29/07/2006
Ano 10 - Número 487

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

VOLTANDO A IPANEMA

 

Amigos, mais uma vez retornamos ao Rio de Janeiro por alguns dias para resolver assuntos e aliviar a saudade da terra que me adotou desde 21.04.1960.

Hoje vivo, como sabem, na querida Cabo Frio, mas não posso esquecer este meu “segundo berço” que foi a linda Cidade Maravilhosa. Maravilhosa, sim, apesar de governos que não devem ter por ela sentimentos nobres, como amá-la, tal e qual aqueles que são cariocas por nascimento ou por adoção, como eu.

Outro dia, numa dessas deliciosas tardes frescas de inverno temperadas com um sol de veranico, eu e minha amiga Marlene fomos conferir o estado de nossas “máquinas” no consultório do bom amigo e meu médico há cerca de 40 anos, o Dr. Carlos de Faria, homeopata. Sabendo que estava tudo em ordem saímos a passear, a pé, claro.

Paradas necessárias numa ou outra loja para conferir novidades, ou pelo reencontro com amigos que só vemos a cada 3 ou 4 meses quando voltamos aqui. A temperatura já baixara para 21 graus, eram quase 17 horas. Telefonei para o bom amigo Zeca, meu patrício e vizinho, e pedi uma sugestão para uma parada mais longa e um lanche muito conveniente àquela altura da tarde.

Sempre a par das novidades Ipanemenses, o amigo disse que iria ao nosso encontro e sugeriu o endereço: Av. Visconde de Pirajá, 580. Afirmou que iríamos adorar. Como ele nunca antes nos decepcionou com essas indicações, rumamos para o local. Logo depois, ostentando um largo sorriso, o bom patrício falou:

“E aí, vamos entrar e descer ao subsolo? Tenho uma surpresa que vai mexer com os vossos corações. Preparem-se.” -- E lá fomos nós. Na escada rolante já ouvimos um som delicioso que preenchia o ar daquela imensa e bonita galeria. A emoção nos esperava, em alto estilo, naquele subsolo, na Cafetaria “Albertino”.


Havia poesia no ar. As conversas cediam lugar respeitosamente às canções que eram interpretadas por uma senhora ao teclado e um senhor ao saxofone. Já chegamos aplaudindo-os, qual faziam as demais pessoas, ao encerrarem “Over the Rainbow”. Amigos, o relógio marcava pouco mais de 17 horas, que coisa fantástica.

Se eu estivesse na Europa, ou mesmo em Buenos Aires, aqui perto, não seria novidade, mas no Brasil, no Rio de Janeiro, onde infelizmente nunca vi antes promoverem aquele espetáculo, de dia, no ambiente de uma cafeteria, foi um achado encantador.

Eles executavam páginas de nossa MPB da melhor qualidade e uma seleção do cancioneiro internacional escolhida com um refinado bom gosto. A minha “cheese cake” nunca foi tão saborosa, meu capuccino sabia a um néctar divino como se me reencontrasse com a minha essência, o nosso ser que dizem imortal.

D. Nadja Bandeira dedilhava o teclado com maestria e nos enlevava com sua voz suave, agradável, cantando a maioria das músicas. E o fazia em oito idiomas. O Sr. Clóvis Timóteo, ao seu lado, exibia todo o seu talento de músico através de um saxofone. E como gosto de ouvir um sax bem tocado, amigos e amigas, e ele me proporcionou este prazer. Uma dupla perfeita, talentos ao vivo.

Em volta de nós muitas lojas. Algumas pessoas apenas passavam, mas a maioria não resistia a parar e ouvir um pouco. O silêncio respeitoso de tantos também aplaudia aqueles momentos de paz, aquele oásis de encanto, de êxtase, onde o mau gosto não se atreve a penetrar. Ocupávamos uma das 12 mesas da cafetaria em frente à escada rolante. Repito o nome do local: “Albertino”.

Para quem vem lá de cima, e de fora, das ruas onde somos torturados com buzinas desnecessárias, com gritos de quem desaprendeu de falar, com um lixo cultural que nos atiram sem cerimônia vindo de emissoras de rádio e de Tv, de automóveis que se transmudam em verdadeiros auto falantes agredindo nossos tímpanos, rasgando o nosso silêncio, estar ali, ouvir D. Nadja e o Sr. Clóvis até as 19 horas é uma sessão de terapia que nos reconforta e nos ajuda a continuar vivendo... lá fora.

Entreolhamo-nos, eu, o amigo Zeca e Marlene e, a certa altura comentamos porque nossos veículos de comunicação já de há tempos se comprazem em sujar o ar e entulhar nossos ouvidos com tanto entulho musical da pior espécie?! Não é por falta de opção, pois se quisessem poderiam até ajudar a educar nossa gente através da música, da melhor música como a que aquele duo musical trouxe à tona para nós.

Quando encerraram sua apresentação naquela quinta-feira não resisti e fui até eles. Cumprimentei-os, conversamos, trocamos idéias e experiências de vida, e fiquei sabendo que o Sr. Clóvis Timóteo (saxofone e clarineta) integra também a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Um músico de formação clássica e popular que junta sua sensibilidade, seu talento, ao de D. Nadja Bandeira, uma mulher de voz privilegiada, com certeza, uma exímia intérprete ao teclado.

Pretendia comprar um CD deles e acabei sendo agraciado com o disco onde me endereçaram uma simpática dedicatória. Foi um fim de tarde feliz e como poucos nessas nossas vindas ao Rio. Aos responsáveis pelo “Albertino” os nossos sinceros cumprimentos e o desejo que essa experiência dure por muito, muito tempo.

Estando em Ipanema, amigos e amigas, vão até lá, prestigiem esta iniciativa, não se paga nenhuma consumação extraordinária, apenas o valor exato do que consumirmos. Isto não é nenhum tipo de propaganda, de merchandise, não, mas um justo reconhecimento, meu, da amiga Marlene e do bom amigo Zeca, felizes por uma descoberta que nos lavou a alma.

Tomara que daqui há uns três meses, quando cá voltarmos, possamos novamente desfrutar daquele ambiente que representa um oásis no coração de Ipanema. Mais feliz fico porque desta vez não precisei falar de violência, de preconceito, de desrespeitos tantos aos legítimos direitos de nossa cidadania. Maravilha.



(29 de julho/2006)
CooJornal no 487


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br