11/11/2006
Ano 10 - Número 502

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

VÍTIMAS, MAS DO OLHO GRANDE

É comum vermos e ouvirmos pessoas se queixando que caíram em determinados golpes, seja por anúncio de jornal, seja pela Internet, etc. As pessoas se deixam entrevistar posando de vítimas, o que realmente são, mas...

Nem todos os casos acontecem só porque os vigaristas de plantão sejam espertos demais ou tenham estratégias tão eficientes que seja difícil escapar deles. Ora, vigaristas sempre houve e sempre haverá, claro, agora, pessoas de “olho grande”, do tipo que querem sempre levar vantagem em tudo, essas costumam se achar mais espertas que eles, arriscam e aí...

Quando assisto a essas reportagens geralmente não me move nenhuma pena das tais “vítimas”. Afinal como acreditar que se você depositar uma certa quantia na conta de alguém que anuncia, em jornais ou na Internet, algo a preço muito vantajoso para seus “clientes”, após receber o dinheiro ele cumprirá o prometido?

E é tão comum vermos reportagens sobre isso nas TVs ou na imprensa escrita. Certas pessoas, mesmo sem terem qualquer informação sobre quem faz a tal oferta, simplesmente pagam, antes, e depois que se vêm “lesadas” correm a se queixar, chorosamente, ou a repórteres ou a órgãos de defesa do consumidor.

Infelizmente ainda hoje há os tais defensores e alimentadores do “jeitinho” brasileiro. Esses são os que mais se arriscam nessas arapucas porque pensam, com seu olho grande, que poderão sim levar alguma vantagem. Não dá para ter pena dessa turma quando perdem, desculpem, mas eu vejo assim, e não apenas eu.

Naturalmente sinto pena sim, claro, mas quando a pessoa tem pouca instrução, e se torna vítima de gente sem escrúpulos. Nesses casos, todavia, os golpes não envolvem grandes valores, até porque geralmente os vitimados não têm maiores recursos, embora mesmo assim os vigaristas lhes tomem o pouco que puderem. Estes, além de trapaceiros, intrujões, são ainda mais covardes.

Outro dia, trocando idéias a respeito disto com minha boa amiga Angela Stefanelli, escreveu-me ela sabiamente: “Como você disse, amigo, na TV e também fora dela, o brasileiro é bem chegado ao modelito: vítima, coitadinho, infeliz, sempre à espera de um socorro. Incrível o quanto adoram despertar a piedade alheia, não? Este é o paternalismo implantado aqui e duvido muito que termine, porque os governos dão força como forma de angariar votos.”

O enfoque que a Ângela deu foi correto e muito realista. Há muita gente que adora mesmo posar de coitadinho, de vítima de alguma coisa. Isto mais parece uma carência de caráter. Entregam-se às garras de vigaristas com a maior facilidade justo por estarem sempre a ver onde que podem ganhar alguma coisa sem fazer força, e isso não existe, amigos.

Na época em que o governo Collor caiu em desgraça eu assisti e ouvi o depoimento de certo empresário que a mim não comoveu. Disse o cidadão que havia sido procurado certa vez pelo Sr. Paulo César Faria e este lhe pedira cerca de cem mil dólares, dando-lhe a garantia de que, com esta “contribuição”, teria garantida a vitória em determinada concorrência de seu interesse.

Se era verdade eu não sei, mas o fato é que àquela altura era fácil dizer qualquer coisa contra Collor e Paulo César que já haviam caído em desgraça total. Por outro lado é o caso de se indagar: a troco de que o referido senhor teria pago a tal “contribuição”, se é que a pagou, como entendi? Estaria depois se considerando vítima? Desculpem, mas novamente discordo dessa interpretação.

Um exemplo de absurdo total foi este a que assisti na Tv outro dia, num jornal televisivo. Um senhor se declarava vítima de um vigarista que o ludibriara e fizera com que perdesse alguns milhares de reais. Pelo que ele contou a história era a seguinte: alguém anunciara a venda de um automóvel usado, porém em ótimo estado, a um preço muito atraente, conforme estaria no anúncio.

Ocorre que o veículo estava em cidade diferente da que morava o queixoso. Por exemplo, o cidadão vivia no Rio e o automóvel estaria disponível, mas numa cidade do interior, digamos, de S. Paulo. Apenas como exemplo. Haveria o número de um telefone celular para informações. O queixoso teria ligado e sabido que deveria depositar inicialmente uma quantia em torno de 3 mil reais e o restante do pagamento seria concretizado quando pegasse o carro na tal cidade.

Aqui pra nós, amigos e amigas, vocês fariam este depósito?! Pois é, mas ele o fez. O preço total era muito atraente, só que escondia uma tremenda arapuca, como quase sempre. Dias depois o queixoso teria ido à cidade onde pegaria o veículo e pagaria o restante. Nem precisam me perguntar nada, claro que lá não encontrou nem o endereço, nem o carro, nem o vendedor, e o celular já não mais respondia.

O vigarista é problema da polícia, mas a iniciativa do queixoso ao aceitar e fazer o depósito antecipado em conta de quem não conhecia e de cuja transação não tinha nenhuma segurança, eu não posso considerar como ingenuidade, me desculpem. A mim isto parece um caso flagrante do que chamo de “vítima, mas do olho grande”.

Nesta Internet é comum vermos boas almas a alertar pessoas sobre certos golpes que, sinceramente, não dá nem para imaginar que alguém se deixe envolver neles por algum vigarista. O pior, porém, é que mesmo alertados alguns ainda vão “conferir”, então... olha o “olho grande” aí gente!

Eu nem considero essas pessoas gente de boa fé, não, pois em golpes do tipo a que me refiro, como os que aqui relatei, com o comentário perfeito da amiga Ângela, a “boa fé”, se existe e pode ser considerada assim, deve estar, às avessas, do outro lado, o do malandro vigarista. Cuidado gente, menos “olho grande”, por favor.



(11 de novembro/2006)
CooJornal no 502


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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