25/03/2006
Ano 9 - Número 469

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

BIG BURREZA BRASIL
 

Estava começando a escrever um texto sobre o excrementoso programa BBB, da Globo, quando o amigo e poeta, Francisco Carlos Del Prado, me repassou uma mensagem com o título de “Constatação”. Decidi considerá-la, até porque apresenta elementos  para se fazer uma análise da extensão do estrago que o tal BBB causa em nossa debilitada cultura nacional, além de expor  “feridas” de nossa sociedade. 

Quando do BBB 2 ou 3, não me lembro, ao escrever sobre o tal programa e sobre a vitória do jovem conhecido como... “Bam-Bam”, alguém considerou minha crítica como...”preconceituosa”. Logo eu?! “Bam-Bam” passou a freqüentar quase todo programa de Tv como um exemplo (?!), nem sei bem do que, mas lá estava ele a falar errado e a mídia a apóia-lo como uma espécie de “campanha anti cultura nacional”. 

Mas a Rede Globo deve estar se orgulhando de chegar agora ao BBB número 6. Também pudera.  Vocês sabem quanto o nosso povo entrega de mão beijada para a Tv e para a Telemar a cada etapa do que chamam de “paredão”? Pois bem, leiam o que diz a mensagem que recebi e que faço questão de ir dando ênfase neste texto:

“29 milhões de ligações do povo brasileiro votando em algum candidato para ser eliminado do Big Brother. Vamos colocar o preço da ligação do 0300 a R$0,30. Teremos então... R$8.700.000,00. Isso mesmo! Oito milhões e setecentos mil reais que o povo brasileiro gastou só num “paredão. Suponhamos que a Rede Globo tenha feito um contrato “fifty to fifty” com a operadora do 0300, ou seja, ela embolsou R$4.350.000,00.” 

Confesso que fiquei estupefato pois não fazia idéia de que, em alguns minutos apenas, pudesse haver tal interesse capaz de gerar tantas ligações telefônicas e para um objetivo, convenhamos, nada nobre. Isto me transportou para os programas “Criança Esperança”, do Unicef, promovido pela mesma Rede Globo, e pelo “TELETON”, a cargo do SBT e do Sr. Sílvio Santos, ambos com objetivos humanitários semelhantes.

Eu os tenho acompanhado parcialmente, em especial o “TELETON”, para o qual sempre dedico a minha modesta colaboração. Ambos permanecem no ar, com o objetivo de arrecadar fundos junto aos telespectadores, durante 24 horas, às vezes até um pouco mais de tempo. Vê-se a dificuldade que é para atingirem o objetivo colimado no que se refere ao montante a arrecadar, a cada programa.

Assim mesmo, no “TELETON” costumam alcançar os 8, ou 10, ou 15 milhões de reais, objetivo previamente estabelecido, somente ao final do programa, ou após 24 horas de shows e apelos tantos, e mesmo assim porque chegam então cheques de grandes empresas que acabam por não frustrar o esforço de tantos artistas, solidários.

Mas, continuemos com a mensagem que estou focalizando no correr deste texto. Ela lembra o que aconteceu na Inglaterra quando pensaram em fazer um “Big Brother” só com pessoas inteligentes, cultas, bem informadas, etc. Leiam o que o autor lembra: “O projeto morreu na fase inicial de testes de audiência. A razão? O nível das conversas diárias foi considerado muito alto, ou seja, o público não se interessaria.” --- Vejam bem, isto aconteceu na Inglaterra, não no terceiro mundo nosso de cada dia.

Permitam-me registrar um outro trecho da mensagem em questão: “Programas como BBB existem no mundo inteiro, mas explodiram em terras tupiniquins. Um país onde o cidadão vota para eliminar um bobão (ou uma bobona) qualquer, mas não lembra em quem votou na última eleição.”

“Que vota numa legenda política sem jamais ter lido o programa do partido, mas que gasta seu escasso salário num programa que acredita de extrema utilidade para o seu desenvolvimento pessoal e que não perde um capítulo sequer do BBB para estar bem informado na hora de ... PAGAR pelo seu voto.”

O autor arremata esta parte do seu texto desta forma: “Que eleitor é esse? Depois não adianta dizer que algum político é ladrão, corrupto, safado, etc. Quem o colocou lá? Claro, o mesmo eleitor do BBB.”

Não tenho nenhum pejo em construir esta crônica à volta, digamos assim, da mensagem que me foi repassada pelo bom amigo e poeta Francisco Carlos Del Prado, o que já fiz outras vezes, procurando valorizar habitualmente textos e/ou autores, inclusive quando apresentei crônicas escritas a quatro mãos com outro escritor ou leitor. Felizmente não sofro de nenhum egocentrismo literário.

E por concordar plenamente com o afirmado a seguir, registro as palavras que encerram a mensagem: “Chega de buscar explicações sociais, coloniais, educacionais. Chega de culpar a elite, os políticos, o Congresso. Olhemos para o nosso próprio umbigo, ou o do Brasil. Chega de desculpas, quando a resposta está em nós mesmos.”

“A Rede Globo sabe muito bem disso. Os autores das músicas “Egüinha Pocotó”, “O Bonde do Tigrão” e assemelhadas sabem muito bem disso. Não é maldade nem desabafo, é uma constatação.”

Esta carapuça temos que assumir:-- “Chega de desculpas, quando a resposta está em nós mesmos.”--  Pois é, afinal quem devolveu ao Congresso os senhores ACM, Arruda e Jáder Barbalho depois de os três haverem escapado de um processo de cassação, à época,  fugindo pela via da renúncia, se não nosso povo, e pelo voto??!!

Agora, após cassarem três pelos escândalos denunciados sobre o tal “mensalão”, depois de tanto estardalhaço, através de acordos diversos andam a absolver os demais!!! E a gente fica a acreditar em “oposição” e “situação”??!! Em discursos inflamados de ACM Neto e outros líderes que desancam o pau no PT e no Lula mas, por trás das cortinas... Vergonha, gente. Mas eles serão reeleitos, com certeza.

Aí está a nossa “BIG BURREZA BRASIL”, nua e crua, na Tv, no voto, nos discursos, em cada  consciência, em cada atitude, no nosso espelho, diariamente.



(25 de março/2006)
CooJornal no 469


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br