09/09/2006
Ano 10 - Número 493

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

AS TORRES

Eu havia dormido um pouco mais tarde na noite anterior, então ainda curtia uma extensão do sono naquela manhã já bem clara. Fui acordado por minha esposa que, nervosa, insistia para que eu levantasse e fosse ver algo na TV. Esfregando os olhos meio embaçados encontrei forças para pôr-me de pé e ir até à copa.

Parada em frente à TV ela tentava me descrever o que acabara de assistir, ao vivo. Julguei que ela estivesse enganada, mas logo a seguir também fui testemunha de um segundo avião se aproximando das duas torres de Nova York e se chocando violentamente contra uma delas. Realmente a cena estava a ser transmitida ao vivo.

Parecia que eu estava ainda mergulhado em algum sonho, mas era real. Nem consegui tomar direito o meu desjejum. Estava difícil de o digerir assim como àquela macabra realidade, cujas cenas passaram a ser seguidamente repetidas.

Os narradores apresentavam aquilo como um ato de terrorismo dos mais audaciosos de todos os tempos. Não havia nenhuma dúvida, pois tentavam derrubar os símbolos maiores de uma cidade como Nova York, de uma nação como os EUA, à luz do dia. Senti-me meio zonzo, confesso, especialmente ao presenciar as cenas seguintes, minutos depois, quando pessoas se atiravam em desespero de andares muito altos.

Por fim, as duas torres desabaram. Não eram indestrutíveis. Mais tarde vieram notícias sobre mais dois aviões, um que caíra em campo aberto, matando todos os passageiros e outro que teria sido dirigido ao Pentágono. Sobre este, até hoje há várias versões, inclusive de que não teria sido um avião, mas sim um míssil ou coisa parecida.

Lembro-me também da cena que a TV americana mostrou onde o presidente Bush, em visita a uma escola de crianças no sul do país, ao ser informado por um auxiliar que lhe sussurrou ao ouvido o que teria acabado de acontecer, permaneceu ele com ar de frieza e indiferença, sem demonstrar nenhuma emoção, como seria de se esperar.

O tempo passou e se iniciou um verdadeiro tiroteio de noticiários os mais divergentes. Aquele ato de terror começou a ser pintado de várias formas. Acompanhei tudo com muito interesse, especialmente pela imprensa internacional. Versões surgiam aqui e ali, enquanto uma pouco velada censura atuava sobre a imprensa americana. Por quê? Muitas perguntas começaram a não querer se calar.

A precipitação oficial em acusar o terrorismo aquartelado no Afeganistão, onde se esconderia o saudita Bin Laden, justificando uma guerra desigual e sem maior propósito, aparentemente, acabou, bem mais tarde, conflitando com denúncias de que, no mesmo dia do ataque às torres, embora todos os aeroportos tivessem sido fechados, de alguma forma teria sido facilitada a saída do país da família do mesmo Bin Laden.

Por outro lado, embora todos os terroristas que teriam conduzido as aeronaves no dia 11/setembro fossem naturais da Arábia Saudita, o governo americano voltou depois o seu discurso agressivo contra o Iraque. As justificativas de armas de destruição em massa que Saddam Hussein possuiria, outro ex aliado americano importante na luta contra o Ayatolá Komeini, do Irã, anteriormente, foram depois postas abaixo por inspetores, não apenas da ONU, como dos próprios EUA. Outra mentira viera à tona.

Mas o Iraque já fora atacado e tomado. Milhares de pessoas, especialmente inocentes, populares, haviam, e continuam a ser mortos naquele país, mesmo depois daquela esfuziante comemoração do governo americano anunciando que a guerra fora vencida. Afinal, pelo que se vê ainda hoje, aquilo não passou de um delírio de uma noite de verão. A guerra não acabou, a luta continua e muito sangrenta.

Quando a guerra contra o Iraque começara surgiram versões, na própria imprensa dos EUA, de que autoridades haviam sido avisadas previamente sobre a possível existência de algum plano terrorista dentro do próprio país. Declarações de donos de escolas de pilotagem informavam sobre pessoas de origem árabe, que os procuraram querendo apenas aprender a fazer decolar um avião.

Posteriormente alguns agentes da própria CIA declaravam haver feito relatórios a seus superiores sobre evidências de que algum plano terrorista estaria por ser executado. Isto antes de 11/setembro. A mídia americana, se libertando da mal disfarçada censura anterior, começava a dar sinais de se livrar daquele jugo oficial.

Enquanto isso, e até hoje, Bin Laden, apontado com tanta certeza como o mentor da derrubada das duas torres, passou a não ser mais citado e provavelmente nem mais procurado. Ele que já servira, no próprio Afeganistão, aos interesses americanos na luta contra os russos, naquele país, nos idos de 1988. Ex aliado muito importante.

Ele, cuja família fora, por décadas, muito íntima da família Bush, desde o avô deste, história contada no artigo de Frei Beto, “Laços de Família”, em O Estado de S. Paulo, edição de 31.10.2001. O jornalista sugeria inclusive a leitura do livro “A Fortunate Son: George W. Bush and the Making of an American President”, de Steve Hatfield, para quem desejasse conhecer melhor o que ele chamou de “Laços de Família.”

A verdade é que até hoje perduram muitas dúvidas sobre o que ocorreu no dia 11/09/2001. Dúvidas do porque não evitaram ou não teriam conseguido evitar. Há muitas perguntas sem resposta. Como, de repente, e inexplicavelmente, uns poucos terroristas conseguiram concretizar seus atos criminosos, mesmo tendo os EUA os dois maiores serviços, tanto de informação quanto de espionagem, do mundo?

Encerro sugerindo, para quem desejar maiores detalhes e informações de análises da época, que leiam, aqui ao lado, no meu ARQUIVO SIMÕES, as seguintes crônicas: “Onde estão as respostas?” – “Onde está o Bin?” – “Maçãs podres? E Arbustos?”




(09 de setembro/2006)
CooJornal no 493


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br