03/06/2006
Ano 9 - Número 479

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

VOCÊ ABUSOU

Pois é, prezado, você abusou desde quando nos fez acompanhar e confiar no que deveria ser, naquele passado, a esperança do nosso futuro melhor.

Você abusou, sim, criando e ampliando uma auréola de seriedade, ética, trabalho, competência, honestidade em torno de si e de tantos companheiros seus.

Você abusou, e demais, ao nos fazer crer que tinha todas as soluções, conhecia a fundo todos os nossos problemas, possuía uma incansável dedicação de os enfrentar, corrigir, sobrepondo decisões definitivas, em equipe, afastando-nos da lama e do mau cheiro de tantas injustiças, tantas carências, tantas fraudes, tanta corrupção ...

Você abusou, amigo, como outros já fizeram antes, porém a você não dávamos este “direito” visto que o considerávamos o oposto, o inverso, o outro lado da medalha que já conhecíamos e não queríamos mais rever. Por quê?

Você abusou e, de certa forma, nos espezinhou, zombou de nossa inteligência, maltratou nossos sentimentos, transformou em ilusão o que cultivamos, por tanto tempo, como um sonho verdadeiro e realizável, não uma utopia enlameada.

Você abusou inclusive ao gerar oportunidades para que muitos dos conhecidos fariseus de nossa política ressurgissem de repente como salvadores da pátria, pátria que alguns deles também já usaram muito em proveito próprio, mau exemplo que agora você acabou seguindo. Que lástima.

Você abusou ao permitir que a caravana parasse enquanto os cães, tantos cães, ladram, enquanto tantos corvos emitem seus grasnidos asquerosos e babam eufóricos por verem que a tal perfeição pregada por tantos de vocês, por tanto tempo, era uma balela maior até que as vãs promessas não cumpridas.

Você abusou ao nos fazer de tolos, ao se valer de nossa crença que insistia em segurar firme e no alto uma esperança agora desbotada e rota.

Você abusou, sim, e quem sabe continuará a abusar já que tudo indica que ainda há muitos corações e mentes que conseguem relevar toda a decepção que também tiveram, e por não verem opção melhor, acredito eu, deverão dar a você um crédito a mais, um prazo maior, na esperança de que o pior já tenha acontecido.

Você abusou e nos empurrou para a terrível dúvida do que fazer, como usar, a nossa cidadania em outubro próximo. O quadro que nos é oferecido por ora, na minha visão, não é nada animador. Pior ainda, saber que você terá certamente o apoio daquelas forças oligárquicas que tanto criticou antes e às quais agora dá o seu braço.

Você abusou e nós não o perdoamos, mas deveremos ter que o aturar ainda mais.




(03 de junho/2006)
CooJornal no 479


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br