29/10/2005
Ano 8 - Número 448

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

PRIMEIRO DE ABRIL EM OUTUBRO?
 

Bem, já votamos, e o NÃO afinal ganhou, ou seja, amigo, você venceu. Eu perdi, votei no SIM. Isso é democracia, apesar dos pesares.

Você pode comemorar, pois conseguiu o que tanto defendia em mensagens que me enviou e em propagandas que vi na TV. Quero dizer que você defendeu com garra “o direito de ter direito a não abrir mão de seus direitos”. Parabéns, mesmo.

Agora você não precisa se assustar, pois pode ter em casa facas, colheres, garfos, tesouras, canivetes, estilingue, bastão de beisebol, etc, o que, no meu entender, você sempre poderia ter, pois vi no que alegava um tanto de exagero, mas você reclamou sim da possibilidade de lhe impedirem de os ter, lembra? Claro que sim. Guardei.

Também, com a vitória do NÃO ao Desarmamento, você pode, talvez mais facilmente, comprar e ter uma arma, devidamente legalizada, lógico. Ah, sim, você afirmou também, com todas as letras, que nunca teve uma arma, e que não pretende ter, porém “não pretendia abrir mão do direito de a comprar, se um dia o desejar”.

Aqui pra nós, duvido que você a compre e muito menos que a use um dia. Conheço-o bem. Acredito, por isso, quando disse ser contra a violência. Você foi sincero, só não lembrou, ou não se importou, que, votando no NÃO, abriu espaço, para que outros possam adquirir armas, tendo ou não necessidade. Mas você é pessoa de bem, eu sei.

Você também criticou muito nossas autoridades tanto pela incompetência para combaterem a crescente violência que nos humilha, nos submete a assaltos, seqüestros, etc, quanto pela desinformação relativamente a este referendo. Bom, aí nós estivemos do mesmo lado. Eu também os tenho criticado e afirmei que nem tudo foi bem esclarecido no que concerne a esta consulta popular pelo voto. Mas, acabamos indo para campos opostos ao votar. É a democracia: respeito ao livre pensamento.

Você chegou a enumerar uma série de decisões de nossas autoridades sobre as quais gostaria que lhe dessem também a oportunidade de dizer SIM ou NÃO, ou seja, se concordaria com aquilo ou não. Bem, aí, então, você estaria querendo “amarrar” o governo. A cada passo importante ele necessitaria fazer um referendo!! Não andaria.

Por pior que ele seja precisa ter autonomia para tomar decisões e a nós compete mantê-lo ou repudiá-lo nas próximas eleições. Concorda comigo? Assim se faz na democracia. Muito do que você relacionou também reprovo, mas o voto é nosso. Por esta via podemos corrigir ou, sei lá, novamente errar, pois está tudo muito estranho.

Só lhe lembro que em matéria de “errar” ou “faltar com promessas” o atual governo não é nenhum privilegiado. Afinal já aconteceu antes e quem sabe ainda se repetirá justo com quem votaremos? Quando candidatos sabemos que eles abrem as “asinhas” para fechá-las depois e exibirem sua face e poder contrários ao tal de povo, que somos nós, e que deveríamos estar com eles no poder, segundo a Constituição, ou não? Quantos planos enganosos, e até confisco, nos impuseram antes? Alguém foi preso?

Concordo com você que, ganhasse o SIM, ou tenha ganho o NÃO, quase nada mudará em relação à violência. E esta não vem apenas das armas, mas da saúde, da educação, do desemprego, das aposentadorias humilhantes, dos abismais desníveis sociais em nosso país, etc. Daí eu achar que mais perdeu o próprio governo, outra vez.

Mas, voltando a um de seus mais repetidos argumentos, o seu direito a “comprar uma arma quando bem entender, para sua defesa” e que, pelo SIM, julgaria que o cassariam, parece que não seria bem assim. Isto, aliás, não ficou bem esclarecido.

Veja, amigo, ainda na semana passada foi assaltado um edifício no Leblon, na rua Cupertino Durão, próximo à praia. Os homens, bem vestidos e bem falantes, eram 15, segundo li e ouvi no rádio. “Profissionais”, segundo uma das vítimas, pois davam “Bom Dia” e até pediam desculpas pelo... assalto. Só não entregaram flores!!!

Tudo bem planejado e executado. Nos apartamentos, ainda que algumas pessoas tivessem armas, mesmo as mais violentas, ou até bazucas, sei lá, essas armas de nada teriam adiantado, creia. Sem que ninguém percebesse algo, na portaria eles iam rendendo as pessoas que saíam ou que chegavam. Daí para entrarem nas unidades residenciais ficou muito fácil, claro. “Sem violência”, qual disse alguém, como se o próprio ato de roubar e render pessoas já não fosse uma... violência!!

Ficaram cerca de duas horas no prédio e saíram sem que ninguém, na rua ou em outros edifícios, percebesse alguma coisa. A polícia chegou meia hora depois de os meliantes haverem se escafedido, visto que só foi avisada após a fuga deles. E aí? No que adiantaria tanto direito a ter armas em casa ou na cintura?! Pura balela, amigo.

Aqui em Ipanema, entre julho e setembro, cerca de 10 prédios foram assaltados de forma semelhante. As armas que funcionaram, “em serviço”, foram as dos assaltantes. As dos assaltados, se as tinham, foram para a “coleção” dos meliantes, aquilo que tanto afirmaram e repetiram na propaganda do SIM, mas em que você se recusou a acreditar, lembra? Pois é.

Bem, resumindo este “calhamaço” de arrazoados, argumentos, debates, evidências e afins, chego à conclusão de que jogamos foi muita conversa fora, enquanto o governo jogou no lixo mais alguns milhões de reais com este referendo. Me apoio no artigo, muito lúcido e explicativo, que li, assinado por Roberto Pompeu de Toledo. Seu título é: “Anedota de Brasileiro”.

A primeira frase do mesmo resume tudo: “O referendo das armas foi um exercício de sair do nada para chegar a lugar algum.” Quem não o leu e desejar fazê-lo, pode me pedir que enviarei, com prazer. Vale a pena.

Então, amigo, nós dois caímos numa espécie de “conto do vigário”? Ou seria um “Primeiro de Abril em Outubro?” SIM ou NÃO? Bem, voto no TALVEZ...


 

(29 de outubro/2005)
CooJornal no 448


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br