19/11/2005
Ano 8 - Número 451

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

MEA CULPA

Nesta noite silenciosa e meio fria de início de primavera, curtindo mais uma vez a solidão que já se acostumou comigo, acompanhado de algumas fotos com aquele sorriso eterno, recebi uma mensagem, algo lindamente formatado por Edir S. Figueira e texto escrito com muita sensibilidade por Danusa Leão. Veio repassada pelo meu bom amigo Renato Campos.

Ouvi as músicas, li o texto, e deixei que minhas lembranças aflorassem. Em certo momento, já com o teclado meio úmido, levantei a cabeça e exclamei num grito mudo que ecoou em todas as paredes do meu peito, ressoando neste coração que tanto amou e que tenta viver da saudade: -- Meu Deus, como pude ser tão estúpido!!

Meus dedos hesitam nas teclas porque sabem que hoje não estou feliz. Tenho motivos para estar abatido, para cobrar da vida e/ou do destino mais um golpe cruel, traiçoeiro, que sangra a felicidade com que eu vinha sobrevivendo, trabalhando, brincando de ser feliz.

Sentimentos embaralhados convergiram para o mesmo dia e me arrastam, há horas, enquanto me esforço por não me afogar nesta tristeza, lutando para alcançar a outra margem onde eu possa respirar em paz, sorrir com amor, abraçar a alegria, acreditar que tudo não passou de mentira ou ilusão... mas ao voltar minha atenção para a realidade percebo que nadei em vão. Não consegui fugir e vou ter mesmo que chorar.

Desanimado, olhar incerto, li e reli a mensagem a que me refiro acima. Muito linda, lembranças que também vivi, passado que também foi meu, emoções que senti igualmente muito fortes e verdadeiras. Imagens que ficaram tão longe mas que insistem em voltar e nos fazer reviver.

Quisera eu estar com outro estado de ânimo, mas não, hoje engavetei meu sorriso, pendurei minha paz, perdi o pique maior dos últimos tempos em que aluguei a felicidade e naveguei em águas serenas acreditando na tábua de salvação que me escapuliu das mãos, algumas vezes, porém sempre a alcancei novamente. Hoje me senti naufragar em esperanças. Quem sabe amanhã acorde do pesadelo?!

De repente tudo me levou para aquela noite no ano de 2001. Era outono. Havia um grande reboliço por aqui e em toda a Região dos Lagos. Caravanas vinham de cidades mais distantes. Naquela noite, ao ar livre, perto das dunas, abençoado pela brisa do mar, ele viria se apresentar pela primeira vez nesta cidade. Todos os cartazes anunciavam há muitos dias a grande noite com... Roberto Carlos.

Ela tinha uma admiração muito grande pelo cantor e não via a hora de poder, algum dia, assistir a um show dele, ao vivo. Aquela era a grande oportunidade, já que no Rio de há muito não saíamos à noite. Vizinhas amigas já combinavam pequenas “caravanas” para irem em grupo ao espetáculo com veículo próprio.

Claro que também fui convidado. Claro que também admiro muito toda a obra do nosso bom Roberto Carlos. Claro que eu deveria ter ido... é, mas não fui. Afinal ela estava em muito boa companhia, pessoas amigas, alegres, condução própria e uma distância bem pequena aqui de casa até o show: cerca de dois quilômetros. Usar o carro era mais por causa do horário tardio do show. Preferi ficar trabalhando, escrevendo e mais escrevendo.

Entretanto, o vento nordeste não me deixava esquecer o quanto fui tão estúpido!! Pela janela do meu estúdio/escritório, no segundo andar, pude ouvir quando começou o show. Era quase como se estivesse lá. A voz do Roberto, os gritos e aplausos de uma platéia imensa que estava feliz pela presença de seu ídolo. As músicas... ah, as músicas que começaram a acender o meu arrependimento, a iluminar lembranças.

Meus ouvidos captavam tudo, meu coração, apaixonado, não me perdoava, minha razão me recriminava sem parar. Apenas ouvir era o de menos, importante mesmo teria sido a minha presença lá, ao lado dela, como foi a vida inteira por 40 anos, como sempre compartilhamos tudo, na alegria e na tristeza. Mas, naquela noite eu falhei.

Como castigo me desconcentrei e não consegui mais escrever nada. Lembro-me de que sofri bastante propiciando que a solidão risse de mim. Como pude ser tão estúpido?! O tempo, ao contrário do habitual, parecia passar em câmara lenta. A certa altura usei o celular para falar com ela. Queria saber como estava, mas era fácil supor que feliz por concretizar um de seus sonhos, e decepcionada, por minha decisão errada.

Ela quase nem conseguiu me ouvir tal o barulho do som alto e da vibração da platéia. Mesmo assim deu para eu sentir que sorria, que vibrava, que estava em paz com a felicidade. Meu remorso logo buscou palavras de consolo, porém no meu coração não havia espaço para ilusão...

A seguir deu para ouvir que Roberto cantava “Nossa Canção”. A música representara muito para nós dois durante tantos anos, mas naquela noite, naquele clima em que eu estava envolvido, seus acordes, sua letra, só aumentavam o meu castigo... “Mea culpa, mea culpa”...

No retorno à casa ela esbanjava alegria, contentamento, estava mesmo feliz. Seu generoso coração me perdoou facilmente. Difícil foi conviver com aquela sensação de culpa que não cansava de me acusar. Meu ego também fazia de tudo para me levar de volta à paz, à alegria, ao amor que persistia mas se mostrava embaçado. De repente ela passa perto de mim, cantarolando: “Se eu chorei ou se sofri, o importante é que emoções eu vivi...”

Ela traduzia tudo com aqueles versos do Roberto, os sentimentos dela, naquela noite, e me dava uma lição para eu entender que de nada valia continuar mergulhado na culpa e na tristeza. Afinal a vida continuava, o amor nos unia para sempre, e, errar é humano. É, mas foi uma lição dura de aprender, amigos e amigas, muito dura.

 

(19 de novembro/2005)
CooJornal no 451


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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