17/12/2005
Ano 8 - Número 455

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

FELIZ ANO NOVO?
 

Desculpem, mas a cada novo ano mais eu me sinto mal quando fico a manifestar um desejo de esperança que já não mais me acode como antes. Não que eu seja agora um total descrente da vida, do futuro de nossa raça etc, não é bem assim, porém não dá mais para ficar a desfilar palavras bonitas e carregadas de um desejo que vejo ser derrotado todo ano, aliás, derrotado, desmentido, soterrado, massacrado.

Nos meus textos de fim de ano eu já vinha tentando evidenciar esta quase descrença no sentido de palavras que mais visam hoje a consolar do que realmente a firmar uma fé, uma esperança, em algo que conscientemente, realisticamente, sabemos não se desenhará como almejamos. A vida não mente pra nós, nós é que tentamos nos iludir.

Então, neste próximo dia 31.12.2005, alguns minutos antes da meia-noite, lá irei eu, provavelmente em companhia apenas da amiga Marlene, me dirigir àquela mesma duna que a cada ano me viu acompanhado de pessoas queridas, algumas vezes chegando a dez ou doze. Alguns lá não estarão porque partiram sem volta, outros se afastaram sem explicações, outros... bem, digamos, que a amizade ficou “enferma”...

Quando os segundos anunciarem a entrada em outro ano certamente nos cumprimentaremos, estranhos nos estenderão a mão com um sorriso, nós retribuiremos o gesto, a seguir elevaremos nossos pensamentos e oraremos, porque ainda acreditamos em Deus. Nossa prece será sempre igual, o próximo ano também.

Ele será recebido com lindo espetáculo de fogos de artifício, aqui e em muitos lugares deste lindo planeta terra. Não em todos, claro, pois em alguns há que socorrer, mesmo naquele momento, há quantos que estão sucumbindo a ataques terroristas, em guerras que não têm tempo para comemorações, à fome, à sede, a doenças tantas, a balas perdidas, à desesperança.

Infelizmente minha consciência universalista não me deixará esquecer, nem naquele instante, de que o ano que começa está bem definido em meu poema “Excelência”:
“Cada ano novo tão velho e reprisado / quando falseiam anseios replantados / quando a ilusão como milagre é anunciada / pelo mentir repetitivo e consagrado / pelo deboche de sorrisos masturbados / na prepotência infiel e imunizada / de mãos que assinam e rasgam compromissos / de olhos com antolhos que enxergam só por cima / dos ombros, dos problemas, da penúria, da fome / de bocas sem nome, da dor que se aclima.”

Não sou eu um derrotista, absolutamente, talvez mais um realista, que, mesmo assim, não abre mão de seus sonhos. Até já me chamaram de utópico, o que reconheço ser também, com muita honra, embora pareça uma incoerência. Mas, dizem que contra fatos não há argumentos, não é verdade? Pois então respondam, por favor, com sinceridade, a estas perguntas que estão no meu outro poema “Tantos Muros”:

“E então não existe mais vergonha?
Enfim aprenderam a repartir as flores?
O sorriso já não morre nas crianças?
O sangue corre apenas pelas veias?
Já extraíram da política a peçonha?
Nunca mais replantaram velhas dores?
A certeza já caminha com a esperança?
O mar não é mais de lágrimas para as baleias?
Nem a noite, hoje, espalha mais o medo?
Os oceanos não se encontram mais doentes?
A paz agora cresce junto com o homem?
O perdão já entendeu que é sempre cedo?
O mundo já se uniu num continente?
Só o passado conta histórias de fome?
As manhãs se repetem iluminadas? Para todos?
O espinho já não inveja o beija-flor?
A derradeira vítima já foi sepultada?
O carinho já desfez toda tortura? Para sempre?
O preconceito já aprendeu o que é o amor?
Os soldados hoje só usam enxadas? Todos?
Já baixou a neblina das ditaduras? Todas?”


E aí, se responderam a todas as perguntas indago: a que conclusão chegaram? Não pode soar mesmo como hipocrisia insistirmos em desejar o que sabemos não vai acontecer? Não se trata apenas de ter ou não esperança, mas de enxergar a realidade à nossa volta, aquela para além de nossas janelas, e não oferecer ilusão.

Por isso vou repetir aqui trechos da minha crônica divulgada em dezembro/2001, quando já prenunciava um certo desânimo embasado num realismo incontestável:

“Raciocinem junto comigo. Como vamos desejar um Feliz Ano Novo para tantos seres que, sem teto, verão o ano mudar embaixo de viadutos, em praças públicas, sob marquises etc?

Como estenderemos o nosso desejo aos milhões de desempregados cujas famílias não podem ter o conforto que conseguimos dar aos nossos filhos? Como levaremos nossa palavra aos milhões de crianças abandonadas, usadas em trabalho escravo, ou submetidas à mendicância?

Vamos mais além. Como estenderemos nossos votos também a tantas famílias que, no Afeganistão e no Iraque, sofrem as terríveis conseqüências de guerras insanas que podem dar prazer ou sentimento de vingança a alguns, mas jamais plantarão a paz de que o mundo tanto precisa?

Como desejar, de coração aberto, com sinceridade, um Feliz Ano Novo a todos os líderes mundiais que, insensatamente decidiram colocar o Poder acima do Direito, das Leis? Como desejar felicidade a quem usou, e continua a usar, a força, premeditadamente, para levar a infelicidade, o infortúnio, a desgraça a tanta gente inocente que não participou de hediondos crimes praticados pelo terror?

Fica difícil, não fica? Só não fica se formos hipócritas o suficiente para discriminarmos quem deva viver e quem deva morrer. Alguns estão se sentindo e se colocando na posição de Deus. A diferença é que o Deus em que acredito, para o qual dirijo minhas orações, certamente chora por todos os seus filhos.”

Desculpem se não me animo a lhes dizer aquelas palavrinhas meio mágicas, que devem estar esperando, e que tanto é repetida nesta época, de certa forma apenas como o cumprimento de obrigação numa rotina sociável, civilizada, sim, mas que põe antolhos em nossas consciências, ainda que cristãs.

Para as pronunciar ou escrever, só poderei fazê-lo na forma interrogativa, desculpem, então... FELIZ ANO NOVO? Deixo a resposta aos vossos corações e às vossas consciências. E que Deus os proteja e abençoe.



 

(17 de dezembro/2005)
CooJornal no 455


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br