21/10/2006
Ano 10 - Número 499

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

A MINHA BANDEIRA BRANCA

No sábado passado entrei no coojornal da revista Rio Total com a crônica TIROTEIO POLÍTICO. Dei a minha posição sincera, verdadeira, isenta, sobre o tiroteio que já estava começando por esta Internet a caminho do segundo turno das eleições.

Infelizmente algumas pessoas parece que perderam completamente o bom senso, o equilíbrio, o sentido da dignidade, e da ética que tanto reclamam dos políticos. Exigem deles, mas não têm nenhum constrangimento em cuspir nela, escorraçá-la do seu caráter, da sua dignidade seriamente ameaçada com tais comportamentos.

Passaram-se poucos dias e minha caixa de entrada já anda a ficar entulhada com denúncias absurdas, sem nenhum sentido, acusações desprovidas de comprovações, criando um clima de guerra quando vivem tanto a falar de paz. Tudo pela disputa do segundo turno desta eleição presidencial tupiniquim.

A mentira parece que foi adotada por muitos e dane-se a seriedade, a dignidade, a vergonha na cara, o escrúpulo, e viva a impudência, a desfaçatez, o atrevimento, a vilanagem. Para alguns vale tudo, até admitir que os fins justifiquem os meios.

Será que se dão conta de que estão a espalhar um terrorismo que só destrói, que vilipendia seus argumentos, sejam quais forem, em favor de qualquer candidato? Quem age assim não tem nenhuma força moral para acusar outros do que quer que seja, com certeza.

Quem usa a mentira como sua bandeira, sabendo que o está fazendo, despreza a verdade, ignora a decantada ética, e se esconde covardemente num anonimato, muitas das vezes, ou transfere a autoria disto e daquilo para terceiros que daquilo nunca participaram, como eu já comprovei em alguns casos. Triste e lamentável.

Estou ficando propenso a dar razão ao escritor João Ubaldo Ribeiro, em crônica recente, quando colocou sobre os nossos ombros, como povo, a responsabilidade maior do que se passa de ruim, inclusive na política. Se passamos a não ter mesmo escrúpulos para fazer acusações sem provas, denúncias inventadas, arquitetadas, para prejudicar um ou outro candidato, se levar vantagem continua a ser a regra para outros, estamos muito, mas muito mal como povo. Deplorável.

Se é com este espírito que vamos às urnas, como exigir comportamento melhor dos que elegermos? Estão a dar os piores exemplos e rasgando a sua cidadania num momento tão importante para o destino de nossa pátria. Desculpem, mas é uma vergonha sim. Fazer campanha desta forma só deprecia a nós como povo também.

Recebi, há dias, uma mensagem que atribuía a um jornalista a denúncia de uma aposentadoria que o candidato Alkimin teria, a qual seria irregular. Aquilo me surpreendeu, confesso, embora não esteja a tomar partido nesta eleição, a não ser o da verdade. Pesquisei fundo e descobri que o referido jornalista jamais escrevera aquilo o que, por si só invalidava a suposta denúncia e exibia uma das inúmeras calúnias que proliferam pela Internet num jogo sujo e desleal.

Dias depois chegou-me outra mensagem, desta feita apresentando algo que seria um extrato de pagamento ao candidato Lula de uma aposentadoria estranha e certamente irregular. Também me surpreendeu até porque o tal extrato estava bem montado, com nome do Banco pagador, número da agência e endereço da mesma. Ele receberia a aposentadoria referida sem pagar imposto de renda.

Voltei a mergulhar fundo em minhas pesquisas e descobri que o citado Banco, o Bradesco, não tinha, entre suas 15 filiais em S. Bernardo do Campo (SP), nenhuma com aquele nome, com aquele número código, ou aquele endereço referidos no tal extrato. Tratava-se realmente de uma montagem, mais uma, visando a lançar calúnia, desta feita sobre o outro candidato, o Lula.

Neste ínterim recebi de várias pessoas a mesma mensagem que fala num alerta geral sobre um provável calote que o presidente Lula faria sobre nossas economias, tal e qual fizera há anos o Collor. Pior, aquilo veio com uma linguagem terrorista para deixar as pessoas assustadas e tendentes a acreditar, tal a veemência da afirmação.

Lamentável é que há quem creia singelamente nessas coisas sem se dar ao menos ao trabalho de pensar, de raciocinar um pouco. Escrevi para algumas amigas que se mostravam assustadas, fazendo ver que quando Collor fez o calote ele enfrentava uma inflação mensal em torno dos 80%, como herança da era Sarney. Não encontrando outra forma de pôr equilíbrio na economia, veio o tal calote.

Mostrei a elas que agora a inflação anual nem sequer está chegando aos 3%, repito, anual. Ela se localiza num patamar abaixo do anteriormente previsto pelo próprio governo. A economia, no estágio em que se encontra, não sugere absolutamente tal comportamento. Parece mais é que alguns querem acreditar, mesmo na mentira tão evidente. E são pessoas inteligentes, não analfabetas ou desinformadas.

Fiz a minha parte, numa análise correta dos fatos e sendo sincero e imparcial, agora, as pessoas acreditam no que quiserem. É provável que esta mensagem volte a mim outro dia. É um terrorismo incansável, porém improdutivo, além de nada inteligente. Mas deverão continuar inventando denúncias e estórias tantas impunemente. Triste.

E assim tem sido esses dias e assim deverá ser até as eleições. Parece que o Zé Ramalho também sabia o que dizia quando escreveu a letra: “Oh,oh,oh, vida de gado, povo marcado, povo feliz...” Foi em outra época, mas dimensiona bem, no momento, um desejo de certa parte de nossa gente em não pensar por si próprio, em se colocar um cabresto independente de que alguém o faça. Pobre sorte.

Isso tudo deixa a gente muito descrente, muito abatido. Nosso país não merece os políticos que tem, pelo menos em sua boa parte, mas nosso povo parece ávido em querer justificar o contrário. Talvez mereçamos o que seguidos governos nos vêm fazendo. Primeiro porque somos nós que os colocamos lá, segundo porque parece estarmos a perder o foco entre verdade e mentira, entre caráter e despudor, etc.

Embora eu não creia muito no que vou dizer, mas torcerei para que, vença quem vencer, saibamos nos unir e torcer pelo país, por nossa pátria, sem deixar de fiscalizar o comportamento do novo governo, mas sem fazer uma estúpida e incompreensível permanente oposição, pois agindo assim estaremos também torcendo contra o país.

É hora de união, de estarmos de um lado só, seja ele qual for, pois assim poderemos ajudar acima de tudo à nossa pátria, como já vi ocorrer em países europeus, quando lá vivi. Se permanecermos divididos, mais facilmente poderemos ser derrotados, ou quem sabe atrair alguma situação nada desejável pondo em risco nossa ainda jovem e frágil democracia. Pensem bem nisso.

Mesmo cansado e meio desiludido com o clima de terrorismo reinante nesta Internet, relativamente a um jogo político desleal e vergonhoso, sugiro que ergamos nossa bandeira branca com a esperança de que outros corações também o façam, livres de preconceitos, de ódios, de vinganças, pois não temos mais do que um time só, o nosso Brasil.

Vamos defendê-lo, unidos, atentos sempre, mas sem rasteiras, sem armadilhas, sem aleivosias, sem traições que poderão acabar por nos destruir como povo, como nação.



(21 de outubro/2006)
CooJornal no 499


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br