08/04/2006
Ano 9 - Número 471

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

COISAS QUE INCOMODAM,
MAS A GENTE TIRA DE LETRA.

Faz tempo que eu não uso o tipo de título acima para contar fatos, ou histórias curtas, acontecidas comigo e que julgo merecerem divulgação, pois sempre acho que delas se pode tirar algum proveito, alguma lição. Então vamos lá.

Outro dia eu dirigia entre S. Pedro da Aldeia e Cabo Frio, à tarde. Voltava de uma clínica, próxima a São Pedro, onde a amiga Marlene fora fazer um exame de ultra-sonografia. Finalmente estão a duplicar aqueles 10 quilômetros, obra necessária há décadas.

Quando entrávamos na pequena ponte que nos leva para dentro de Cabo Frio (ela também está a ser duplicada) percebi de repente que um carro me ultrapassava pelo acostamento, à direita, numa manobra muito perigosa.

O irresponsável motorista, além de cometer uma irregularidade das grandes, pôs em risco a vida dele e a nossa, pois o espaço ali é mesmo muito estreito. Acelerando, ele também ultrapassou o veículo que ia à nossa frente e, numa manobra brusca, voltou à pista normal mais à frente.

Subiu aquela indignação apesar de tanto vermos cenas como aquela, e até piores, sempre que vamos ao Rio passar uns dias. O que também nos irrita é o cidadão acabar saindo impune, como na maioria das irregularidades a que temos assistido no trânsito. Chegamos a torcer por um milagre que fizesse despencar a força da lei sobre aquele indivíduo, mesmo sabendo que milagres muito raramente acontecem.

Andamos mais alguns metros e quando nos aproximávamos do final da ponte quase não acreditamos... O “milagre” acontecia! Estava uma viatura da Guarda Municipal postada logo após o final da pequena ponte e três policiais cumpriam com o seu dever, já que a tudo deveriam ter assistido.

O motorista fora obrigado a parar fora da pista e a apresentar seus documentos. Ao passar por eles cheguei a buzinar e cumprimentar as autoridades. Enfim alguém estaria a ser punido, finalmente, por uma falta que repetem demais na estrada, que nós testemunhamos tantas vezes, mas ninguém é flagrado pelas autoridades policiais.

Dentro do carro nós comemoramos, e como comemoramos, não a “desgraça” do faltoso, mas por termos a satisfação de ver alguém aplicar a lei, coisa cada dia mais rara nesse país, ou não? Como diria um amigo meu: “Bem feito...”

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Na semana passada eu entrei numa agência lotérica para pagar minha conta de luz, já que a Flama, assim como sua antecessora, a Light, não tem convênio com o Banco do Brasil. Ou pagamos nessas agências ou em caixas de supermercados, e sempre em dinheiro vivo.

Já estava chegando a minha vez na pequena fila quando alguém tocou no meu ombro esquerdo. Virei-me e vi uma bonita jovem dirigir-se a mim. Por primeiro não entendi o que ela dissera, pois falara baixo e rápido. Pedi que repetisse, e ela o fez.

--“Senhor, acho que deixaram uma bengala aqui neste balcão, como pode ver. Ela seria sua?”-- E a bengala realmente estava lá.

Meus prezados amigos e contemporâneos sexagenários, setuagenários, octogenários e adjacentes... Calma, não se irritem, não, por favor. A jovem não teve a intenção de me ofender, me faltar ao respeito, não, absolutamente.

Como em outras situações que já relatei, mantive a calma, convoquei meu bom humor, soltei um leve e amigável sorriso para a simpática jovem e respondi:

--“Olhe, até hoje, mesmo nos meus 69 anos, ainda não cheguei a esta situação, mas no futuro quem sabe, de repente até posso ter que me valer de uma bengala, sim...”

As pessoas ali presentes acabaram por rir e a jovem foi quem não encaixou muito bem o próprio golpe que desfechara. Ficou sem graça e acabou por me dirigir um pedido de desculpa, que era totalmente desnecessário. Afinal eu levara aquilo numa boa.

Numa fração de segundo a moça saiu e sumiu entre os pedestres que transitavam ali pela Av. Assunção.

Naturalmente ela teve a melhor das intenções, creio firmemente nisso, apenas não soube equacionar sua estratégia para esclarecer a dúvida que lhe surgira ao ver a bengala como que esquecida sobre o balcão onde as pessoas costumam anotar seus volantes da loteria.

No local, naquele momento, apenas eu parecia ter, digamos, um pouco mais de idade... Se a jovem tivesse se aproximado de mim e falado baixo, de modo que apenas eu ouvisse sua interrogação, poderia dizer-lhe a mesma coisa, mas ela não ficaria ruborizada, pois também eu falaria em tom mais discreto, claro.

Este é o problema de quando nos encontramos em uma situação em que se nos apresentam algumas opções de “múltipla escolha” e, por falta de imaginação, de experiência, de sensibilidade, ou mesmo de educação, precipitamo-nos na escolha e acabamos, às vezes, por nos colocar numa posição um tanto incômoda.

Que o exemplo possa ser útil a alguém que a vida o coloque, repentinamente, em situação semelhante. Em verdade, esses dois fatos representam aquelas coisas que incomodam, mas que a gente tira de letra, quando a sorte e o equilíbrio emocional prevalecem. Só isso.




(08 de abril/2006)
CooJornal no 471


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br