05/11/2005
Ano 8 - Número 449

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

RECORDAR E VIVER

O título acima está certo sim, eu quis mesmo escrever “Recordar e Viver”. Sabem que vim de outra geração, de tempo bem mais distante dos atuais, mas temos que continuar a viver, mesmo discordando tanto, nos decepcionando tanto a cada dia, a cada hora, a cada ano, no que vão transformando o viver desse tempo atual, moderno e globalizado.

Outro dia, meu bom amigo professor Joaquim F. Amaro, de tantos cargos da maior relevância ocupados no Banco do Brasil e fora dele, repassou-me uma mensagem magnífica, excelente, que tinha como título “A Trilha Sonora de Nossas Vidas”. Alguns de vocês a devem ter recebido também.

A música de fundo é a linda “Moonlight Serenade”, executada por Ray Connif e sua orquestra. A mensagem escrita traz a assinatura de Silvana Duboc. A montagem está indicada como sendo de maricarusocunha@terra.com.br O trabalho pode ser encontrado no site www.pranos.com.br

Por que dar tanta importância àquilo? Amigas e amigos, simplesmente porque a letra da mensagem diz tudo, conta tudo que eu também fiz, que eu também experimentei, de que eu participei, que eu sonhei, que eu vivi e fui feliz acreditando nas pessoas e, claro, num mundo maravilhoso e muito mais justo. Sabíamos sonhar, ou ... podíamos!

Embora a apresentação seja em prosa, na verdade respeita rimas e é uma autêntica e linda poesia. Poesia de tempos que nunca mais voltarão. Saudosismo da minha parte e de quem elaborou o trabalho? Talvez sim, talvez, mas com inúmeras e justificadas razões. Saudade de não ter vergonha de a sentir e de afirmar, com todas as letras, que, embora não perfeito, claro, vivíamos num mundo e numa sociedade bem melhor.

Os tempos mudaram e alguns dirão que assim é a roda da vida. Tudo bem, mas não poderia ter mudado para melhor? Por que teremos que aceitar passivamente esta realidade com a qual estamos convivendo já há algum tempo? Desculpem, eu me rebelo, com as palavras, lógico, e jamais abaixarei minha cabeça ao que tantos andam a fazer, não apenas com nossa cidade, com nosso país, mas também com nosso mundo.

Sei que existem algumas “fortalezas” de resistência, por exemplo, à destruição do meio ambiente, ao caos em que estão transformando este planeta, o levar à morte a fauna, especialmente a nossa, tão rica, o destruir florestas inteiras, o secar rios e degelar geleiras dos pólos, o matar populações aos milhares, em nome de causas indignas e injustificáveis, o assassinar pessoas em nome de um ou mais deuses que não parecem conhecer o amor, o deixar acontecer fatos que levam também à morte irmãos de sangue para justificar guerras que se apóiam em ambição de conquistas. Graças a Deus há quem ainda resista, embora nem sempre consigam sair vitoriosos.

Em outro nível, como aceitar que pessoas se reúnam para privar da vida aqueles que pensem diferentemente deles, seja na política, seja no futebol, ou simplesmente, como alguns dizem, “matar por esporte”... “por diversão”. Não acreditam? Eu ouvi um jovem declarar isto outro dia, em jornal da TV, após confronto de rua entre torcedores!! E acrescentou que se volta para casa sem conseguir agredir alguém ou mesmo matar, sente-se muito decepcionado... Modernidade é isso? E eu devo me resignar? Mas nunca mesmo. Nos orgulharemos de quê?!

Quando a mensagem a que me refiro fala em “lacraias” e outras excrescências mais que estão por aí nos dias de hoje, a nós impostas por veículos de comunicação que abusam do direito que ganharam, com a licença para bem informar e divertir a gente, eu me lembro do que aconteceu outro dia numa cerimônia a que estive presente.

Muitas famílias ali estavam num congraçamento bonito, conversando, enquanto a música que tocava acompanhava o ritmo daquela reunião, era suave, acalentadora, tornava perfeito o ambiente no imenso salão. Entretanto, já ao final da cerimônia, ficou impossível ouvirmos uns aos outros, inclusive estando na mesma mesa.

Ocorre que um cidadão, provavelmente atacado de “crise de idiotia”, para ser educado, lançou-nos às caras e aos nossos indefesos ouvidos uma seqüência de músicas (Eu disse músicas? Desculpem...) todas originárias do ritmo conhecido como “funk”. E, como ele não tinha aptidão para ser, no mínimo, original, ficou a repetir depois a mesma música de “funk” (Desculpem, de novo...), aquela que toca tanto na atual novela da Globo, das 21 horas. Tocou lá “vira sucesso”, não dizem que é assim??!!

Eu sabia que isso ia acabar dando no que já está... dando. E torçam para que no próximo carnaval não tenhamos, no lugar de Escolas de Samba, “Escolas de Funk”... Com o passar do tempo o ambiente foi ficando insuportável porque era mesmo impossível conversar. Claro que nem todos concordavam comigo, pois pareciam até gostar e falavam... aos berros, mas alegremente. Estou mesmo vivendo demais, sabe?!

Por favor, que ninguém me venha com os avanços da tecnologia, da ciência, etc e tal. Será que para tanto precisaríamos pagar tão alto preço?? A propósito, e as doenças e as pragas que de há muito a nós diziam extintas, abolidas? E a violência desmedida que nos persegue até dentro de nossos lares? A gente consegue ser feliz de teimoso!

Hoje temos uma perspectiva de vida bem maior que antes? É? Pois saiba que meus pais, avós, bisavós, maternos e paternos, viveram todos bem mais de oitenta anos... e não apenas eles. Quantos jovens hoje envelhecem e morrem antes de chegar sequer aos 20 anos com o advento e o incremento de drogas e armas?! E será que vivem?!

Permitam-me acrescentar aqui essas sábias palavras de meu bom amigo (amizade de 40 anos) professor Joaquim Amaro, inseridas em comentário que fez de outro lindo texto sobre o mesmo tema que aqui tratamos:

“Eu também gostaria de que as coisas fossem como eram. Evolução e Progresso não significam atirar fora princípios, mas, ao contrário, com base neles evoluir, para melhor, em busca de se atingir o que chamamos Bem Comum, e sabemos que sempre se encontra além do que conseguimos, para nosso próprio bem. Utopia? Quem sabe, mas que pena que tenhamos perdido tanto. Meus filhos e netos certamente, um dia, me cobrarão.” – Parabéns, amigo, tens minha plena, minha total concordância.

E finalizo esta crônica abrindo o meu coração para afirmar que recordar, para mim, é uma forma de segurar a vida. Ultrapassei meu passado, de presente em presente, para chegar a um futuro com o qual não sonhei. Se eu pudesse o reconstruiria, mas só me é legado viver.

E eu amo a vida. Se ela me fustiga, se me castiga, dou a volta por cima, sem a querer mal. Afinal faço parte do seu show, estou vivo. Só sairei do palco quando a vida desistir de mim. Irei então conhecer outras vidas, recordando e vivendo, sempre, infinitamente, amém.

 

(05 de novembro/2005)
CooJornal no 449


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br