02/12/2006
Ano 10 - Número 505

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

SAUDADES DE ADONIRAN
 

Na recente ida ao Rio de Janeiro compramos alguns cds, preferencialmente de música instrumental, piano, sax, violão, etc, mas acabei descobrindo uma jóia rara e por um preço muito convidativo: apenas R$19,90.

Tratava-se de um álbum duplo do saudoso Adoniran Barbosa. Ao todo 28 faixas. Não resisti e comprei. Ora ele canta só, ora com outros interpretes, uns ainda vivos, outros já falecidos. Entre estes estão a Clara Nunes, a Elis Regina e o Gonzaguinha. Preciso dizer mais alguma coisa? Falo para quem aprecia o melhor de nossa MPB, lógico.

Uma informação meio fora do contexto, mas que tem tudo a ver: se você não sabia, digo-lhe que há uma loja fantástica, com sede em Londres, e uma filial imensa, muito bem organizada, em dois pisos, em plena Av. dos Campos Elíseos, em Paris, que se chama “Virgin”. Ali pode-se encontrar discos de toda parte do mundo, inclusive aqueles que se julga não mais existirem.

Com relação ao nosso Brasil, quando lá estive, fiquei estupefato com a facilidade para se comprar cds de músicos e intérpretes que, por aqui, em muitas lojas já devem ter sido considerados “sepultados”, musicalmente falando. Uma pena, pois lá eles aparecem nas inúmeras prateleiras à nossa espera. É a maior e mais bem estruturada loja, ou shopping, sobre música em todo o planeta. Vale a visita, com muita calma.

Mas, voltemos ao Brasil, ao Rio, ao nosso saudoso Adoniran. Colocamos os cds no rádio do meu carro e deixamos fluir aquele som brasileiríssimo, isto sim, uma das mais autênticas manifestações populares, onde Adoniran brinca de errar na gramática, sem nenhuma agressão à língua, como aliás falam tantos milhões de patrícios nossos. E quanta poesia em suas letras, quanta poesia e sentimento.

Lavamos nossas almas, nos purificamos, em relação ao que nos haviam feito ouvir, numa rádio FM, do Rio, 15 dias antes, quando lá chegávamos. Quem tem o hábito de me ler sabe ao que me refiro, pois contei na crônica ”De Volta ao Rio de Janeiro, em Novembro”. Jamais repetiria aquilo porque tenho o maior respeito por todos que dedicam parte do seu precioso tempo a ler meus textos.

Alguém me falara então que há pessoas que defendem aquele lixo cultural, pornográfico, de profundo mau gosto, como sendo “uma autêntica manifestação popular.” (!!) Só podem fazer este tipo de consideração aqueles que vivem com sua cabeça enfiada numa latrina, com todo o respeito, se é que o merecem. Falemos sério.

Eles pedem “liberdade de expressão”, confundindo-a com libertinagem, sacanagem, obscenidade, e outros termos do gênero. Diz o dicionário que libertino é aquele que é “livre de qualquer peia moral; devasso, dissoluto, depravado, licencioso.” A dois, a três ou mais, em ambiente reservado, qualquer um pode fazer, e/ou dizer o que melhor lhe aprouver, desde que não prejudique a terceiros.

Entretanto, jogar sua pornografia ao público, através de veículos de comunicação, seja ele qual for, invadindo nossos lares, agredindo nossos ouvidos, nos dá o direito de o repudiarmos também publicamente. O “direito” que aquelas pessoas reclamam para o seu “trabalho” igualmente nos assiste no nosso direito legal de não gostarmos, de o condenarmos, de o criticarmos.

Liberdade de Expressão, que eles reclamam, mas sem entender, é algo muito mais valioso, algo que se conquista ao lutar por uma democracia plena, para exprimirmos nossos pensamentos, nossas opiniões, sobre qualquer assunto. Mesmo assim ele deve ser exercido sempre com responsabilidade e respeito ao direito alheio. Sou radicalmente contra censura, sempre o disse, infelizmente, porém, alguns sequer têm capacidade para avaliar a importância de ser responsável ou de ser... livre.

Bem, vamos puxar a descarga e seguir no comentário. Ouvindo Adoniran Barbosa enfrentamos 3 congestionamentos: um rápido, ainda na Lagoa Rodrigo de Freitas, outro, um pouco mais demorado, na ponte, e o pior de todos, na Av. do Contorno antes de entrarmos na Niterói – Manilha.

Relaxamos e deixamos nossas mentes e nossos corações serem acariciados, purificados por aquele som eterno de uma saudade imensa, ao tempo em que nos divertíamos com as histórias cantadas nas músicas. Assim foi a viagem inteira que demorou mais tempo, porém sem reclamações. Estávamos enlevados, extasiados, revigorados.

De “Saudosa Maloca” ao “Trem das Onze”, passando por “Tiro ao Álvaro”, “As Mariposas”, “Apaga o fogo Mané”, “O Samba do Arnesto”, “Bom Dia Tristeza”, “Malvina”, “Fica mais um Pouco Amor”, entre outros inesquecíveis sucessos, viajamos ouvindo, cantando, batucando, enquanto Touche e Safirinha estavam calmos, como que a aprovar também a nossa escolha.

Ah, sim, claro, não poderia encerrar sem lembrar esta outra jóia de música e letra da fértil verve do nosso saudoso Adoniran... “Iracema”. Meu Deus, como é rica a nossa MPB, rica através dos tempos, oferecendo-nos páginas e mais páginas musicais através da eternidade, obras que deveriam ser ouvidas sempre até em respeito aos seus autores que ofereceram suas vidas ao nosso deleite.

Infelizmente como alguns são ingratos, mal agradecidos, e vivem a cultuar, nos meios de comunicação, que se lixam para os nossos sentimentos e para o nosso bom gosto, tanto entulho que tentam nos impor e proclamam como ... “manifestação popular”!!

Saudades de Adoniran Barbosa e de todos os mestres que já se foram porém marcaram sua passagem por este plano com imenso talento e competência. O lixo, que hoje posa de “sucesso”, nem futuro terá, porque amanhã ninguém mais se lembrará deles, com certeza. Quem sabe, talvez na cloaca, na fossa. Talvez.



(02 de dezembro/2006)
CooJornal no 505


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br