25/11/2006
Ano 10 - Número 504

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

UMA CERTA PARANÓIA
 

No reino animal, embora eu simpatize com quase todos os bichos, ditos irracionais, dedico uma afeição maior, digamos assim, a cães e cavalos. Quanto a estes devo ter herdado o gosto de meu avô materno, que os tinha e tratava bem deles.

Touche - Clique na figura para vê-la ampliada.Sobre os cães sempre os apreciei muito. Já há alguns anos, como sabem os que me lêem, possuo dois pequenos da raça yorkshire. O nosso bravo Touche vai completar 3 anos agora no dia 1º de dezembro. Foi um presente de meu sobrinho Glauco Fernandes na pior fase da minha vida. Ele tinha apenas pouco mais de um mês.

Mais recentemente, como fruto de um “caso amoroso” com a bela Sabrina, em Cabo Frio, Touche nos presenteou com uma filha, a querida Safira, Sassá para os íntimos. Esta tem, no momento, apenas oito meses. É uma gracinha, mas também sapeca como nem Touche o foi quando pequeno.

Safira - Clique na figura para vê-la ampliada.Entre tantos “prejuízos” que já nos deu com suas trapalhadas, ela chegou ao extremo de destruir os saltos de 3 sapatos de Marlene, a alça de uma bolsa de fotografia, parte de um tapete de borracha do nosso carro, roeu bastante um cinto novo meu, fora os chinelos que, se esquecemos ao alcance dela, acabam semi-destruídos também.

Não entendo como ela tem a capacidade de pegar meus chinelos, pesados, ou sapatos de Marlene, e, em vez de os roer no andar de cima, onde se encontram, os traz pela escada abaixo até a sala, sobe com eles nos sofás, e ali faz o seu “trabalho”. Isto ocorre enquanto vamos à cidade resolver assuntos e os deixamos sós.

Jornais são rasgados, estraçalhados por ela e espalhados pela casa toda. Uma gracinha a Sassá... Nós adoramos demais os dois, sem dúvida alguma, e os tratamos da melhor maneira que é possível. Momentos há em que chegamos como que a conversar tanto com um como com outro. Isto só quem tem cachorro também pode entender. Nas minhas horas de solidão são os melhores amigos, com certeza.

Sair com eles à rua, na coleira, é sempre uma festa. Hoje Touche está mais calmo, já adquiriu mais “maturidade” em seus quase 3 anos de vida. Safirinha porém quer que todo mundo fale com ela, na rua, então se põe a latir para quem passa, mas se lhe dão atenção, se lhe fazem algum carinho, ela se acalma. Só que nem todos agem assim.

Mas, se estamos a falar de coisas tão alegres, simpáticas, de duas lindas figurinhas que não deveriam assustar a ninguém, por que o título deste texto é “Uma certa Paranóia”? Ocorre que tem havido muitos registros de cães de outras raças, especialmente de “Pitt Bull” e de “Hotweiller”, ao atacarem pessoas, e mesmo crianças. Já houve até casos de morte. Uma tristeza.

Confesso que nada sei sobre essas raças, porém as evito. Alguns os defendem, outros são impiedosos com eles até por já terem sido vítimas dos mesmos. Uns dizem que eles já trazem este instinto de ferocidade ao nascerem, outros culpam mais os seus donos que costumam educá-los para serem guardiãs de suas propriedades, ou de si mesmos.

Não levaria este debate avante por não ter maior conhecimento do caso. O que não aceito, de forma alguma, é que algumas pessoas passem a agir, na rua, como se todos os cães fossem perigosos, como se todos pudessem atacá-las, ainda que em coleira. Isto é ou não uma certa paranóia? Barbaridade, nem oito nem oitocentos, pois.

Quando saímos a passear com eles, sempre na coleira, mesmo sendo muito pequenos e inofensivos, se uns chegam a parar para fazer carinho, tanto em Touche quanto em Safirinha, outros os olham lançando-lhes farpas de receio ou quase medo, chegando mesmo a se afastarem quando por eles passamos.

Aquilo me irrita porque afinal é um exagero este comportamento. Se não gostam de cães, tudo bem, mas há que não confundir alhos com bugalhos. O que pode contra alguém um pequeno e simpático yorkshire, e ainda na coleira? Eles gostam sim, mas é de carinho, de atenção, e não de pernas gordinhas de pessoas alienadas, pois nem sequer consomem carne.

Um exemplo patético do que aqui coloco aconteceu outro dia quando passávamos ali pela Praça N. Senhora da Paz. Vinha um cidadão alto e forte, com cara de quem odeia o mundo, ou de nenhum amigo, pois acredito que ser amigo de uma pessoa assim deve ser muito difícil.

Pois bem, sem mais nem menos, ao ouvir Safirinha latir para ele, pedindo atenção, o sujeito a encarou com um olhar chamejante e encolerizado chegando a gesticular forte com um dos braços como se a fosse agredir.

Confesso que temi que o indivíduo pudesse chutá-la. Ah se o fizesse! Não sou de briga, sou de paz, mas detesto violência, arrogância e covardia. Marlene, que conduzia Safirinha, também se assustou e a puxou forte pela coleira.

Desculpem, não justifico este tipo de atitude. Pessoas assim devem andar na rua no limite de sua “intolerância” e, acredito que, porque qualquer motivo possam agredir a outro semelhante. Se estiverem ao volante de um carro então, acidente à vista. Esconjuro. Vade retro.

Há muito mais perigo em nossas ruas oriundas do próprio “reino animal racional” do que de bichinhos pequenos e tão dóceis, como são os nossos dois yorkshire. Os ditos “racionais” não mordem, claro, porém atacam, roubam, agridem e algumas vezes matam. Então, gente, atenção, mas com o transeunte ao seu lado. Não mergulhem numa paranóia que os torna ridículos e meio insanos.

Em defesa dos meus dois pequenos, carinhosos e lindos yorkshire.




(25 de novembro/2006)
CooJornal no 504


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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