-lhe armas, dentro do seu lar. Um trauma que a gente acaba por carregar pelo resto da vida, sem dúvida alguma. Outras famílias têm passado por esta e outras agravantes de uma violência que o Governo, seja estadual, seja federal, sempre minimiza em seus discursos. Felizmente ele saiu daquela cena de terror com vida, e também os seus familiares.

Disse-me que se tivesse uma arma em casa teria se defendido... Argumentei que se tivesse mesmo uma arma, digamos que embaixo do travesseiro, certamente nem teria tempo de a pegar, pois seria fuzilado de imediato como já aconteceu a outros chefes de família nesta “cidade maravilhosa”. Na minha opinião ele deveria estar feliz por não ter armas em casa, mas o amigo discorda e eu torço para que não se arme.

Lembrei-lhe o que me aconteceu há alguns anos quando fui assaltado dentro do meu carro, perto da Igreja da Candelária, em começo de noite, num estacionamento pago. Fiquei cerca de uns 15 minutos com um revólver encostado à minha cabeça. Contei este fato na crônica “Meu Primeiro Assalto”, divulgada neste Coojornal em dezembro/2001. O ladrão me levou dinheiro, relógio, e algumas peças de roupa que eu comprara naquele dia. Mantive-me calmo, conversei com ele, e me deixou a vida.

Nunca usei arma, jamais pensei em ter uma, e tenho certeza de que se, naquela noite, o ladrão percebesse que eu estivesse armado, não estaria agora aqui a escrever para vocês. Ademais, ainda que pusessem uma arma em minha mão não sei se teria coragem para atirar e matar alguém. Não me considero covarde, absolutamente, mas minha formação cristã não me permitiria tirar a vida a alguém. Critique-me quem quiser. Minha arma é a palavra e com ela tento mover montanhas e contar histórias.

Nas trocas de argumentos que andaram acontecendo alguém afirmou: “...entendo muito bem a tua filosofia: és um homem avesso à violência e, ainda por cima, sonhador e romântico.” Bem, pelo menos este se disse também contra a violência, embora apoiando o armamento da população. Mas, o que tocou no fundo do meu brio foi o uso dos sentimentos “sonhador e romântico” não como qualidade, mas quase com a pecha de defeito, imperfeição, deficiência. Assim me parecera.

Entristeceu-me, mas superei logo. Até porque o bom amigo voltou a escrever e disse que, me considerar um sonhador e romântico, teve mais a intenção de “um baita elogio” (palavras dele). E acrescentou, me sensibilizando: “Quem me dera ser um pouco assim como tu! Crer mais nos homens!” – E eu nem creio tanto assim, atualmente, pois até tenho dúvidas hoje de que tenhamos mesmo sido criados à imagem e semelhança de Deus. Repito o que perguntei em outro texto: “Que Deus?!”

Amigos, agora digo a vocês: se um dia eu deixar de ser sonhador e também romântico, preferirei partir logo desta vida. Afinal são esses e outros sentimentos semelhantes como o solidarismo, que nos diferenciam dos Bush, Bin Laden, Saddan e muitos outros que já causaram tanto mal à nossa humanidade. Seres, ditos humanos, que não hesitam em se armar para matar, semear guerras e golpes políticos pelos motivos os mais sórdidos. A relação tupiniquim seria bastante extensa, mas prefiro ignorá-la. Não tenho espaço suficiente.

Em verdade, como disseram alguns, e a própria Juíza Frossard naquele artigo, eu também não acredito que esteja no desarme dos cidadãos de bem a solução para a redução da violência a níveis aceitáveis. Por outro lado, a esmagadora maioria da população, quando tem arma em casa, ou acabam ocorrendo tristes episódios de crianças que se matam ou matam amiguinhos, sem nem saber o que estão fazendo, ou essas armas acabam mesmo nas mãos de bandidos que os assaltam, etc e tal.

Casos já foram contados na imprensa brasileira sobre jovens que pegaram a arma do pai e a levaram até para o colégio. Alguns alunos já atiraram em colegas pelos mais variados motivos, inclusive ciúme, assim como houve quem ameaçasse até o professor por este chamar-lhe a atenção em classe. Só quem não lê jornais pode desconhecer esses fatos. Ainda não são tantos, mas podem aumentar se valorizarmos o armamento.

Infelizmente está a caminho de se transformar em rotina algumas pessoas, na rua, quando têm algum desentendimento, especialmente em acidentes de trânsito, logo puxarem a arma como “força de argumento”, matando assim a palavra e o diálogo. É o desenho de um mundo que não me agrada e com o qual jamais sonhei, porém não me deixarei cegar por emoções negativas que acabam por nos atirar também nos braços da mesma violência contra a qual bradamos e queremos ver eliminada.

Temos consciência que o problema é complexo e se o é ainda mais no presente culpe-se o desleixo, a ausência de medidas, a falta de seriedade para uma política realmente de segurança pública, tanto no âmbito estadual como no federal. Há anos a violência vem se alastrando, e o que fizeram nossas autoridades?

Claro que agora está bem mais difícil combatê-la do que esteve há 10 ou 20 anos atrás. Cansamos de demagogia, de discursos que não são acompanhados por ações efetivas, eficientes, da falta de uma política séria para a área social, para a educação, para se evitar o aumento permanente do desemprego, etc.

Por outro lado, hoje vemos pessoas de classe média mais favorecida participando de assaltos a prédios, conforme fartamente noticiado. O bairro de Ipanema tem sido muito visado. Esta é uma nova faceta do crime que não tem causas na pobreza, talvez sim no tráfico ou consumo de drogas. Nossas autoridades parecem paralisadas, assumindo uma incompetência que tentam dissimular em entrevistas, mas não enganam mais a ninguém.

Ainda hoje ouvi uma estatística oficial, referente ao Rio de Janeiro, que apresenta uma média de 100 assaltos diários nos últimos 12 meses, não incluídos os ataques a residências. Em um ano o total indica pouco mais de 3.500!!

Cabe ao Estado atacar e resolver ou minimizar a um nível tolerável a atual violência, porém infelizmente não nos passa aquela confiança para nos sentirmos seguros tanto na rua quanto dentro de casa. Tudo isto forma um conjunto de verdades indesmentíveis, mas insisto que permitir que a sociedade se arme cada vez mais só deverá gerar ainda mais violência, à margem da provocada pelo banditismo, e certamente mais mortes a serem lamentadas. Não é por aí, nunca foi.
 



(10 de setembro/2005)
CooJornal no 441


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br