26/08/2006
Ano 10 - Número 491

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

O CANDIDATO

Vamos fazer uma breve análise sobre “o candidato”. Não me referirei a nenhum deles especificamente mas, em verdade, estarei me referindo a quase todos. Não poderia ser diferente. Vamos nos ater mais ao comportamento dos pretendentes a cargos eletivos no tal Horário Eleitoral Gratuito. (Por que gratuito?!)

Começou desta feita tudo tal e qual uma roda-viva, um corrupio incessante e sempre igual que se repete toda vez que caminhamos para eleições. Nada mudou porque nada muda mesmo. Quando muito variam alguns rostos num rodízio de pessoas e de nomes. Outros retornam querendo um poder maior ou chegar a ele pela primeira vez.

No geral os pretendentes que se dizem de oposição tendem a criticar severamente os que estão no poder. Divergem, denunciam, às vezes escarnecem, mas jamais os poupam. Apresentam-se sempre com as soluções para todos os problemas que os governantes não teriam tido competência ou interesse em resolver.

Eles sabem tudo, localizam muito bem cada falha, cada lacuna, apontam omissões. Eles fazem juras, promessas, algumas que são mesmo inacreditáveis, que tantos já fizeram antes e descumpriram. Procuram lembrar o que já realizaram ao ocupar determinado cargo anteriormente em administrações com... total sucesso, claro, pelo menos ao juízo deles.

E haja beijos em criancinhas, abraços em todos os peitos disponíveis, sorrisos às toneladas, o “V” da vitória, mesmo que nem consigam chegar a 1% nas pesquisas, afinal a esperança é a última que morre, não? E a fila dos puxa-sacos? E todo ano é a mesma coisa, nunca será diferente, podem crer.

Já os candidatos que exercem o poder, especialmente o maior deles, procuram passar tranqüilidade, segurança, uma auto confiança, no fundo, muito desconfiada, ares de superioridade, etc. Não querem largar o poder e, portanto, empenham tudo, mas tudo mesmo, desmentem denúncias, rebatem críticas e até justificam sua ausência, por exemplo, em debates organizados por emissoras de TV.

Afinal outros, que agora são severos críticos por o primeiro mandatário não comparecer a debates, também já tiveram a mesma atitude antes. Como digo, tudo sempre o mesmo, sempre igual, nenhuma novidade. A mesma cara cínica, o mesmo despudor, sem nenhuma cerimônia. Mas todos sempre muito bem intencionados...

A falta de vergonha, por parte de alguns, é tamanha que determinado candidato a governador de um Estado, que poderia ser candidato à presidência, também não vai aos debates e justifica-se alegando que enquanto o outro, o presidente, que almeja a reeleição, não for aos debates dele, este terá o mesmo comportamento nas convocações para debates em seu Estado!!! O que tem a ver as meias com as calças?!

Curiosamente ambos estão muito bem situados nas pesquisas e confiantes em vencer ainda no primeiro turno. Então pra que ir discutir, se expor, ouvir críticas de terceiros e quartos uma vez que, se escondendo no silêncio, se julgam bem protegidos? Ora, que se dane a ética, o respeito aos eleitores, a imagem de homem probo, deixam isso para as fotografias. E vai seguindo a procissão, digo, a campanha eleitoral.

Desses santos não esperem milagres, pois prometem o que não podem fazer e o que sabem de antemão que não farão. Já vimos este filme tantas vezes que só acredita neles quem gosta de ser enganado. O pior é que tem muita gente que gosta mesmo. Depois correm para os ombros amigos a se lamentar e a fazer um tardio “mea culpa”.

Apesar dos pesares discordo frontalmente de quem acha que criticar os políticos é perda de tempo, porque, como diriam uns, “cada povo tem os políticos que merece”. Uma forma de querer transferir para nossa gente a culpa total do comportamento condenável de algumas dezenas deles.

Alegam que os políticos vêm do povo (sim é certo) para concluir que se há corruptos é porque a origem deles, ou seja nós, povo, também o seríamos. Devagar, amiga, não é por aí que encontrará suas respostas. Falhas de caráter há em alguns de nós, mas isentar de crítica os políticos, os que a merecem, só porque vêm do povo, é uma forma muito cômoda de silenciar e jogar no ventilador. Isto é profundamente injusto.

Encerrando, amigos e amigas, enquanto o voto for obrigatório, vote, mas não por obrigação e sim exercendo sua cidadania. Sei que está muito difícil escolher e confiar neste ou naquele, afinal o passado político de nosso país, até bem recente, condena muitos que, mesmo envolvidos em processos de corrupção e outras tramóias, se candidatam jurando ser inocentes. Atenção aos nomes destes.

Vá com calma, tenha muito cuidado, pesquise bem sobre os nomes dos seus preferidos, e creia que, mesmo assim, você ainda corre o risco de se arrepender depois. Não seria a primeira vez e nem será a última, amigos e amigas. Boa sorte.



(26 de agosto/2006)
CooJornal no 491


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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