01/01/2006
Ano 8 - Número 457

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

A CEIA
 

Amigos, durante a nossa vida é comum estarmos em lugares diferentes por ocasião da comemoração do Natal. Comigo também tem sido assim, claro. Por primeiro, aquela ceia farta, quando criança, em Belém, na casa de meus pais e avós, na antiga Av. Tito Franco, 371, no bairro do Marco. De tão grande quase parecia um palácio, e ainda dispunha de três imensos quintais, inúmeros cômodos. Só quartos tinha sete, contando com os dois das empregadas.

E assim foi por toda a minha infância e grande parte de minha juventude. Depois decidi vir morar no Rio. Eu tinha então 23 anos. Mesmo já trabalhando no Banco do Brasil, não deixou de ser uma aventura, pois voei para cá sem sequer ter pedido transferência oficialmente. Mas, isso é outra história que qualquer hora eu conto.

De 1960, quando cheguei no Rio, até 1963, meus Natais foram bastante tristes. Longe da família, do lar onde nasci, cresci e aprendi a ser feliz, porém aquela decisão precisou ser tomada. Ela daria também um rumo bem diferente à minha vida. Troquei o aconchego da convivência com os familiares para acabar morando em quartos sociais, e até de empregada, em apartamentos de terceiros, pagando aluguel.

Foi uma fase muito dura, mas da qual não me arrependo. Posso dizer que na dificuldade cresci bastante. Tive que assumir, mais do que nunca, as rédeas da minha vida. A partir de 1964, nova e radical mudança, para melhor.

Naquele ano eu me unira à Zezé no dia 05/dezembro. Éramos ainda bem moços, trabalhávamos na mesma empresa, mas os nossos salários eram proporcionais ao pouco tempo de serviço, portanto, digamos que davam para o gasto. Para sobreviver tivemos, algumas vezes, que depender de empréstimos bancários, mas valeu.

Os Natais eram geralmente comemorados na grande casa de Jomar, irmã de Zezé, no bairro do Rocha. Toda a família dela ali reunida. Eu já não estava só, voltava a um ambiente familiar, a um clima acolhedor onde havia amor e muita paz. Felizes Natais foram aqueles. Em 1973, quando fomos trabalhar em Brasília, viemos passar o Natal no Rio com eles.

O tempo passou e nossa carreira no BB acabou nos proporcionando termos a nossa casa própria, através de financiamento, lógico. Já era o ano de 1974. Um pequeno apartamento no Leme do qual saímos menos de um ano depois. Pudemos então juntar nossos dois financiamentos, meu e de Zezé, e compramos o de Ipanema.

A partir dali alternávamos as comemorações de Natal entre nossa casa e a de Jomar. Acabamos todavia passando a ceia de Natal mais na casa de Jomar do que em nosso apartamento. Lá havia muito mais espaço, a casa era enorme, um imenso porão, um pátio maravilhoso, um quintal onde imperava um futebol, quase todo fim-de-semana.

A vida, com suas manobras, acabou por modificar também a vida da irmã de Zezé. Já morávamos todos igualmente em apartamentos, diferentes, claro, porém nada mais de quintal, de grande conforto, de ceias fartas. Aquilo passou a pertencer ao passado. Mas, uma coisa não mudara, éramos família, havia paz e muito amor, sempre.

Quase 39 anos de casados, tantos Natais felizes, e novamente a vida achou por bem de mudar o nosso script de vida. Meu sonho de completar Bodas de Ouro, tal e qual nossos grandes amigos Renato e D. Lúcia, terminou num pesadelo. O Natal de 2003 foi seguramente o mais triste de toda a minha vida. Ali eu tive ao meu lado a presença da amiga Marlene, do contrário mergulharia numa sombria solidão. Não houve ceia.

No ano seguinte, eu já adotara as famílias de Marlene e do bom amigo Edinho como extensão da minha. Meus irmãos e irmãs moram em Belém, uma delas reside em S. Paulo, lá também estão minha filha do primeiro e rápido matrimônio, a Franci, e minha neta, a Claudinha.

Em Novembro de 2004 havíamos inaugurado a nova residência de Lena e seus dois filhos. Todas as suas irmãs vieram de suas cidades, e sua genitora também, além das sobrinhas. Era a primeira vez que Marlene podia proporcionar uma alegria tão grande para toda sua família. Eu estava feliz por estar incluído naquela emoção. A ceia ocorreu, logicamente, na nova casa.

Este ano a ceia foi marcada outra vez para a casa da amiga. Suas irmãs entretanto só poderiam vir a Cabo Frio para o Ano Novo. Acabamos sendo 13 à mesa, com a presença de uma tia de Lena, seu marido e mais uns parentes.

Pouco antes da meia-noite, o alegre e simpático amigo Moisés, não o profeta, mas o marido da tia de Lena, Maria da Conceição, tal como no ano anterior, pediu que todos dessem as mãos em volta da mesa, e ele, a seguir, comandou uma bonita oração. Permanecemos de cabeça baixa, concentrados na fé de cada um, orando com ele.

Eu estava de volta à ceia em família, mais uma vez, aos 69 anos. Deus, ou o destino, procuraram talvez me compensar pela perda que me haviam imposto dois anos e meio antes. Já passei por muitas ceias de Natal nesta meio longa vida, com altos e baixos, porém nenhuma queixa. Tudo faz parte da vida e devemos aprender sempre.

Acredito que nada passamos em nosso viver que não esteja traçado, ou que venha de vidas passadas como missões a serem cumpridas agora para o nosso aprimoramento espiritual. O livre arbítrio pode ser apenas um artifício do destino para nos deixar a sensação de que alteramos o leme, mas que ele comanda. Será?

Que Deus me permita participar da ceia do novo ano de 2006 para que possa agradecer a oportunidade, mais uma, ou várias, de ter sido útil e solidário no decorrer do próximo ano.

 

(01 de janeiro/2006)
CooJornal no 457


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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