22/07/2006
Ano 9 - Número 486

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

SAUDADE DO SILÊNCIO
 

A vida, talvez seguindo orientação do destino, como entendem alguns, às vezes altera completamente a rotina de nossos dias de forma incondicional, porém com a força de um autoritarismo que nenhuma ação do bem, ou mesmo do mal pode modificar.

A felicidade, a paz, o amor, passam a ser postos à prova. Geralmente uma prova à qual apenas o amor resiste, se ele for de fato verdadeiro. Sim, resiste, na sua essência, na esperança, na fé, mas pode também acabar tendo que afundar no conformismo. Há forças, na natureza, na vida, no etéreo, tão ou até mais fortes que ele.

Subjugado só resta ao amor aceitar, se arrastar por dias, semanas, meses ou anos, sobreviver em lembranças, sorrir, de quando em vez, ainda que um sorriso emoldurado por lágrimas que a emoção produz no eco do vazio.

Momentos há em que a vida nos mantém por algum tempo o que resta da felicidade, do amor de outrora, porém mergulhado em profundo silêncio, bem ali ao nosso lado. Um silêncio mudo, mas sentido, que não expressa seu sentimento em palavras porém o traduz geralmente pelo olhar.

E como dói essa voz calada, como bate fundo na alma a não resposta, o saber-se a cada momento mais distanciado do que mais amamos até então, por tantos anos, o sentir nossa impotência para impedir o inevitável, para segurar o que escapa aos poucos de nossas mãos, de nossos olhos, de nossa vida.

Houve um período em que conversei muitas vezes com o silêncio, muitas vezes. Dormi com ele, convivi com ele, na inércia de um relacionamento perseverante, relutante e obstinado que não admitia perder, que esperava com a força da fé o ressurgir da vida completa que não prometia nada porque quase nada ainda tinha para oferecer.

Os dias ficavam mais longos, as noites intermináveis e acordadas, a dor estava como que anestesiada, o sorriso não encontrava razão, mas mentia para si e para o próprio silêncio. O amor, este sempre esteve presente e não fosse ele a paz se teria deixado vencer muito antes de quando finalmente foi abatida, derrotada, sepultada.

Quando o silêncio me olhava nos olhos heroicamente eu me mascarava de felicidade mesmo sentindo que não enganava nem a mim nem à ela. O silêncio revelava o inevitável, como que gritava o seu inconformismo, a sua interrogação, porém o destino não admite explicações, resta-nos apenas aceitar, mesmo sem entender.

Apesar de tudo, não obstante os pesares, mesmo depois de o tempo me ensinar novos caminhos de recomeço, novas opções para viver, momentos chegam em que sinto mesmo saudade do silêncio, daquele silêncio que me fez companhia em instantes tão sofridos. Nele ainda havia a vida, ainda havia o amor que eu não queria perder. Mesmo sabendo que tudo tem o seu tempo por que às vezes ele precisa acabar antes?



(22 de julho/2006)
CooJornal no 486


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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