04/11/2006
Ano 10 - Número 501

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

E AGORA LULA?

Pois é, prezado presidente Lula, grande parte do nosso povo decidiu reelegê-lo. Agora respeitemos a vontade de nossa gente. Foi mais um voto de confiança que para muitos causou surpresa por todos os escândalos nos quais estavam, e ainda estão envolvidos, tantos petistas atuantes, até alguns líderes históricos do seu partido. O senhor conseguiu sair ileso, não obstante a proximidade de alguns com o poder.

Bem, presidente, eu votei no senhor quando do seu primeiro mandato, eu e tantos milhões de brasileiros. Já votara antes, quando acabaram eleitos tanto o Collor quanto FHC. Era aquele voto de esperança de quem desejava ver concretizadas tantas das mudanças necessárias para que nosso país cresça, seja mais justo, e finalmente encontre o tal futuro que desde criança eu ouvi dizer que dele seria.

Collor não as fez, ou não teve tempo. FHC prometeu muito porém em termos das mudanças fundamentais também nada fez. Aliás, do governo tucano, naqueles oito anos, nós sabemos muito bem do que eles são capazes de fazer e do que não quiseram ou foram incapazes de realizar. Tanto o povo não gostou que resolveu eleger você. Finalmente Lula chegou lá. Nossa esperança comemorou muito à época.

O que não esperávamos era termos que nos deparar com aquelas denúncias e o envolvimento de pessoas importantes, não só do PT como ligadas ao governo, até em cargos da maior relevância. Foi um duro golpe, ou golpes, em nosso sonho, em nossa esperança de ver o Brasil mudar, mas mudar para melhor. Nosso povo acreditou, todavia alguns dos seus correligionários estragaram a nossa festa, Lula. Que coisa feia. A decepção foi imensa e ainda lateja em alguns de nós.

Quando da eleição que poderia levá-lo, e o levou, ao segundo mandato, confesso que, frustrado, não consegui me convencer de que daqui para a frente tudo será diferente. Votei então no honrado e competente professor Cristovam Buarque. Ele só conseguiu 2% dos votos válidos, aliás a mesma inexpressiva votação que conseguira, em 1989, outro político honrado, digno, competente, o Dr. Ulysses Guimarães. Pois é.

No segundo turno, tendo apenas duas opções e não desejando participar com o meu voto em nenhuma das candidaturas concorrentes, vali-me do direito que a lei me faculta, ou seja, abstive-me de votar. Eu já tenho mais de setenta anos, presidente. Preferi deixar que nosso povo fizesse a sua escolha, embora, no meu íntimo, até torcesse para que não viéssemos a ter outro governo tucano já, mesmo sabendo que um novo mandato para o PT poderá ser um tiro no escuro. E o povo decidiu.

Percebo que nossa gente, cansada e também decepcionada com os oito anos do governo anterior do PSDB, preferiu considerar que tudo de ruim acontecido durante o seu primeiro mandato, presidente, já passou, não se repetirá, digamos assim. A mim ficou esta impressão com o comportamento dos milhões que ainda o apoiaram.

Eles devem ter acreditado igualmente que você sempre falou a verdade quando disse e repetiu que jamais soube de alguma coisa, que nada viu, nem ouviu. Desculpe, mas nem minha boa fé consegue me convencer disso. Só espero que nossa gente não mais se decepcione.

Você está reeleito e eu espero e torço para que aproveite esta segunda oportunidade que nosso povo lhe concede e nos cale a todos com um governo que não venha a merecer tantas críticas como aconteceu nos primeiros 4 anos de mandato.

Sou daqueles, como vi acontecer na Europa, por exemplo, que jamais torce contra o seu próprio país, ainda que o poder esteja em mãos que não lhe pareçam ideais, só que nossa nação no momento é representada por você, Lula.

Se tantos brasileiros lhe deram mais este crédito de confiança não me colocarei contra o anseio, contra a vontade deles, pois, repito, jamais torcerei contra o Brasil, jamais. Quem o fizer, com certeza não é tão patriota quanto se imagina e deve colocar a repulsa ao seu governo acima da sorte de nosso país.

Prefiro aplaudir e encampar a sugestão feita pelo governador de Minas, o Sr. Aécio Neves, pouco antes do resultado das urnas. Realmente o momento é de união, de reunião de forças, de consenso, não de discórdia, de desavença, de divisão. O Brasil está em primeiro lugar e acima de diferenças políticas.

Compete, porém, a quem foi destinado governá-lo agir com seriedade, competência, coerência, dignidade, ética, não esquecendo todas as promessas que fez não apenas para conseguir esta reeleição, mas também quando obteve o primeiro mandato.

Um sórdido sentimento de rejeição, entretanto, certamente não apenas ao seu governo, mas a você e ao seu partido, algo beirando um forte preconceito, fez com que alguns, nesta Internet, chamassem de gentalha aos tantos milhões de patrícios que o reelegeram. É uma falta de respeito à democrática manifestação popular porque este tipo de pessoa não deve estar acostumado a conviver e a aceitar os contrários.

Agora, Lula, o nosso povo é o seu maior credor, e é chegada a hora, novamente, de acertar as contas com nossa brava gente, com nosso país. Seu saldo devedor é grande. Quando eu disse a um amigo que iria torcer para que você realmente nos surpreenda neste mandato, e que o PT se revigore de ética, de seriedade, de patriotismo, ele me perguntou se eu ainda acreditava em Papai Noel.

Este é o sentimento de muitos que temos que entender face a tudo de ruim a que assistimos durante os quatro anos passados. Enfim, mesmo sem ter votado em você desta feita, Lula, espero sinceramente que nos devolva a alegria e a esperança que nos roubou antes e creia, não serei dos que estarão torcendo contra, de forma alguma, pois repito, sou brasileiro e não torço contra o meu país. Não sou suicida nem traidor.

Mas, por favor, não decepcione mais este povo que lhe proporcionou tão expressiva votação. Chega de promessas não cumpridas, de engodos, de discursos vazios.




(04 de novembro/2006)
CooJornal no 501


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br