01/07/2006
Ano 9 - Número 483

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

O QUE A GENTE ESQUECE OU NÃO QUER LEMBRAR

Amigos e amigas, hoje confesso meu quase total desapontamento com nossa classe política, mais especificamente neste período pós ditadura. Nem sequer souberam ajudar a sedimentar uma democracia que mal florescia e pela qual tantos lutaram, foram torturados, morreram, etc.

Prefiro esquecer o primeiro desses governos, ou o do Sr. Sarney, e sua “obra maior” aquela inflação estratosférica e os vários planos econômicos dos quais ela se fartou de rir, já que venceu a todos eles. E o nosso povo, iludido com a “patriótica” missão de fiscal do Sarney, viu seus esforços de colaboração naufragarem seguidamente pela incompetência dos governantes de então.

Surgiu depois o tal “Caçador de Marajás”. E nossa gente, que parece adorar emoções fortes, rótulos contundentes, gestos marcantes, discursos inflamados, colocou no poder não o caçador, mas talvez o próprio marajá. Isto só se descobriu mais tarde. Alguém se lembra do dia da posse, do discurso de posse, e de como se apossaram das nossas economias?! Eu jamais esquecerei. E ninguém foi preso!

Num ato de violência, oficial, diga-se de passagem, confiscaram o dinheiro de todo mundo mas, “generosamente”, nos permitiram ter em nossas contas-correntes o valor equivalente a cinqüenta cruzeiros. Aliás, de todo mundo não, depois se soube que alguns privilegiados, mais chegados ao poder, teriam sido avisados e... Como sempre!

Quantos planos pessoais de vida foram de repente destruídos? Alguns enfartes aconteceram, uns escaparam, outros faleceram. Alguém pagou por tal descalabro só comparável a atos bolchevistas, como me falou um bom amigo de Portugal, o Francisco Ruas? E o Sr. Collor só foi sacado do poder bem depois, e não por aquilo.

Retirado do governo pelo nosso Congresso num espetáculo que comoveu a muitos, quando alguns políticos chegavam a dizer que votavam pelo impeachment do presidente... pela honra, pela ética, pela justiça, etc e tal, assumiu o Sr. Itamar Franco.

Curioso que pouco tempo depois alguns daqueles que ajudaram a derrubar Collor com seu voto, o fazendo, como disseram, “pela honra, pela ética, etc”, acabaram sendo também cassados porque descobriram que afinal eles também não eram assim tão chegados à honra, à ética, etc, e daí... Ah, essa política brasileira!

Como bom mineiro, Itamar chegou de mansinho e tocou o resto do mandato até que com certa competência. FHC acabou sendo o seu Ministro da Fazenda, embora não seja economista, mas dizem que isto não importa tanto. Foi quando alguém teve a luminar idéia de criar um imposto que deveria financiar o caos da Saúde: chamaram-no de CPMF. O “p” ainda era de provisório. Ele deveria vigir somente por um ano.

Uma decisão que até teve muito apoio, pois a intenção era nobre... mas não do lado daqueles que governam e que desejam sempre tirar mais de nós, claro. O ano era 1994. O então Ministro da Saúde acreditou estar conseguindo uma imensa contribuição para enfim salvar uma área que vive sempre com um pires na mão e um terço na outra. Será que você se lembra?

Logo ele se demitiu ao ver que estavam desvirtuando completamente o objetivo da CPMF. Ele é um homem sério e essas pessoas nem sempre conseguem conviver no mundo da política, especialmente de políticos com poder. De provisório o imposto passou a permanente, e quem menos viu ajuda parece que foi mesmo a área da saúde.

Afinal os governantes não resistiram aos bilhões de reais que arrecadam por ano. A saúde que se danasse, pois. Num passe, ou vários, de mágica política, ela aí está, até hoje, e quem sabe, para sempre. E nós oh!!!... Itamar acabou “asfaltando” a estrada para FHC chegar ao poder maior. Teve o mérito do Plano Real, mas também alguns deméritos cujas CPIs não puderam neles mergulhar, foram habilmente silenciadas.

Ele acabou por inventar a reeleição à brasileira, em proveito próprio, claro, e agora amargamos esta hipótese, ou opção, que ameaça eternizar partidos conforme a manipulação que façam de fatos e idéias. Mesmo em países do primeiro mundo a reeleição nunca tem levado a sucesso maior algum governo em segundo mandato.

O governo de FHC “inventou” também, sem nenhuma cerimônia, a não correção da tabela do imposto de renda. Oito anos sem a corrigir, massacrando especialmente a classe média de assalariados, como sempre. Tudo em proveito de arrecadar mais e mais. Comemoram o que arrecadam, mas não nos agradecem nem nos pedem desculpas. E nós os vamos reelegendo e parece que esquecendo tudo. Lamentável.

Os críticos mais severos daquele governo hoje estão no poder. Também eles mudaram de idéia e preferem, agora, igualmente em proveito próprio, não mais criticar nem a CPMF nem a não correção da tabela do imposto de renda.

Eles que levantaram sempre a bandeira da esperança e da ética na política, mas acabaram mostrando aos tantos milhões que neles confiaram não serem tão diferentes de seus antecessores. Parece que a esperança foi para o brejo e a ética, pelo menos a deles, mostrou-se tão ou mais hipócrita e/ou corrupta do que a de muitos por eles criticados. PT, saudações e adeus.

Dos atuais governantes nem preciso lembrar a enxurrada de escândalos, denúncias de toda espécie, fatos os mais escabrosos que até derrubaram pessoas com grande destaque na composição do poder que dirige esta nação. Foi tudo tão recente que não é possível alguém dizer que de nada soube, que nada ouviu ou viu... Ah, desculpem, é possível sim, tanto que alguém afirma isto constantemente.

Mas, como muitos de nós vive também a fazer que esqueceu ou posa de quem não quer lembrar, ou prefere não devolver o poder aos que já antes também descumpriram promessas, fiquem tranqüilos que a história deve se repetir. Agradeçamos então ao Sr. FHC a tal reeleição. Será que Deus é mesmo brasileiro?!


(01 de julho/2006)
CooJornal no 483


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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