23/09/2006
Ano 10 - Número 495

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

O ÓBVIO ULULANTE

Pois é, amigos, eu sempre desconfio quando me vejo à frente com algum óbvio. E pior é se ele for óbvio demais. Claro que há óbvios e óbvios, mas alguns são mesmo mal intencionados, até porque manipulados, ou construídos de forma a causar prejuízo a alguém. Não duvidem, vocês mesmos já testemunharam alguns deles.

O óbvio aumenta o seu risco de credibilidade especialmente se ele, por ser tão óbvio, acaba alcançando o nível que o nosso saudoso Nelson Rodrigues tanto usou: ululante. Ah, o óbvio ululante... Por favor, sem qualquer trocadilho infame.

Para não me alongar vou recordar aos amigos que no ano de 1989 houve dois óbvios que muito se destacaram, que estiveram em plena evidência na política. Procurem lembrar. O primeiro deles foi tão ululante, mas tão ululante, que sequer mereceria algum crédito. Alcançou as raias do ridículo, do absurdo mesmo, mas... funcionou.

Quero dizer que aquele óbvio ululante, claríssimo, insofismável, gritante, levou ao convencimento mentes que apenas queriam só uma pontinha que fosse a mais para acreditarem em qualquer coisa e... pimba, a mentira venceu.

Mas, foi preciso uma segunda rodada para que a tal vitória fosse confirmada pelas regras da disputa. Por via das dúvidas, e provavelmente com a mesma autoria, outro óbvio foi lançado em evidência. Outro óbvio também ululante, claro. Depois da experiência do anterior havia quem acreditasse em qualquer coisa e este óbvio também funcionou na prática. Não foi ingenuidade, foi talvez preconceito. Pois é.

Assim a mentira confirmou sua vitória. Todos felizes, mas... apenas por algumas horas. Logo a mentira tirou a máscara e mostrou sua face cruel. Todos pasmos a pensar: “ora, o que fizemos?”... “como caímos nessa?”... Já estava tudo consagrado.

A mentira, com ares de vitoriosa e julgando-se toda poderosa acima de qualquer suspeita, acabou por permitir abusos incalculáveis, inacreditáveis, num jogo de poder que engolia quem a ele se contrapusesse. Porém, crente de ser indestrutível, deve ter batido de frente com as tais “forças ocultas”, as mesmas denunciadas por Jânio Quadros quando renunciou, embora ninguém lhe desse crédito.

E a mentira caiu em defenestração embora tanto bradasse: “Não me deixem só”! Quanto aos dois óbvios ululantes, bem, eles também acabaram escorregando para o esquecimento como é muito comum por aqui. Afinal fizeram seu serviço sujo. Mas outros óbvios aconteceram alguns anos depois.

Sempre a serviço do mesmo lado, mais uns dois óbvios, talvez não tão ululantes, porém óbvios, prestaram-se a estragos idênticos. Como diz o dicionário”... que se compreende por intuição, evidentes...” Acreditaram neles e tocaram a vida.

Infelizmente quando a tática dos óbvios não mais funcionou, a esperança, que tinha então imenso crédito de verdade, que tanto insistira e finalmente alcançara o triunfo, acabou por meter os pés pelas mãos. Talvez mais as mãos do que os pés. Tratou de imitar mentiras anteriores, de certo modo, sem nenhuma cerimônia. Decepção.

Imbróglio terrível, antes inacreditável e inaceitável, mas tristemente verdadeiro. A esperança passou tão maus momentos que por pouco não morreu. Em alguns corações, todavia, ela chegou mesmo a ser sepultada. Teve sorte de não ser impugnada, não obstante as contestações. Ela vai sobrevivendo apesar dos pesares.

E de repente, quando ela mais se empenha para dar a volta por cima, o que chegou a parecer impossível, quando novo triunfo se vai sedimentando, pois parece ainda gerar confiança não obstante o rastro de lama a marcar sua trajetória, eis que ela, a esperança, se defronta com novos... óbvios. E esses, meu Deus, me perdoe, mas são ululantes por demais!! Ululantes no mesmo sentido dos anteriores, percebem?

Face à nova consagração que a cada dia mais se evidencia, de certa forma até surpreendentemente, admitir-se que o “óbvio” venha agora da própria esperança, embora meio rota, esmaecida, mas buscando revigorar-se, é passar atestado de estupidez, de burrice, da mais rebaixada parvoíce à esperança e sua turma.

Diria que quem tem amigos, ou aliados, assim, pode prescindir de ter inimigos. É uma hipótese possível, sem dúvida alguma, mas ainda resisto um pouco a crer nela, apesar de tudo. Soa também como algo mal contado, mal apresentado, mal formulado, quiçá mal intencionado.

Entretanto, e, por outro lado, como sabemos que as raposas, além de gostarem de uvas, também adoram alguns óbvios, (vide em passado de poucos anos) ainda que ululantes, ou talvez, até melhor se forem assim, fica-nos aquela sensação de que já vimos este filme. Sim, já vimos, e a reprise, a esta altura, não deve causar os estragos antes obtidos. Quero dizer: não deve, mas...

Assim, recolho-me à minha insignificância, levando comigo a desconfiança, o desapontamento, a descrença crescente, o abatimento, o ver apagar-se a luz do final do túnel, tendo a escuridão como único óbvio ululante a me esperar pela frente, politicamente falando.




(23 de setembro/2006)
CooJornal no 495


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br