14/01/2006
Ano 8 - Número 459

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

Quando se perde um grande amigo

Ano Novo, vida nova... pois é assim que se diz, não? Ano Novo, vida nova... Estamos ainda no terceiro dia do novo ano, tentando segurar esperanças, alimentando a fé por sermos cristãos, esperando que se concretizem pelo menos alguns dos nossos melhores desejos, dos nossos mais ansiados sonhos.

Tantas mensagens recebemos, outras tantas enviamos agradecendo e retribuindo votos e mais votos. Muita saúde, muita paz, muito amor, uma imensa e renovada felicidade, para todos, para todos. Era o que esperávamos, era o que desejávamos, mas... não seria para todos, não seria.

Afinal a gente sabe que mesmo enquanto comemoramos algo, como a passagem de ano, por exemplo, alhures, perto ou distante, alguém nada comemora, porque sofre, porque chora. Alguém dirá, mas isto acontece todos os dias... pois é, acontece todos os dias, sim. Até na comemoração que fazemos, vejam só, nasce um ano, morre outro.

Saudamos o que chega porque nele a vida continua, embora jamais se vá eternizar para nós, pessoalmente, ou em particular. A vida só é eterna para o infinito, ou para Deus, como dirão alguns, ou ainda para nossas almas, ou espíritos, segundo outros.

Nos abraçamos, sorrimos, embora, de certa forma alguns deixem escapar aquela pequena, solitária e discreta lágrima. As lembranças costumam nos atiçar nesses momentos em que a emoção é fustigada. Afinal já comemoramos juntos, hoje, entretanto, o tempo nos traz apenas a saudade. E seguimos vivendo, no ano novo.

Comigo também foi assim na noite de 31/dezembro. Mãos dadas com 7 pessoas amigas, amizade que se confunde ou se iguala a laços familiares, no alto daquela mesma duna a que já me referi antes.

Agora estamos no terceiro dia do ano novo, de tantas esperanças, de tantos bons anseios... apenas no terceiro dia. De repente o telefone toca. Ora, toca outras vezes e via de regra até que as notícias têm sido boas. Por que não o seria agora, apenas no terceiro dia deste... novo ano??

Atendo. Do outro lado da linha veio a notícia que eu não gostaria de ouvir em nenhum tempo, em nenhum momento, embora sabendo que mais tarde ou mais cedo, elas sempre nos chegam. A vida nada nos promete, apenas que um dia partiremos para outros planos, para outros rumos.

Ouvi a notícia, ouvi o anúncio, desliguei e chorei. Eu acabara de perder um grande amigo. Daqueles que até parecem irmãos, mas irmãos dos bons, de fé, leais, mesmo sem ter o mesmo sangue nosso. Isto pouca importa. A amizade é o tesouro.

Nos conhecemos e convivemos desde criança, brincamos juntos, estudamos juntos, crescemos juntos até a própria vida nos afastar pelos rumos tomados por um e por outro. Mas carregamos no peito, no coração, a amizade que, esta sim, como disse o poeta Vinicius, para o amor... será eterna enquanto dure.

É triste perder um amigo, muito triste, e eu não me perdôo de estar há tantos anos sem voltar à minha terra natal. Apenas falamos por telefone. Ele sempre viveu lá, em Belém do Pará. Estou no Rio desde abril/1960. Estou programado para voltar a Belém neste ano, mas agora é tarde demais.

Ano Novo, mal começaste e já levaste uma de minhas esperanças, reencontrar este ano o meu grande e antigo amigo, Fernando Avellar... Que Deus o tenha em sua nova vida e que ele me saiba perdoar por eu ter adiado tanto nosso novo abraço que agora só poderei traduzir em preces. Descanse em paz, bom amigo Fernando Avellar. Até um dia.



 (14 de janeiro/2006)
CooJornal no 459


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br