02/09/2006
Ano 10 - Número 492

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

COITADO DO PLUTA

Pois é, amigos, o nosso Plutão vivia lá na sua modesta órbita, segundo dizem, meio desajeitada, mas uma órbita como convém a todo planeta: “Trajetória fechada que um astro descreve em torno de outro.”

Eles o haviam descoberto e elevado à categoria de planeta no ano de 1930, um pouco antes de eu nascer. Sabe-se lá há quantos bilhões ou trilhões de anos o pequenino Plutão, Plut, para os íntimos, estava lá, sempre esteve lá.

Ele se encontra a uma distância do nosso Sol que é cerca de 40 vezes maior do que a distância em que está a Terra. Tão distante, quase vivendo, digamos assim, nas sombras desta galáxia.

Sentia-se em família e pouco ou nada ligava ao fato de ser o menor dos astros que giram em torno do nosso sol. Sempre pensou que tamanho não fosse documento. E agora alguns sabichões criam ou alteram regras e consideram que não só o tamanho deva ser documento, como também outros detalhes da formação do astro.

E eu que pensei que essas coisas fossem tão estáveis que não estariam sujeitas a modificações repentinas como a nossa constituição, ou certas de nossas leis. Mas me enganei. Cheguei a julgar que essa decisão deveria ter alguma coisa a ver com o clima eleitoral que está aí, mas parece que não.

Imaginem que as pessoas nascidas sob o signo de escorpião estão se sentindo meio desamparadas. Por quê? Ora, não sabiam que o nosso Plutão é que rege aquele signo? E agora? Estariam sem um padrinho, sem o seu pistolão oficial na constelação do Zodíaco?! Barbaridade.

Eu me pergunto a razão desta preocupação. Afinal há tantos plutos, tantos plutões e plutinhos agindo por aí, atrapalhando a vida de tanta gente, metendo-se em conchavos de toda ordem, e que com a maior cara de pau prosseguem no cenário de nossa sociedade, em tantos níveis, alguns de forma intocável, outros respondendo a processos, outros a caminho de eventuais cassações.

Isso sem falar nos filhos dos plutos, dos plutões e dos plutinhos, rotineiramente a serem favorecidos com atos de nepotismo e outros. Mas, por que o Plut?

Logo ele, lá, tão longe, sem sequer ficar a meter o bedelho na vida dos outros, respeitando as regras que lhe são impostas há tanto tempo, desprovido de vaidades fúteis, sem invejar a beleza da Terra, a grandiosidade de Júpiter, o poder do Sol, a poesia da Lua, reduzido à sua insignificante “plutanada” e vivendo tão distante do centro de nosso sistema solar, por que ele? Por que o rebaixaram?

Como disse um comentarista esportivo, desceram-no agora para uma espécie de terceira divisão planetária. Coitado, nem deve ter pistolão para tentar um retorno rápido à sua posição histórica através de um ... tapetão zodiacal. Coitado do Plut.

Empresto a ele a minha solidariedade, mas como sou meio avesso a passeatas, não conclamarei ninguém a realizar caminhadas em defesa dos direitos de Plutão. No fundo ele foi mesmo é cassado nas caladas da noite, como convém a todo golpe. E disso nós entendemos, pois já fomos vítimas dele, certo?

Aliás, se o nosso bom Plut fosse depender de haver uma consciência nacional, digamos assim, que saísse às ruas, subisse às rampas, gritasse bem alto por ele, estaria mesmo ainda mais ferrado do que agora se encontra.

Por aqui atualmente andamos a engolir sapos de toda ordem, de todo tamanho, e relaxados, parece que tão acomodados quanto resignados, sem usar a cabeça para pensar, para discernir, sem usar a voz com indignação por mais nada, mais preocupados com o Tevez, se vai ou se fica, com a novela das nove, ou a das sete, com quem será o novo símbolo sexual, ou qual a nova moda de verão, etc e tal.

Coitado do Plut, pobres de nós, saudades daqueles tempos em que tínhamos mais vergonha na cara e disposição para pugnar por alguma causa. Em que, se pisavam em nossas flores, não enfiávamos nossa cabeça em buracos os mais abjetos como o fazemos agora. Pobre destino nos espera.

Plutão, bom amigo, não perca a esperança, quem sabe alguém ainda “vira a mesa” e devolve-lhe o seu status?! Talvez seja a única “virada” justa.

Boa sorte, caro Plut, e reze por nós.



(02 de setembro/2006)
CooJornal no 492


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br