22/04/2006
Ano 9 - Número 473

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

O BEM-TE-VI

Eu já devo ter comentado que aqui em Cabo Frio convivo diariamente com muitos passarinhos. De certa forma eles são o meu despertador, assim como nos alegram o dia inteiro com seus cantos, seus vôos e pousos nos mais variados locais aqui de casa.

Costumo “me comunicar” com alguns deles quando estou fazendo minha ginástica no pátio, no segundo andar. Eu tento os imitar pelo assovio e eles respondem. Os galhos de uma árvore da praça interna de nosso condomínio estão novamente chegando bem perto da janela do meu quarto de dormir. Ali eles cantam desde cedo.

Quando ligo a bomba d’água para encher a caixa que fica situada no sótão, mesmo ao já estar saindo água pelo ladrão da caixa, o que indica que ela está cheia, deixo por alguns minutos ficar a cair o líquido sobre o canteiro de plantas colado à minha casa. Faço isto porque eles aproveitam e vêm se banhar e beber água ali. É uma festa.

Mas nem tudo pode ser alegria, afinal a vida sempre nos ensina isto. Hoje quero lhes contar o que aconteceu há uns dias atrás, quebrando a alegre rotina de nossa convivência.

Eu acordara, fora tomar o café da manhã na copa, lá embaixo, seguido sempre pelo meu fiel Touche. Depois subi e vim para o escritório onde tenho o computador. Antes abro a porta que dá para o pátio a fim de que Touche vá dar sua voltinha matinal ali, como ele gosta. Levantei-o para ele ver que a nossa rua privativa estava tranqüila.

Se eu não fizer isto ele me cobra, fica a pular em minha perna com aquele olhar de pidão, todo carinhoso e ansioso como ele só, pois adora a rua. Alguns segundos depois, quando eu já o colocara de volta ao chão, percebi que ele se assustara com algo e correra na direção do fundo do pátio.

Vi então um passarinho caído no chão, sem conseguir voar, todo assustado com a presença do cão. Ali não sei quem estava mais com medo de quem. Felizmente Touche não agride aves, nunca mesmo. Abaixei-me e peguei, com muito cuidado, o lindo passarinho que estava com uma das pernas quebradas e com a asa direita torta.

Eu não sabia bem o que fazer mas queria demais socorrer aquele amiguinho que tantas vezes deve ter me proporcionado alegria com seu lindo canto e sua presença sempre agradável. Ele arfava e parecia bem mal. Se eu pudesse lhe passaria parte de minhas forças, pois queria vê-lo novamente voar e cantar.

Felizmente Marlene chegou logo a seguir, voltando da aula na Academia de Ginástica, que fica perto aqui de casa. Como ela tem curso de enfermagem, achei que poderia ajudar mais do que eu que apenas tinha o sentimento de amizade pelo Bem-Te-Vi.

Lena o examinou e disse que o passarinho parecia já ter bastante tempo de vida, e que, pelo estrago que sofrera, podia ser que não mais estivesse enxergando bem e assim se chocara talvez com a parede aqui do pátio, caindo ao chão naquele estado. Ele não fora atacado por nenhum animal, com certeza. Nem mesmo pelo homem que prova sua irracionalidade, tantas vezes, quando usa o estilingue para os alvejar.

Lembramos que agora temos uma doutora veterinária morando em nossa rua privativa. Marlene fez um pequeno colchão, confortável, com uma toalha, e o levou até à casa da médica. Ela concordou com o diagnóstico de Lena e sugeriu apenas que tentássemos fazê-lo beber água com açúcar, pois parecia que seu fim estava mesmo próximo. Era apenas um paliativo para ver se ele se reanimava um pouco.

Tentamos, mas nem beber a água ele conseguia mais. Continuava ofegante e suas poucas forças pareciam ir se exaurindo a cada minuto. Sentamos um ao lado do outro, olhando o Bem-Te-Vi, que estava nas mãos de Marlene o acariciando, esperando, esperando... infelizmente nada mais havia a fazer.

Touche, entre ciumento e curioso, queria se aproximar, mas evitamos que o fizesse. Poucos minutos mais se passaram quando Lena percebeu que o bom amiguinho já nem mais respirava. Entreolhamo-nos com tristeza.

Marlene então o cobriu com a própria toalha do improvisado e pequeno colchão. Era o nosso adeus ao querido Bem-Te-Vi que estava partindo para outra esfera de vida, como dizem, juntando sua pequena alma, à alma grupal dos da sua raça.

Talvez apenas por coincidência reparamos que, por alguns minutos, a natureza se pôs em silêncio. Devia ser mesmo apenas coincidência.

Aqui, sobre a minha mesa onde está o computador, ficaram duas penas, duas lembranças, dois pedacinhos de saudade do amigo passarinho, que colhi no pátio depois que ele partiu.

Ele deve ter vivido tão pouco, mas proporcionado tanta felicidade a quantos tenham sensibilidade para escutar e entender o seu canto, para se integrar com a natureza que nos ensina tanto enquanto o mesmo homem tanto faz por a destruir, constante e insistentemente.

Nossa saudade ao querido Bem-Te-Vi.



(22 de abril/2006)
CooJornal no 473


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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