08/10/2005
Ano 8 - Número 445

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

 NINHO
 

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Em janeiro deste ano eu escrevi sobre A MANGA. Estava passando o domingo na casa da família da amiga Marlene e ao ir tirar uma sesta percebi, pela janela aberta para o quintal, que havia uma bonita manga, já madura, como que a me sorrir.

Falei das lembranças que ela me trouxe de minha infância e minha juventude em minha terra natal, Belém do Pará. Divaguei inclusive em sonho naquela tarde linda de sol amenizada por uma brisa vespertina e bem cabofriense.

Pois bem, tenho fotografado bastante entre as frutíferas árvores que lá estão. Outro dia quando me aproximei da mangueira novamente percebi algo diferente entre alguns de seus galhos.

Cheguei mais perto e vi um ninho, sim, um ninho, porém construído com restos de estopas que deveriam ter sido recolhidos no quarto de guardados da casa de Marlene cuja porta dá para o quintal. Aquilo me surpreendeu.

Conhecia ninhos feitos de gravetos e outros materiais, mas com estopas, jamais o vira. Diante da minha estranheza a amiga Marlene me revelou que deveriam ter sido as rolinhas, pois outras aves que por ali passeiam não têm mesmo aquele hábito.

Aproximei-me com o máximo de cuidado a fim de fazer algumas macro fotografias nos galhos da árvore identificando o ninho. Percebendo minha presença uma das aves que ali certamente montava guarda acabou por se assustar e saiu voando. Lamentei, pois não pretendia provocar aquilo.

Logo identificamos o passarinho como sendo mesmo uma rolinha. Tratei de fazer fotos rapidamente e sair dali. Com macro fotografia não se usa flash. A intensidade da luz à pequena aproximação do objetivo destruiria a luminosidade ideal.

Por uma coincidência o ninho se encontrava colocado praticamente na mesma posição em que antes estava aquela manga que gerou a minha crônica de janeiro deste ano de 2005. E por outra coincidência havia outra manga, ainda verde, um pouco à frente do ninho. Procurei captar esta imagem em uma das fotos que fiz.

Enquanto eu fotografava, três beija-flores, algumas andorinhas e rolinhas voavam para lá e para cá, passando rápido, algumas vezes bem perto de mim. Chegava mesmo a ouvir o ruído das velozes asas dos beija-flores. Esta é uma cena comum por lá, inclusive na varanda da casa.

Ao subir num pequeno banco para satisfazer ainda mais a minha curiosidade, mas tomando todo o cuidado para não esbarrar no galho nem no ninho, percebi, dentro deste, a presença de um filhote, recém nascido, que não se movia. Bateu-me aquela emoção de quem tem o privilégio de presenciar uma vida, mesmo tão pequenina, no limiar de seu desabrochamento. Um começo de mundo.

Fiquei extasiado. Por uns poucos minutos permaneci imóvel e tal foi o meu enlevo que quase me desequilibrei e caí do banquinho. Felizmente o pior não aconteceu. Havia um sol de quase final de tarde, o melhor para iluminação fotográfica, sem dúvida.

Pensei, pensei, vi outro passarinho voltar até próximo do galho onde estava o ninho, certamente preocupado com minha presença ali, já um tanto demorada e então tomei a decisão de descer e não fotografar o filhote. Curiosamente aquilo não me desagradou, pelo contrário, senti uma certa felicidade que nem sei bem explicar.

No fundo eu estava preservando aquela pequena vida de olhares tantos que a veriam, numa foto, apenas como um objeto a mais, satisfazendo sua natural curiosidade talvez sem perceber o quanto de sublime, de excelso, haveria naquela imagem.

Pois é, amigos, o ninho foi uma surpresa e um magnífico presente que acabei por “ganhar” na minha atual dedicação à macro fotografia. Tenho pesquisado bastante, procurado muito e sigo fotografando. Afinal a fotografia sempre foi uma das grandes paixões da minha vida, assim como o rádio e escrever.

Nos próximos meses certamente aquela rolinha, agora recém nascida, deverá estar participando também da “festa” habitual que fazem, na varanda e no quintal da casa de Marlene, aves de várias origens. É certo que não a
Clique na foto para vê-la ampliada. reconhecerei, lógico, nem ela a mim, claro, mas os dias ali estarão ainda um pouco mais alegres pela presença de tão doces e poéticas criaturinhas.

Deus as proteja sempre de alguns moleques que, passando pela rua, não titubeiam em usar suas atiradeiras para tentar matá-las... Ora direis, crianças, sim, mas não anjos, pois esses não matam, muito menos seres indefesos.

 

(08 de outubro/2005)
CooJornal no 445


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br