10/12/2005
Ano 8 - Número 454

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

CALIGRAFIA VIRTUAL
 

Outro dia a amiga Marlene me exibia, com indisfarçável orgulho, algo escrito à mão. Era um envelope e dentro dele havia um convite. Estavam ali poucas palavras, mas que diziam muito de amizade e de respeito.

A alegria, com certo toque de vaidade, da amiga, apoiava-se entretanto, além do sentido daquela pequena mensagem, nas letras, na caligrafia que me dizia: “Ao querido amigo Saymon”. Pois é, Saymon também sou eu, segredo que agora revelo.

E de quem seria aquela bonita caligrafia, palavra que o dicionário assim define: “Arte de escrever à mão segundo determinadas regras e modelos; Escrita cuidada, de morfologia uniforme e elegante.”

Bem, a dona de tanto talento na escrita à mão era justamente Grasiele, a filha de Marlene. O convite era para a festa de formatura de Grasi que terminara o Curso de Enfermagem no SENAC, em Cabo Frio.

Ficamos os dois a admirar cada letra, cada palavra, e a relembrar que no tempo de nossa infância havia todo um método para aprendermos, não apenas a escrever, mas a fazê-lo bem, a usar uma letra bem cuidada. Hoje não sei se este método ainda é aplicado.

Era usado antigamente um “Caderno de Caligrafia”. Aprendíamos a escrever começando por ir desenhando cada uma letra nos parâmetros que se ofereciam no referido caderno. Isto não implicava em que todos viéssemos a escrever com o mesmo tipo de letra, absolutamente. Ademais, com o tempo, com o passar da idade, a caligrafia de cada um pode sofrer alterações, o que é perfeitamente normal.

Por outro lado, naquele tempo, tínhamos necessidade de escrever, quero dizer, à mão. Com lápis ou caneta, exercitávamos nossa escrita. Bilhetes, cartas, exercícios da escola, etc, exigiam de nós o saber escrever.

Também é verdade que nem todos, por usarem o “Caderno de Caligrafia”, acabavam por ter uma linda letra. Alguns destoavam e tinham mesmo que se satisfazer com tipos de letras menos elaboradas.

De qualquer forma, não só escrever bem como o fazer através de uma caligrafia esmerada era preciso, principalmente para aqueles que não se descuidavam com o aprendizado da língua mãe, o nosso bravo... português.

Antes escrevia-se mais, hoje, porém, o mesmo não ocorre. Digamos que muito “se escreve”, mas por digitação, nesta era da informática. Aliás, talvez eu não tenha dito a coisa com a devida propriedade. Sim, porque alguns não escrevem, ou não sabem fazê-lo, nem mesmo no computador.

O hábito, que a mim não agrada, de usarem exageradamente abreviaturas, algumas bem absurdas, e também de mesclarem palavras de outro idioma, geralmente o inglês, no correr de um texto, ou tentativa de ser um texto, escrito, ou digitado, aparentemente em português, acaba por quase “consagrar”, quem sabe, uma nova forma de “escrever”! Eu disse escrever?! O fato porém é que há quem aceite e até pratique, logo...

Não quero parecer ranzinza e nem muito menos um carrasco de modernismos tantos que proliferam em nossos (não os meus) hábitos no falar, no andar, no vestir, no escrever, no dançar, etc, porém me reservo o direito à crítica quando esses “novos hábitos”, por exemplo, conduzem à deseducação, à desinformação, ao mau gosto, e a tudo que pretenda apenas ser “diferente”, o que nem sempre será propriamente moderno, no melhor dos sentidos, racional, inteligente, construtivo.

A propósito, e só de passagem, registro que em pesquisa oficial recente eu li que apenas 9,3% dos brasileiros usam computador e destes somente cerca de 13% têm acesso à internet. Talvez isto seja apenas mais um indicativo dos nossos imensos desníveis sociais, do poder aquisitivo que a tão poucos favorece, e/ou que a era da informática está ainda muito longe de alcançar a maioria dos lares deste país gigante, porém em só dimensões.

Mas, voltemos à linda caligrafia da querida Grasi, filha da boa amiga Marlene. O que mais me entusiasmou, por ser ela também usuária de computador, com o qual sabe lidar muito melhor que eu, é que a jovem não escreve, à mão, desenhando as letras para que sejam bonitas, não, pelo contrário, ela as ortografa naturalmente.

Outro dia brinquei com ela. Disse-lhe que gosto mais de seus eventuais bilhetes grafados do que aqueles elaborados no computador, embora nesses ela possa escolher os mais variados tipos e tamanhos de letra. E ela até que tem muito bom gosto neste tipo de escolha, mas...

Bem, à amiga querida, Grasiele, hoje com 23 anos, embora também seja uma internauta, meus sinceros e efusivos cumprimentos por ter mantido intacto, invicto, digamos assim, o seu talento para uma ortografia realmente admirável. Que nunca aposente a grafia aprendida em bancos escolares, há muitos anos.

Hoje só tenho oportunidade de conhecer, de tantos amigos e amigas que conquistaram meu coração através desta mágica telinha, a sua ... “caligrafia virtual”.


 

(10 de dezembro/2005)
CooJornal no 454


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br