04/03/2006
Ano 8 - Número 466

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

A PRIMEIRA NUNCA SE ESQUECE
 

É comum dizerem: o primeiro fusca a gente nunca esquece; o primeiro beijo a gente não esquece; a primeira namorada não se esquece, e assim por diante. Pois é, todo mundo já ouviu alguém falar algo assim.

Bem, eu, entretanto, vou me referir, com todo o respeito... à primeira transa. No sentido de relação amorosa mesmo, mas, olhe, por favor, não me julgue mal, ou inconveniente, ou presunçoso, nada disso. O fato a ser aqui lembrado não tem nada a ver comigo, de forma alguma. Vou me referir ao meu bravo e pequeno Touche.

Quando escrevo esta crônica ele já está com dois anos de vida. Bem, vida de cachorro é diferente, segundo dizem os entendidos. Explico: parece que cada ano do cão equivale a sete anos do ser humano. Logo, o nosso Touche já estaria, digamos, com... quatorze anos, ou em plena puberdade. Por isso ele só pensa... naquilo. Pudera!

Nunca pensei, todavia, que fosse tão difícil e complicado facilitar a vida do nosso pequeno amigo, conseguindo-lhe uma... namorada. Acontece que a fêmea deve ser da mesma raça. Afinal o nosso Touche, um puro yorkshire, tem pedigree e não é aconselhável que cruze com cadelas que não sejam da mesma procedência, pois.

Outro detalhe que aprendemos é que a fêmea jamais deve receber o macho em sua residência, ela é que deverá se dirigir ao endereço do cão para um namoro “sério”! Quem não lida com este assunto poderá até achar engraçado, também aconteceu comigo, mas, olhe, essas exigências são tomadas ao pé da letra, mesmo.

Há tempos vimos tentando, fazendo alguns contatos, porém surgia outro fator, digamos, complicador: a fêmea, para cruzar, teria que estar no período do cio. Fora dele aprendemos que não há acordo, as cadelas não permitem o “namoro” de forma alguma. Mas, começamos a perceber também que surgiam várias candidatas e as propostas de namoro vinham através de seus donos, que se encantavam com Touche.

A amiga Marlene passou a anotar o nome de cada candidata, seu endereço, provável período de cio e o telefone de seus donos, claro. Eu deixei essas tarefas a cargo dela que, em verdade, tem mais jeito que eu para lidar com esses assuntos de ... relações caninas. Abriu uma agenda apenas para essas anotações.

Eu torcia para que tudo desse certo, pois dava pena ver a aflição do bravo Touche a cada dia, especialmente em suas “brincadeiras” com Twane, a cadela de Marlene, da raça Coker, muito maior que nosso cãozinho.

Chegamos a ter quatro candidatas “oficiais” na fila do coração do nosso querido yorkshire, isso entre dezembro/2005 e janeiro/2006. Certo dia, no começo de janeiro, a dona da linda Sabrina telefonou-nos. Chegara a época do cruza, a cadelinha estava pronta para a... lua-de-mel. Encontros agendados rapidamente.

Eles se encontrariam aqui em casa por cinco dias consecutivos entre as 14 e as 18 horas. Isto ocorreu exatamente quando estou escrevendo este texto. Hoje já foi o último dos cinco dias. Eu e Marlene acompanhamos de perto o encontro dos “namorados” e íamos dando algum incentivo, falando com eles, embora Touche já carregue no sangue... incentivo até demais.

Eu sempre disse a ele que deveria ir devagar, fazer a corte, ler umas poesias, enfim, namorar antes de.... bem, vocês sabem. Ocorre que nosso bravo yorkshire ou é prático demais, ou afobado, e quando se aproxima da namorada já vai na quinta marcha... Uma espécie de “The Flash” amante canino.

Mal a mãe de Sabrina a colocava no chão e... meu Deus, quem ensinou isso a este pequeno de apenas dois anos de idade?! Barbaridade! No primeiro encontro houve realmente inúmeras tentativas, super cansativas porém... nada de efetivo, nada mesmo. Sabrina é um pouco maior que Touche, daí sua dificuldade inicial.

Houve uma certa frustração até de nossa parte pois esperávamos que o bravo Tucha já goleasse de saída, mas o confronto terminou no 0x0. Tudo bem. Veio o segundo encontro. O pequeno mostrou uma bravura e uma ansiedade inigualáveis. Precisava desfazer a, digamos assim... má impressão da véspera.

Desta feita Touche marcou o primeiro gol logo pelos 20 minutos da contenda. A nossa torcida vibrou. Começava a semeadura, iniciava-se ali, provavelmente, uma descendência de um dos cachorrinhos mais lindos que já vi, sinceramente. Não sou “pai coruja”, não, mas hoje ele faz parte desta minha vida que se alonga.

No terceiro dia da “lua-de-mel” Touche mandou ver com um “golaço” logo aos 15 minutos de iniciado o novo encontro. Aumentava nossa certeza de que eles iriam proliferar dentro de uns dois meses. Sabrina estava feliz, toda fogosa, espargindo saúde e anseios tantos.

No quarto e no quinto dias, o valente e excitado filho de Muraoka se superou. Com cerca de cinco minutos do encontro os dois já contavam estrelas naquele céu de amantes que somente aos apaixonados é dado usufruir. Cansados, tal como nos demais dias, eles se entreolhavam e eventualmente algum carinho mais era provocado.

A “lua-de-mel” terminava ali, cada um ia para o seu lado e agora era esperar mais algumas semanas para a confirmação ou não do estado de gestação de Sabrina. Torcíamos e muito para vermos nosso Touche como pai. À noite, em alguns daqueles dias, ele ficava inquieto e logo começava a uivar. Certamente uivará ainda mais agora quando estará separado de sua amada por um bom tempo.

Fitando seus olhinhos miúdos com aquele olhar meio langoroso, nos dias seguintes, era fácil deduzir que até o Touche já sentia que... o primeiro amor nunca se esquece...



(04 de março/2006)
CooJornal no 466


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br