29/04/2006
Ano 9 - Número 474

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

OUTONALMENTE

Nesses últimos dias Cabo Frio acordou cinzenta, até as aves custavam a perceber a chegada de um novo dia. O passaredo não me despertou no horário habitual, pois seu canto atrasou bastante.

Afinal, sem o amanhecer pleno de luz, sem o sol a esquentar a vida, eis que esta também demorou para se espreguiçar, assim como eu a rolar na cama despreocupado com o tempo que entretanto passava no mesmo ritmo de sempre.

Cedo ou tarde, tanto fazia, era o outono acompanhado de uma frente fria que o sul nos envia de quando em vez, mas que desta, chegava mesmo com força. Os muitos dias de calor que antecederam aquela brusca mudança também haviam enganado a natureza e as folhas não tinham começado a cair até então.

Finalmente me decidi a levantar e, como faço sempre, fui olhar pela janela a pracinha interna do condomínio. A sinfonia da passarada oferecia seus primeiros acordes, ainda lentos e espaçados. Um dos vigias plantava uma muda em um dos vários canteiros de nossa praça.

Embaixo da amendoeira, cujos galhos acariciavam as grades da janela do meu quarto no segundo andar da casa, um cão vadio expressava todo o seu desejo pela cadela da casa 50. E pensar que D. Amelinha, proprietária de Sacha, sempre se gaba de que sua cadelinha é de raça pura e não se passa para qualquer cão vadio... Quando ela souber!

Touche ainda se enroscava em sua caminha ao lado da minha. Ouvindo meus passos abriu um olhinho como a me dar bom dia, mas sem a disposição habitual com que até ele costuma me acordar subindo em minha cama e no meu peito.

Parecia mesmo que o outono iria se impor daqui pra frente mudando completamente a rotina de todos nós. Afinal ele se cansara de “brincar de verão”, como o fizera nas primeiras semanas.

O outono nos convida ainda mais a longas caminhadas. Já tenho uma predisposição habitual para andar e andar muito, e com essas temperaturas fica mais fácil. Não estando chovendo ponho as pernas a se exercitar, mas se S. Pedro abre suas torneiras, aí eu trato de me preservar. Um bom exercício em casa mesmo vai muito bem.

Touche se espreguiça lindamente, dá-nos lições sobre como estirar os músculos e os relaxar. Marlene chega vibrante, está com blusa sem mangas. Pergunto se não está sentindo um pouco de frio, esquecendo que a boa amiga não se entrega fácil a esses detalhes. Afinal, ela viera a pé de sua casa, uma caminhada de uns 25 minutos.

Vou para o computador que é hora de trabalhar. Nada de ventiladores nem ar condicionado. O outono providencia esta temperatura muito agradável.



(29 de abril/2006)
CooJornal no 474


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br