24/06/2006
Ano 9 - Número 482

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

SONHAR É O MELHOR DE TUDO
E MUITO MELHOR DO QUE NADA

Outro dia recebi do meu bom amigo de antigas jornadas, grande chefe, eficiente líder, o professor Joaquim Amaro, uma deliciosa mensagem que trazia um texto cuja autoria era atribuída ao mestre Luis Fernando Veríssimo. Foi dali que retirei as palavras acima para se constituírem no título desta crônica.

O autor faz comentários, tece críticas, com muito humor, sobre uma avalanche de coisas que tentam nos impor, hoje em dia, alardeando “amplos conhecimentos” sobre isto ou sobre aquilo. Pessoas nos ditam regras, nos oferecem conselhos, nos mandam avisos, nos alarmam, ou tentam alarmar sobre doenças várias e sobre hábitos consagrados que sempre mantivemos e com os quais já vivemos quase setenta anos, e assim por diante. Haja paciência, amigos!

Sempre comento, com amigos chegados, a respeito dessas “descobertas”, dessas “pesquisas”, desse manancial imenso de informações que leio, que ouço, para depois rir  e acabar deitando na lata de lixo, com todo o respeito, pois.

Apresento-lhes aqui o começo daquela excelente mensagem que recebi:

“Cada semana uma novidade, a última foi que pizza previne câncer do esôfago... Acho a maior graça. Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, ou, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas, peraí... não exagere.”

“Diante desta profusão de descobertas acho mais seguro não mudar de hábitos. Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal para minha saúde.”

Concordo plenamente, pois eu creio que também sei. No mais, alguns males que nos atingem, que vêm para nos derrubar, nem sempre foram alimentados por hábitos não sadios, por excessos disto ou daquilo, absolutamente. Haja vista minha saudosa esposa. Não fumava, não bebia, tinha uma alimentação mais do que regrada, fazia ginástica, longas caminhadas, e...

Então você tem que ouvir um médico lhe dizer, cara a cara, para não esquentar a cabeça com o câncer, pois se tratava de algo com origem... genética!! E aí?! Os seus melhores hábitos, todo o seu cuidado com um viver bem sadio, foram simplesmente derrotados, de goleada, pela... genética!!

Por isso, amigos, vamos nos cuidar, sim, mas sem exageros de comportamentos recomendados por tantos “professores do bem viver” que existem por aí a deitar falação.

No mais, convenhamos, é melhor mesmo respeitarmos nossos consagrados hábitos que, até aqui, na estrada da vida, nos têm ajudado a viver com saúde, alegria, muito amor e muita paz, apesar de tudo à nossa volta. E vamos dando um desprezo a nossos eventuais críticos, aqueles que se julgam donos de verdades, mas que provavelmente nem sequer saibam cuidar bem de si próprios.

Na seqüência da mensagem acima referida, afirma o autor: “Prazer faz muito bem. Dormir me deixa zero quilômetro. Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha.” E mais adiante segue dizendo: “Brigar me provoca arritmia cardíaca. Ver pessoas tendo acesso de estupidez me embrulha o estômago. Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro, isto me faz perder toda a fé no ser humano.”

E convenhamos que não precisamos de “mestres”, de “professores” de nada, para termos e alimentarmos esses sentimentos. São apenas nossos, sempre estiveram conosco, trouxemos talvez do berço, da educação de casa, muito mais até do que da que nos ensinaram na Escola. Infelizmente o atirar latas ou outros dejetos da janela de veículos, especialmente nas estradas, tem sido tão tristemente comum.

Encaixo aqui uma cena que já descrevi há muito tempo. É real e aconteceu na esquina da Visconde de Pirajá com Aníbal de Mendonça. Ipanema, bairro chique. Uma jovem senhora comprara um sorvete numa carrocinha, ali mesmo. De imediato sacou fora o papel que o cobria e... o largou no chão na frente de tantas testemunhas que, com pressa, nem tiveram tempo de ver ou condenar. Mas eu vi, e condenei.

Estava com minha esposa, à época. Cheguei perto da senhora, abaixei-me junto à ela, de forma que me visse fazer aquilo, peguei o papel sujo de sorvete, e me dirigi à ... dama: “A senhora não se importa se eu o colocar nesta lata receptora de lixo, não?” Ela me fitou cheia de ódio, mas vazia de razão. Acabou por, num gesto brusco, mostrar seu desprezo por mim, já que não tinha resposta alguma a me oferecer.

Quase ao final da mensagem, o autor ainda diz: “Acordar de manhã arrependido do que disse ou de que fez ontem à noite, isto sim, é prejudicial à saúde. E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda.” Está aí uma verdade incontestável.

E ele ainda acrescenta com muito humor: “Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer. Guardar mágoas, ser pessimista, preconceituoso ou falso moralista, não há tomate ou mussarela que previna.” Plenamente de acordo com o autor.

Após mais algumas considerações o autor arremata tudo com as palavras que acima formam o título desta crônica. E pensar que hoje em dia, uns por falta de tempo, outros por não pararem de pensar, outros porque parecem arraigados demais a esta nossa realidade cruel, não conseguem mais sonhar. Repito o que disse um dia um grande poeta: “Nunca abra mão dos seus sonhos, se o fizer será como um pássaro com a asa partida que não consegue mais voar”.

Ouça sempre o seu coração, a sua experiência, e não valorize mais do que deva tantas dessas “descobertas” que, em geral, nada somarão de bom à sua vida. Continue feliz.



(24 de junho/2006)
CooJornal no 482


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br