25/02/2006
Ano 8 - Número 465

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

OH! VIDA, OH! CÉUS

Pois é amigos, a vida prega cada uma na gente, não é mesmo? Desde o ano de 2000, quando conheci Marc Fortuna, de Londres, através de um concurso de poesia em que fui classificado, passei a participar do belo site que ele mantinha, o CANTINHO DO POETA. Foi maravilhoso aquele período em que me senti honrado pela confiança e pelo prestígio daquele amigo.

Certo dia ele decidiu criar um espaço, no site dele, para vários escritores e poetas que julgava dever apoiar ainda mais. Para mim coube uma linda homepage: O CANTINHO DO FRANCISCO. Um trabalho produzido com muita criatividade e bom gosto. Outros tiveram também os seus Cantinhos.

Posteriormente, por razões que não interessa aqui tratar, Marc teve que interromper as atualizações de todos os Cantinhos. Ocorre que a homepage continuou “on line” e ainda lá está neste endereço:
 http://www.geocities.com/cantinhodofrancisco/

Por incrível que pareça, o “guestbook”, ou Livro de Visitas, que fora interrompido e depois reativado, prossegue até hoje recebendo mensagens a mim endereçadas. Vejam bem, o site não tem sido mais atualizado desde algum mês de 2003. O que lá estava, lá continua, nada de novo porém pode mais ser acrescentado, evidentemente.

Voltei lá há alguns dias atrás por mera curiosidade. Pois tive, ao entrar no “guestbook”, aquela surpresa por demais agradável. Tratei de me dirigir a vários que haviam deixado recentemente suas palavras de apoio. Alguns, em inglês.

O fato despertou ainda mais minha curiosidade e decidi reler mensagens, antigas. É, palavras, à época, que falavam com amizade, com carinho, com respeito ao nosso trabalho e a mim, como pessoa.

Algumas me emocionaram, à primeira leitura, depois rapidamente me jogaram de volta à realidade de hoje, ou já de alguns anos para cá. Quantos daqueles e daquelas, amigos e amigas, à época, posteriormente, por motivos os mais variados, acabaram se afastando, sumindo na poeira do tempo, desvanecendo-se em silêncio virtual.

Correspondiam-se muito comigo, incentivavam o meu trabalho, feito sempre com amor, com o coração, e a autenticidade de que nunca abro mão. Mas a vida é assim mesmo, não? Pequenos desentendimentos, ou discordâncias de ponto de vista, digamos, sobre política, mal entendidos que a cabeça quente nem sempre permite um raciocínio frio, lógico, e justo. E eles e elas... se foram, nunca mais escreveram.

Percebam que não me refiro aos que vão e vêm sem entretanto criar barreiras, algumas vezes, intransponíveis, para um reencontro futuro. Esses fazem parte da rotina desta internet e já vou me acostumei com isso em seis anos que aqui milito. Esses não deixam feridas porque nunca agridem, não fazem exigências descabidas, não radicalizam sobre opiniões que divergem, não impõem condições para continuarem a ser... amigos ou amigas. Pois é.

Mas, também pra que eu fui mergulhar naquele “guestbook” que julgava já estar de portas fechadas e tranca posta há muito tempo? Uma coisa é a gente lembrar de fatos que aconteceram e que nos marcaram, ou que apenas nos reafirmaram que entre as rosas há mais espinhos do que imaginávamos.

Outra porém é poder reler palavras que, se escritas hoje, (o que acredito não aconteceria) teriam um sentido, para além de muito diferente, carregado de aversão com pitadas de malquerença. Sem nenhuma dúvida.

Fui me lembrando, um por um, daqueles e daquelas, até de terras bem distantes, que depois me lançaram ao lixo de seus desprezíveis entulhos. Pois é, amizade se reconhece e talvez eu tenha me enganado em alguns casos. Ponho a culpa apenas em mim, no meu sentido de avaliação, vá lá. Sorte que tenho acertado com muitos outros mais.

Saltando para outra margem dos sentimentos, que bom ler novamente palavras não só de apoio, carregando tanto carinho, mas também me trazendo muita força pela fé, pela esperança, que eu alimentava dia após dia, de que um milagre estivesse ao nosso dispor e um amor, que já durara cerca de quarenta anos, pudesse convencer a morte a esperar mais um pouco.

Acreditem, tudo se passou justo naquele período tão cruel da minha vida. Tive um apoio imenso de tantos já conhecidos e de outros que surgiram de listas de pessoas que costumavam me ler e repassar meus trabalhos. Uma corrente de solidariedade daquelas que a gente jamais esquece. Me fez muito bem, me ajudou muito. Tantos foram os ombros que se puseram à minha disposição, tantos os corações que compartilharam comigo o meu sofrimento. E durou quase um ano e meio...

Mesmo alguns apoios que me foram de uma valia incomensurável, posteriormente, por motivos até meio bobos, como se diz, retiraram a escada e me deram um tombo. Só não me machuquei mais porque acabei dando apenas as devidas proporções aos estragos feitos e me recuperei rápido.

Comigo ficaram, entretanto, aquelas palavras do tal “guestbook” que não poderão nunca ser desmentidas. Eu as conservarei já que a vida sempre nos prega surpresas e um dia, quem sabe, alguma daquelas amizades retorna. Estou sempre aberto a fazer amigos. Espezinhar, jamais, perdoar, há sempre possibilidade se me vens sem a “alma pequena”, com todo respeito ao nosso grande Fernando Pessoa.

Pois é, amigos e amigas, esses registros feitos através do tempo, como por exemplo, minha pasta de “Comentários de Leitores”, hoje com mais de 20 megas de críticas, favoráveis ou não, ao meu trabalho, através desses seis anos, contam histórias, marcam momentos, confessam amizades, e me trazem muitas, muitas saudades.



(25 de fevereiro/2006)
CooJornal no 465


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br