27/05/2006
Ano 9 - Número 478

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

TRISTEZA MAIOR QUE O MEDO
 

No decorrer dos tristes acontecimentos de S. Paulo, há dias atrás, eu ouvi alguém dizer isto na TV: “Eu confesso que, diferentemente da maioria, eu me senti muito mais triste com tudo que vi e que ouvi do que tive medo.”

Concordei com esta opinião, pois foi o sentimento que me ocorreu também, apesar do imenso susto inicial com a avalanche de notícias, as mais aterradoras, além de muitos boatos não confirmados, que a mídia, escrita, falada e televisada atirou aos nossos olhos e ouvidos.

Houve quem me escrevesse pedindo para me pronunciar sobre aquilo. Preferi me conter, aguardar, deixar baixar a poeira, como se diz, para então formar um juízo a respeito de tudo. Não embarquei na canoa furada em que alguns, nesta Internet, tentaram navegar seus sentimentos equivocados.

Logo alguém escreveu longa mensagem e a divulgou traduzindo sua indignação, que era de todos nós, convenhamos, porém exigindo que a polícia saísse matando a todos, atirando em tudo que fosse bandido, ou seja, execução sumária, pena de morte sem a participação da justiça num país onde ela não vige, pelo menos legalmente.

Outros misturaram, talvez alguns até propositadamente, na crítica que lançaram àqueles momentos, palavras endereçadas explicitamente ao clamor de “abaixo o governo tal”. Desancaram sua raiva, maior que a indignação, pelo que se percebia, contra autoridades estaduais e federais. Aliás, mais às federais, querendo com isso partidarizar a violência e suas terríveis conseqüências.

Não defendo governos, em nenhum plano, até porque todos eles têm realmente sua parcela de culpa. Entretanto o momento não era para aquele tipo de “análise”, faltava equilíbrio, bom senso, aos apressados críticos, e maiores informações para se dizer alguma coisa mais concreta sobre os acontecimentos. Mas parece que para algumas pessoas era uma “boa oportunidade” para fazer campanha contra alguém. Não conseguiram conter o seu ímpeto e acabaram agindo como alguns políticos o fizeram.

Triste ver-se tribunos a se digladiarem tentando tirar algum proveito de tanta desgraça. Preocupados com o ano eleitoral uns apontavam seu dedo e sua língua contra outros num mau exemplo que foi seguido por alguns que escreveram, especialmente nesta Internet, sobre a explosão de violência. Civismo, patriotismo, confundido com interesses eleitoreiros. Propositadamente, claro.

Todos sabemos que o tráfico de drogas e a violência dele emanada não foi implantada neste país, apenas agora, somente ontem, ou anteontem. Há pelo menos uns 12 a 15 anos já era fácil se perceber o agravamento continuado de algo que vinha de mais longe ainda, crescendo sempre, à sombra de um aparente desinteresse das autoridades em todos os níveis. O que mais se tem ouvido são discursos, mas na prática nenhuma ação ou reação mais efetiva, nenhum projeto sério de longo prazo. Lamentável.

Responsabilidades há que se imputar, sim, aos nossos vários governos federais assim como há tantos que assumiram governos estaduais, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Ficaram indiferentes na prática embora nos discursos pré eleitorais iludissem os eleitores com promessas que nunca foram cumpridas. Todos eles.

Infelizmente não se pode deixar de atribuir alguma responsabilidade também à nossa justiça, sem dúvida alguma. A verdade é que o problema do tráfico de drogas e da violência exige uma análise muito mais séria e profunda e não deveria servir apenas de um mote irresponsável para alguns saírem a vociferar ataques contra esta ou aquela autoridade, especialmente àqueles que estão a se lançar como candidatos ao próximo pleito, escolhendo os alvos pela cor partidária de cada um. Não será desta forma que ajudaremos a consertar coisa alguma.

Quanto à nossa sociedade, de uma maneira geral, talvez por não fazer cobranças mais contundentes, em ações de uma cidadania responsável e verdadeiramente indignada, igualmente tem sua parcela de culpa, e não é de hoje.

Quanto ao voto eu eximo os eleitores de maior responsabilidade. Elegemos, nos vários níveis, durante os últimos anos, aqueles que entendemos melhor se desincumbiriam no exercício do poder, pelo povo e para o povo. Ninguém pode ser acusado de “não saber votar”, como agrada a alguns críticos. Por esta lógica equivocada estaríamos errando já há anos no exercício do voto, não apenas agora. Nossa gente procurou sempre a melhor opção sopesando programas, promessas, etc. Procurou acreditar em alguém.

A culpa maior recairá sempre sobre os políticos que, em campanha, sem maiores escrúpulos, apresentam idéias e ações que parecem atender aos anseios de nossa população, e isto até poderia ser verdade, mas que depois rasgam os compromissos assumidos, falseando uma palavra empenhada, um juramento feito perante a nação ou determinado Estado. Esta atitude indigna, entretanto, nunca leva ninguém a um julgamento sério, isento, que pudesse até conduzir à perda de um mandato. Jamais.

Afinal quem, de todos os eleitos, agora ou antes, pode se considerar inocente, a nível estadual, municipal ou federal, na omissão de medidas efetivas, em conjunto ou separadamente, que visassem minimizar, ou mesmo eliminar a perniciosa ação do tráfico de drogas sobre os nossos jovens? Nenhum dos eleitos pode atirar a primeira pedra. O povo será sempre a vítima num país onde várias leis parecem conspirar contra ele desmentindo que somos todos iguais perante ela.

Por isso confesso minha mais profunda tristeza com esse estado de coisas, porque o medo, na minha idade, nem da morte devo alimentar. Ela faz parte da vida.



(27 de maio/2006)
CooJornal no 478


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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