17/09/2005
Ano 8 - Número 442

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

A DAMA COKER E O YORKSHIRE

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Quem não assistiu, há algum tempo atrás, a um excelente filme que se intitulava “A dama e o vagabundo”? Nele é contada a história de uma bonita e elegante cadela de raça e seu convívio com um cão de rua, do tipo “vira – lata”. É lindo e comovente.

Bem, após tanto assistir ao relacionamento praticamente diário do meu querido e pequeno Touche com a charmosa Twane, cadela da amiga Marlene, decidi, inspirado na história do filme acima referido, contar-lhes com detalhes essa amizade que começou há quase um ano e meio.

Twane é da raça Coker e está hoje com 4 anos. Tem uma postura elegante, um pêlo muito bonito, e é carinhosa. Eu a conheci no ano de 2001, na antiga casa em que a família de Marlene morava. Ela sempre se mostrava muito tímida, recatada, mas com um olhar muito cativante.

Touche me foi presenteado com pouco menos de dois meses de idade, uma pequena bolinha de pêlos, no final de janeiro de 2004. Hoje ele já cresceu, mas não tanto, e tem um ano e nove meses de vida. O mundo, para Touche, é uma eterna brincadeira. Sua personalidade é muito forte, mas também é carinhoso e amigo dos mais fiéis.

Tenho muitas histórias dele para contar, mas o que interessa aqui é mesmo o relacionamento canino entre ele e a “lady” Twane. Quando fui à primeira vez com Touche à antiga casa de Marlene, creio que em março de 2004, a cadela fugia dele assim como se diz que o diabo foge da cruz. Ela subia em camas, sofás, onde pudesse alcançar para se livrar das tentativas de aproximação do pequeno Yorkshire.

Touche não desistia nunca e a cercava por todos os lados só não conseguia subir nas camas e móveis porque ainda era muito pequeno. A vantagem era portanto da cadela. Todavia, bastava que esta descesse, julgando que o cãozinho já tinha desistido das investidas e logo dava de cara com Touche, o incansável, o insaciável, a esperá-la para seguir nos assédios, ora para brincadeiras, ora para outras intenções.

Naquele período eu ia menos vezes à casa da família de Marlene do que depois quando eles se mudaram para a nova residência. Mesmo assim, quando lá comparecia e levava meu yorkshire, vendo-o, já à distância, a elegante Twane cuidava de se abrigar numa fuga nervosa do pequeno macho. Enquanto isso, Touche não pensava noutra coisa: só queria chegar perto dela, tocá-la, brincar com ela.

Isto durou de março até novembro de 2004. Então, já na casa nova, ficamos surpresos como a cabeça e os sentimentos de Twane mudaram completamente. De tanto meu cão insistir acabou por conseguir a vitória de uma aproximação que foi se tornando cada dia mais amiga, mais íntima, e mesmo muito mais divertida em alguns momentos. Àquela altura, porém, ainda que Twane subisse nos móveis, Touche ia atrás dela, pois já tinha tamanho e habilidade necessários para aquelas escaladas.

Quando vou para lá, sempre ao final da tarde, e enquanto a amiga vai abrir o portão da garagem, Touche fica comigo no carro e, ansioso, se põe a saltar de um banco para outro, olha nas janelas, resmunga de um jeitinho muito especial, todo dele, não me dando sossego até podermos manobrar e entrar na garagem.

Quando estaciono lá dentro, meu bom amigo já fica em posição, sobre o meu colo, esperando que eu abra a porta do carro para ele pular para o chão. Costumo aguardar Marlene fechar completamente a garagem para então dar a ele a chance que está esperando. Antes que eu abra completamente a minha porta, Touche já está saltando e, voando, sai em busca de Twane.

Os dois somem pelo quintal afora, matando a saudade de apenas um dia para o outro. È divertido vê-los a correr, ora o Touche na frente, ora a Twane. De repente eles entram pela casa e percorrem todos os cômodos, voltando depois à varanda. Se cansam, os dois param, mas os carinhos continuam. Tanto o cão lambe ou mordisca as orelhas longas da cadela, e/ou suas longas pernas, como ela o domina com suas patas, fazendo-o deitar e lambendo seus pêlos na altura do pescoço. Vale a pena apreciar.

O pequeno Yorkshire tem demonstrado ser também bastante ciumento. Quando Twane, buscando carinho, deita a cabeça no meu colo, ou no de Marlene, ou seja lá de quem for, Touche salta, em manobras, às vezes arriscadas, vindo por cima do encosto do sofá e se atira rápido para onde ela está começando a empurrá-la e a morder suavemente suas patas ou o que ele conseguir alcançar. Faz de tudo para que a cadela não divida aquele espaço com ele, pois se julga o dono de tudo e de todos, o bom e ciumento Touche.

Mais recentemente temos flagrado momentos de um carinho para além de amizade entre os dois. Certa noite Twane estava deitada sobre o sofá, bem ao meu lado. Aí surgiu o nosso bravo Touche, com seu passinho malandro, com jeito de quem não queria nada, vindo da varanda. Saltou para o sofá e pôs-se bem em frente à cadela. Eu, Marlene e Grasiele ficamos observando tudo em silêncio.

De repente, quando esperávamos que ele fosse implicar com a cadela, eis que Touche pôs-se a lamber carinhosamente o rosto da amiga, começando pelo nariz. Ela, por sua vez, relaxou ainda mais e não reagiu, parecia mesmo estar gostando daquelas carícias do pequeno Yorkshire. Antes pensávamos que a cadela talvez visse o pequeno Touche como um filho que ela ainda não teve, hoje não temos mais esta certeza.
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Aos domingos, quando lá estamos o dia todo, às vezes me farto de fotografar e filmar os dois a brincar. Eles se enroscam, ora parecendo brincadeira, ora parecendo um caso de amor entre cães de raças diferentes e de dimensões bastante desiguais. Quando cansam geralmente param os dois ao mesmo tempo e, deitados, ficam a recuperar as energias para logo recomeçar.

Quando eu chego à casa de Marlene sem o Touche, o que acontece raras vezes, é fácil perceber a decepção de Twane. Eles certamente ainda nos proporcionarão muitas histórias para contarmos, todavia a verdade é que hoje os dois têm uma ligação, digamos, afetiva, que, se em alguns momentos nos diverte, em outros nos emociona.

A história do relacionamento entre A Dama Coker e o Yorkshire deverá continuar a ser contada em outros capítulos no futuro. Aguardem.
 



(17 de setembro/2005)
CooJornal no 442


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br