07/10/2006
Ano 10 - Número 497

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

COPAS, CARPAS E CULPAS

Eu estava escrevendo esta crônica quando li o texto do jornalista Rui Martins, brasileiro, que vive na Suíça e que também escreve para este coojornal. Isto ocorreu no dia 08 de Agosto. Seu título é: “Como saber se o resultado não foi negociado?” Aconselho a leitura do mesmo no Arquivo do referido jornalista no Rio Total.

À parte o bonito espetáculo que nos é proporcionado a cada quatro anos com a realização da Copa do Mundo de futebol a verdade é que alguns feiúmes pontilham habitualmente vários dos jogos entre importantes seleções. Uns chegam mesmo a decidir resultados e até títulos.

Em 1966, Copa realizada na Inglaterra, na qual Portugal obteve um honroso terceiro lugar, a seleção patrocinadora chegou à final. No jogo decisivo contra a Alemanha valeu até gol, a favor dos ingleses, sem a bola sequer ter entrado. Isto foi bem flagrante. Basta consultar imagens da época. Quem viu não deve ter esquecido.

O fato foi muito comentado mas, como sempre, depois caiu no esquecimento. Erro grave da arbitragem? Poderia ser, mas foi evidente demais e o árbitro estava bem perto do lance. Por que nesses casos eles nunca “erram” contra os donos da bola, ou os patrocinadores?! Pois é.

Na única das Copas realizadas na Argentina, quem não se lembra de que “nuestros hermanos” precisavam de golear a seleção peruana a fim de eliminar o Brasil? O Peru já não pretendia mais nada, porém, misteriosamente caminhou em campo, sem nenhum interesse, e se deixou golear por... 7x0. Que coincidência incrível, não acham?

Muita coisa foi dita, na época, mas somente vários anos depois, alguns dos jogadores peruanos, que não mais atuavam em futebol, resolveram confessar o que todos já desconfiavam. Em várias entrevistas eles abriram o jogo, como se diz.

Mas, naquela Copa teve mais “feiúmes”. Lembram do tal gol feito por Maradona, porém, como ele cinicamente declarou, com “la mano de Dios”?! Pior é que levaram o fato para o lado da galhofa, o gol acabou valendo, e Maradona sendo considerado criativo, esperto, e outros adjetivos que deploro, quando no mau sentido. E a decisão contra a Holanda, hein?! O árbitro devia estar sofrendo de conjuntivite providencial.

Em 1997, quando se realizava na Europa a fase de classificação para a Copa do ano seguinte, na França, eu assisti, ao vivo, ao jogo Portugal x Alemanha. Para os patrocinadores evidentemente interessava mais a presença alemã naquela Copa. Ocorre que Portugal estava em vantagem naquele jogo decisivo e a ponto de eliminar a poderosa seleção alemã. O árbitro, não sei se por outra dessas coincidências de Copa ou pré Copa, era... francês. A França seria o país sede de 1998, repito.

Já na metade do segundo tempo Portugal procurava segurar o placar que lhe garantia a classificação. O árbitro exibia, em muitos lances duvidosos, o seu claro nervosismo. O técnico português decidiu então retirar um dos mais importantes atacantes lusos e fechar ainda mais sua defesa. Ele agia certo. Quando o atleta se retirava de campo para ser substituído ocorreu um fato que nunca antes, nem depois, se repetiu em futebol. Senti-me entre revoltado e enojado, amigos.

O árbitro francês correu na direção do jogador português, pelas costas, e sem sequer pedir que este se virasse para ele, aplicou-lhe o cartão vermelho, ou, o expulsou, sem ter amarelo. Faltavam então uns 15 minutos para o final da partida. Sua Senhoria teria dito que o atleta andara devagar para provocar o passar do tempo e garantir o sucesso de Portugal. Ora, bolas, não somos idiotas, ele poderia, como manda a regra, dar os acréscimos que julgasse necessários e assim compensar. Mas não, preferiu deixar bem patente sua preocupação com quem deveria ser o vencedor daquele jogo.

Num lance daqueles o árbitro desestruturou o time luso e o esquema de seu técnico. Mais, a seguir ele cuidou de marcar um penalty duvidoso contra Portugal, e assim cumprir fielmente o papel para o qual estaria ele determinado, acredito. Eu vi, amigos, e ao vivo, ninguém me contou. Assim Portugal não esteve na Copa de 1998, mas a Alemanha sim. “Feiúmes” pré Copa que contrariam o “fair play” da Fifa.

Quando a mesma Alemanha tentava, creio que seu segundo título, a Áustria, país irmão dos germanos, consta ter facilitado o resultado de um jogo, na fase inicial, a fim de não complicar a caminhada dos alemães. Mas isso faz muito, muito tempo.

Durante a Copa de 1998 eu estava morando na Europa e passeava, durante aquele certame, por várias cidades da Itália e da mesma França. Assisti a belos espetáculos entre vencedores e perdedores. Os alemães eliminaram os mexicanos nas quartas-de-final, de virada por 2x1. Foi na cidade de Montpelier. Eu estava lá passando três dias.

O congraçamento entre ambas as torcidas, à noite, na linda Place de la Comedie, foi algo digno de ser presenciado. Filmei tudo e montei um pequeno documentário em vídeo. Milhares de pessoas se encontravam na imensa praça, bebiam, cantavam, dançavam, até ao som de uma batucada legitimamente brasileira. Tudo muito lindo.

No dia da decisão entre França e Brasil eu cheguei à cidade de Lyon, pela manhã. Durante o almoço conversei com um jovem garçom, muito educado. Ele, assim como uma legião imensa de franceses, não acreditava que o Brasil perdesse aquele jogo. Procurei injetar-lhe ânimo e comentei que Zidane retornaria de uma suspensão de dois jogos ao ser expulso de campo contra a Arábia Saudita.

O francês falou maravilhas sobre nossa seleção e afirmou que o time deles não tinha condições de vencer e que não acreditava em Zidane, pois nada fizera, até então. Essa posição dele estava evidente até em charges de jornais franceses que davam a entender um certo descaso para com o jogo e uma descrença com a possibilidade de vencerem o Brasil. Eu falei a ele que temia pela nossa defesa, na qual não confiava.

À noite eu assisti ao jogo pela Tv no quarto do Hotel, junto com minha esposa. Sinceramente, até hoje me recuso a crer nas “explicações oficiais” para o triste espetáculo que a nossa seleção proporcionou ao mundo. Quem sabe algum dia alguém fará como os peruanos após o vexame deles na Copa da Argentina?! Quem sabe um dia ouviremos outra versão para aqueles fatos? Quem sabe? Aguardemos.

Na manhã seguinte fiz questão de ir cumprimentar o amigo garçom, francês. Ele me olhou com ar de espanto e perguntou se eu era adivinho ou mágico, pela “previsão” que fizera a ele na véspera. Em verdade eu queria mais era consolar antecipadamente o amigo garçom.

Mas, ele disse claramente que ainda não acreditava no que assistira na noite anterior. Imaginem nós!! Outro “feiúme” muito mal explicado. Um dia será que alguém falará mesmo?!




(07 de outubro/2006)
CooJornal no 497


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br