30/09/2006
Ano 10 - Número 496

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

Falando francamente

Amigos, proponho deixarmos de fingimento, de simulação, de um jogo de palavras que a nada leva e falarmos francamente, colocando as carapuças nas cabeças que fazem jus a elas, não na nossa. Talvez haja mais cabeças que carapuças, tudo bem.

Não falsearei a verdade, não é do meu feitio. Também não descerei o nível, o que nunca fiz, embora alguns gostem.  Mas, é preciso fazermos um exercício de memória.

1º ATO – O governo Lula ia navegando quando uma tsunami arrasou com a paz e o sossego dos que agiam nas caladas. Sem novidade. Já havia fumaças no ar quando o então deputado Roberto Jefferson, percebendo que poderia ser arrastado pela onda gigante que se avizinhava, botou a boca no trombone, antecipando-se aos fatos.

Todos nos lembramos da espetaculosidade de sua apresentação no Congresso com sua metralhadora giratória descarregando denúncias para todo lado. Ele foi veemente, em certos momentos, especialmente com pessoas como José Dirceu, então Chefe da Casa Civil, que atuava na sala ao lado da do presidente e seu amigo íntimo. Apesar dos desmentidos, Zé acabou saindo num ato de defenestração oficial. Mas, está por aí.   

Lembro-me muito bem, todavia, de que Jefferson procurou, o tempo todo, eximir o presidente de qualquer culpa na enxurrada de denúncias que fazia. E repetiu a defesa  de Lula várias vezes. Pergunto: ele acreditava mesmo no que dizia? Do contrário, por que o fazia? Ou então, por que mais tarde, quando caiu em desgraça, se contradisse,  passando a atacar o Sr. Lula com veemência igual àquela com que o defendera antes?! Por quê? Quando Jefferson estaria sendo sincero, quando estaria falando a verdade?

2º ATO – As denúncias de corrupção foram crescendo, as CPIs começaram a ser formadas, os discursos, especialmente de líderes da chamada oposição, se repetiam com muita freqüência e demissões ocorriam no governo e na direção do PT. O cenário nos levava a crer em perda total para o Sr. Lula. Ele se defendia afirmando de nada saber, nada ter visto nem ouvido. Mas, toda semana mais corrupção era denunciada.

Quando subiam à tribuna para falar, em especial os senhores ACM Neto (PFL) e Virgílio (PSDB), se diziam inconformados com aquele estado de coisas a que estavam levando o país. Seus discursos visavam sempre o Palácio do Planalto. Uma das vezes chegaram a perder a linha e apelaram para o baixo nível e palavras chulas, o que não correspondia a suas posições de liderança de partidos que já haviam estado no poder.

Poderiam ter razão na revolta, é verdade, o mar de lama avançava e cheguei a crer que estaríamos a caminhar para um final idêntico ao que ocorreu no governo Collor. Foi então lançada a iniciativa de pedirem o impeachment do Sr. Presidente. Isto foi dito e repetido com veemência pela oposição. Sim, foi dito, e repetido, mas...  logo as palavras começaram a arrefecer e a tal iniciativa creio que arquivada. Por quê?

Em verdade ficou em nossa lembrança, quando muito, uma intenção, mas jamais vimos uma ação correspondente. Por que o recuo? Por que as respostas evasivas, dos acusadores, que passamos a ouvir depois? Afinal eles tinham ou não argumentos suficientes para aquela iniciativa? Se tinham, ou têm, porque a tal oposição se encolheu, embora mantivesse discursos acalorados à frente das câmeras?

3º ATO – Mais a seguir, os relatórios da Comissão de Ética foram encaminhados ao plenário indicando os nomes de políticos que deveriam ser cassados, apresentando argumentos e provas que os condenavam por envolvimento no tal processo do “mensalão” e outros. Os políticos exigiram o voto secreto.

E o que se viu foi um festival de absolvições para as quais contribuíram, não apenas votos da situação, como também, e naturalmente, de gente da tal oposição. Políticos de vários partidos, inclusive do PT, claro, condenados pela Comissão de Ética, acabaram se livrando da já quase inevitável cassação. No plenário, em votação secreta. Por quê?

4º ATO – Mais para a frente, quando começaram a cogitar de diversas candidaturas para concorrerem à Presidência, o PSDB colocou em primeiro plano o nome de José Serra. Pesquisas logo foram realizadas. Ficou evidente que se o Sr. Lula tentasse mesmo a reeleição deveria ter dificuldades na disputa com Serra. Mais: ninguém venceria no primeiro turno, e no segundo a diferença não era muito significativa.

O quadro se desenhava, e se a sua memória anda boa, deve lembrar que, ao repetirem pesquisas, a diferença entre o Sr. Lula e Serra chegou a diminuir. Tudo indicava uma disputa acirrada, embora ainda fosse muito cedo para fazer prognósticos mais confiáveis. O fato é que o PSDB entraria com chance no pleito, sem qualquer dúvida.

Aí vem a pulga e se esconde atrás de minha orelha... Por que de repente excluíram José Serra de candidato e o substituíram por Alkimin? Me respondam: se alguém quer, e muito, vencer um jogo, um campeonato, não deve manter em campo o que de melhor tiver em seus quadros? Se não melhor, porém mais eficiente, no caso, politicamente falando? Com a disputa anterior com Lula, Serra já tinha uma projeção nacional que Alkimin nem de longe pode sonhar agora.

Então ficam pessoas a fazer intensa campanha política pela Internet visando à troca de mãos no poder, o que julgo salutar e normal, (aliás, sou contra a reeleição) todavia não questionam partidos nem candidatos com atitudes muito, muito enigmáticas, obscuras, que não condizem com os discursos de seus líderes. E ainda vivem a baixar o nível de forma deselegante. Francamente... Assim tudo se nivela.

Pensa gente, pensa. Haverá realmente esta oposição, em termos políticos, ou uma fantasia politiqueira? Acreditam que os “alkinmistas” têm a panacéia, ou o remédio para a cura dos nossos males?! Lembram dos oito anos do governo tucano? Se tivesse sido tão bom o PT não estaria hoje no poder. Pensa gente, pensa.

Já procuraram outro candidato? Desliguem-se das pesquisas e procurem. Ainda dá tempo. Eu já encontrei. Votemos sério e não pelo voto útil. Viram o debate? Então?!




(30 de setembro/2006)
CooJornal no 496


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br