14/10/2006
Ano 10 - Número 498

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

TIROTEIO POLÍTICO

Pois é, gente boa, a coisa está realmente feia. E haja paciência para aturar a excitação de muitos, a agressividade de outros, o desejo de vingança de alguns, a memória persecutória de tantos mais, não bastasse a descida ainda mais rápida do nível nesta disputa para o segundo turno das eleições, entre candidatos e partidos.

Digo mais, não bastasse também tudo que andaram espalhando por esta Internet antes do primeiro turno, ora xingando o Lula, até com palavras de baixo calão, ora relembrando falcatruas denunciadas nos dois governos e as não apuradas no governo anterior, a incansável turma do “ataque”, de ambos os lados, tem se dado ao trabalho de repetir tudo novamente. Afinal há um prato cheio para tantas críticas, é verdade.

Agora andam mergulhando forte também nas tais “alianças” que os candidatos se esforçam por fechar. Mas, ora, eles capricham no mau gosto e dão motivos. Parece que vale tudo para vencer e neste momento ninguém anda podendo usar na lapela a tal de ética, pois estão ignorando a dita cuja com a maior cara de pau e ainda justificam seus encontros secretos, e outros nem tanto, no afã de vencer a eleição.

O Lula já de há muito fugira da linha que se esperava dele e do PT com algumas alianças nada recomendáveis. Mas no presente, como diria um amigo meu, “abriram a porteira”... É só dizer que é amigo do Lula e vai entrando. Tem sempre lugar para mais um. Então a turma dos e-mails, que lotam nossa caixa de entrada, não perdoam e tome cacetada, crítica de toda espécie, valendo até ponta pé no... e como dói, não?!

Também como segurar a bandeira da ética chamando Jader de “meu companheiro”, aceitando de bom grado o apoio verbal de Collor, o ressuscitado, de Maluf, parece que em liberdade provisória, de Quércia, querendo voltar, e sei lá mais quantos nesta arca do Lula querendo escapar do dilúvio do esquecimento popular? Haja paciência.

E alguns internautas, não se contendo, nem medem as palavras, o que é deplorável. Não querendo a vitória do Lula, por outro lado agem como se o outro candidato, o Alkimin, ou o PSDB, não tivessem qualquer defeito. Pintam-nos como grandes salvadores desta pátria pouco amada pelos políticos, de uma maneira geral. São os cegos que não querem ver, ou só olham para um lado.

Esquecem-se dos oito anos de governo dos tucanos. Se eles tivessem governado para o povo, o PT não estaria no poder maior agora, não é claro? Então? Ademais o PSDB vem tendo, historicamente, talvez uma das piores alianças, ou seja, a de tratar o PFL como “irmão”. Filho da ditadura militar hoje posa de democrata, mas... O atraso tem endereço e sabemos bem qual é. E esta aliança continuará, evidentemente.

Aí entra a turma que defende o Lula. Amigos gozam amigos, listas são acionadas e tome mensagens criticando posturas do Alkimin, especialmente esta inesperada aliança, no Rio, com o casal Garotinho. Este garante que foi procurado e não se ofereceu para apoiar antes, só após o encontro entre eles. É difícil acreditar de que lado está a verdade a esta altura. Aliás, eles estão mais para pinóquios, todos.

Que cada um faça a defesa de quem quiser, mas que não usem denúncias contra o outro sem provas. Me aborrece profundamente quando recebo também mensagens com palavras chulas, termos impróprios, acusações sem apresentarem a origem do fato, de onde as extraíram, em que se baseiam, seja contra Lula ou contra Alkimin. Mas parece que os dois lados não estão preocupados com a “ética das palavras”.

Até inventar artigo de determinado jornalista, que jamais o escreveu, tiveram a imprudência de distribuir nesta rede. Ele visava a criticar severamente o candidato Alkimin. E eu, confiando em quem me passou aquilo, crente que pisava em solo confiável, até o enviei a alguns amigos mais chegados, visto que ficara estupefato com tal denúncia. Pesquisando depois, por alerta de um amigo, acabei dando ouvido ao que a dignidade, a seriedade, e por que não dizer, a ética, me aconselharam, e pedi desculpas a todos. Assim sou eu.

Exageram muitas vezes ao criticar um ou outro candidato escorregando em argumentações que não têm apoio sólido na verdade. Por exemplo, alguns petistas pisaram na bola, é indiscutível, decepcionaram os milhões de eleitores que neles confiaram passando uma péssima impressão que se reflete, por último, no próprio governo, o que é indefensável, sem dúvida. Mancharam feio a ética defendida pelo PT.

Até aí, tudo certo, merecem as ferozes críticas que ainda estão a receber. Agora, partir daí para generalizar, como li em algumas mensagens, dizendo que aquele partido é um covil de bandidos, chamando a todos os petistas de vendilhões da pátria, entre outros termos pesados, desculpem, mas é injusto com pessoas como o digno senador, Sr. Eduardo Suplicy, novamente reeleito por S. Paulo com mais de 9 milhões de votos, onde o PSDB tem mais força, além do honrado senador Saturnino Braga (RJ), de Paulo Paim (RS), entre outros.

Claro que há pessoas sérias e dignas no PT, e não querer admitir isso é se deixar cegar com o efeito devastador da corrupção de alguns petistas alimentando uma vingança generalizada. Não defendo ninguém e nenhum grupo, mas farei sempre a defesa da verdade, doa a quem doer. Radicalismos não me agradam, e me oporei sempre a eles. Por outro lado analiso, também com isenção, repito, a crítica mal arquitetada que igualmente atinge o candidato do PSDB.

É evidente que foram muitas as queixas e denúncias durante os oito anos do governo de FHC. Agora, querer colar no Alkimin as mazelas daquele governo, afirmando que ele seguirá a mesma trilha de FHC julgo um ledo engano e, de certa forma, injusto, além de ser uma argumentação pouco inteligente. Mas alguns que defendem a candidatura de Lula o fazem. Eu recebo inúmeras destas mensagens.

Procurar argumentos para crítica nos mandatos de Alkimin em S. Paulo, como Prefeito e/ou como governador, tudo bem, desde que a crítica seja bem fundamentada, comprovada, não levianamente jogada na Internet como muitos o têm feito. Não aceito, não aprovo e deploro este tipo rasteiro de tentar ajudar algum candidato.

Se nós, como povo e eleitores, não primarmos pela seriedade, se seguirmos a trilha do desrespeito, da irresponsabilidade, de um denuncismo que nada constrói porque acirra ânimos e geralmente não se comprova, como querermos posar de juízes de quem quer que seja, de exigir ética dos dois candidatos?

Este tiroteio político a que temos assistido, pautado num nível desanimador de palavras, chegando muitas das vezes a ser ofensivo, não se justifica. Eu lamento, sinceramente, pois alguns ditos críticos sequer se apóiam mesmo em verdades, ou na ética necessária até quando a nossa indignação é justa, seja contra quem for. Não é por aí. Só ficamos a dar péssimos exemplos como cidadãos.



(14 de outubro/2006)
CooJornal no 498


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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