18/02/2006
Ano 8 - Número 464

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

AQUELES CARNAVAIS

Não se trata de ser apenas saudosista no sentido meio radical que o dicionário dá a esta palavra: “Gosto ou tendência para superestimar o passado.” Também não significa ser contra evoluções ou algo como o progresso. De forma alguma.

Não se está a “superestimar o passado” se podemos facilmente comprovar que nele ficaram lembranças que o presente não consegue igualar nem superar. Na minha visão é o que ocorre justamente com o carnaval.

Nasci em 1936 e tenho muito vivas em minha memória de menino e de jovem recordações deliciosas das comemorações que eram feitas durante o chamado tríduo momesmo. Refiro-me aos anos 40, quando eu vivia minha infância, e 50, já na minha juventude. Sinto, sim, saudades daqueles carnavais.

Lembro-me dos bonecos gigantes que passavam pelas ruas e brincavam com as crianças. Dos foliões mascarados que saíam pelos bairros a alegrar e a divertir a todos. Das músicas maravilhosas, em ritmo de samba, de marcha, ou marcha rancho, que se eternizaram e cujas letras todos sabiam de cor.

Aliás, não fossem as antigas músicas carnavalescas, os bailes de carnaval que hoje ainda são realizados não teriam como sobreviver. Esta é apenas uma das provas mais evidentes de que aqueles carnavais nos deixaram um legado valiosíssimo de alegria, de amor, de vida, de folia que não dependia de álcool ou de drogas.

Saudade imensa, sim, das famosas “batalhas de confete”, dos imensos corsos que eram formados por veículos, especialmente caminhões, que levavam famílias inteiras, grupos de amigos, etc. Todos carregavam quilos e quilos de confetes, de serpentinas, com as pessoas, mascaradas ou não, mas sempre fantasiadas e com uma disposição fantástica para brincar de forma saudável, sem precisar de estimulantes artificiais.

Meu avô materno mandava ornamentar completamente um dos caminhões de sua fábrica de refrigerantes, os famosos guaraná, kola e paraty Simões, conhecidos e premiados internacionalmente, e lá íamos todos, inclusive meus pais e as empregadas domésticas que tínhamos, a nos divertirmos a rodo, enquanto o veículo cruzava lentamente ruas e avenidas da Cidade de Belém.

Alguns vizinhos costumavam também aderir àquela entusiasmada caravana momesca juntando-se a nós. A cidade, especialmente o centro formado pela Praça da República, onde está o lindo Teatro da Paz, fervilhava de foliões de todas as classes sociais. Era comum cruzarmos com pessoas conhecidas que, usando fantasias, tentavam brincar conosco sem se deixar reconhecer.

Quem não viveu aquele tempo deverá ter dificuldade para entender o meu grande entusiasmo por aqueles carnavais. Infelizmente hoje em dia muita gente só consegue participar de festas, inclusive populares, ingerindo e/ou cheirando “motivação”, uma lástima. Aqui em Cabo Frio, a conhecida festa denominada de Cabofolia, todo ano oferece tristes espetáculos provocados por quem não consegue alcançar o verdadeiro e autêntico espírito de uma alegria sem excessos. Este ano, a cada manhã, viam-se dezenas de “foliões” detidos na delegacia policial localizada aqui perto de casa.

Lembro-me de, na juventude, ter freqüentado vários bailes carnavalescos, em Belém, especialmente os da Tuna Luso. Era comum, além das serpentinas e dos confetes, as pessoas portarem o hoje condenado e proibido lança-perfume. As famílias, naqueles carnavais, o compravam e seu uso se restringia a brincadeiras que nada tinham a ver com o desvirtuamento imposto nestes tempos modernos, desta sociedade enferma.

Diz o dicionário, até hoje, sobre o lança-perfume: “Recipiente cilíndrico, de vidro ou de metal, que contém cloreto de etila perfumado mantido sob pressão e lançado em jacto, e que se usa especialmente durante o carnaval.” Quer dizer... se usava. Hábitos que, com o tempo, vão deturpando costumes antigos, pelo mau uso e pelo mergulhar em vícios tantos de quem julga encontrar paz e felicidade no que conduz realmente à morte.

Nos bairros formavam-se também blocos que saíam para desfilar, informalmente, não só pelas ruas do mesmo. Alguns seguiam até o centro para se juntar à toda aquela explosão de folia saudável constituída pelo imenso corso e por tantos e tantos ditos mascarados que individualmente levavam também sua alegria para um verdadeiro, autêntico, baile ao ar livre, sem censuras, sem excessos, mas muito amor e muita vida.

O carnaval de rua, o mais democrático de todos, hoje pouco resiste em algumas cidades. Das maiores, Recife é um bom exemplo. Salvador também, certo, só que lá já existe toda uma estrutura profissional a comandar as festas nas ruas lideradas sempre por imensos trios elétricos.

Pode até parecer que se assemelha ao que narro acima sobre os carnavais antigos, porém não, creiam que não. Mas, pelo menos o povo participa diretamente, não fica isolado em arquibancadas a aplaudir espetáculos de uma grandiosidade hollyudiana. Nada tenho contra os grandes desfiles das chamadas Escolas de Samba, que, afinal, evoluíram dos antigos que as Grandes Sociedades promoviam, no Rio de Janeiro.

Se você não participa de nenhuma Escola de Samba terá que se contentar em ficar em casa vendo tudo pela TV ou, no máximo, se puder pagar, vibrar e aplaudir o espetáculo das arquibancadas. Afinal, os camarotes ali estão apenas para privilegiados. Tudo bem, mas não é o carnaval que eu gostaria de ter, sinceramente.

Saudosista eu? Por que não? Também já me chamaram de utópico. Assumo com muita honra. O que você não poderá jamais me chamar é de “Maria vai com as outras”... Apesar de tudo aproveite bem e tenha um bom carnaval, amigo e amiga.



 (18 de fevereiro/2006)
CooJornal no 464


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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