09/12/2006
Ano 10 - Número 506

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

EU E O GUINNESS

Amigos e amigas, foi no ano de 2000 que eu resolvi me dirigir ao “Guinness World Records”. Eu tinha em mente, e tenho até hoje, a curiosidade de saber se o meu poema “Derradeira Solidão” é ou não o menor poema do mundo.

Quem já o leu sabe que ele foi por mim construído em forma de uma cruz e com apenas cinco palavras, todas com somente uma sílaba. Quero dizer, o poema tem apenas cinco sílabas. Considerado um poema modernista já ganhou alguns ótimos prêmios em concursos literários de que participei em anos anteriores.

Dos mais significativos foi o primeiro lugar em dois certames, a nível nacional, realizados na cidade do Rio de Janeiro. Era o “Expressão da Alma”. Nele obtive também outras boas premiações. Para os que eventualmente não o tenham lido, não o conheçam, vou reproduzi-lo aqui e agora: 

 

SÓ,

 

 

 

 

 

 

 

  NO

 

 PÓ.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SÓ.

 


Escrevi-lhes uma carta, em inglês, no primeiro semestre do ano de 2000. Nela eu detalhei a razão da minha solicitação. Afinal, sendo eles que controlam e estabelecem tantos recordes pelo mundo afora, alguns até sem qualquer interesse ou significado, deveriam estar em condições de me tirar esta dúvida. Enganei-me e me decepcionei.

Transcrevo aqui o primeiro parágrafo da resposta que recebi com data de 07/06/2000, assinada por Charlotte Hambly, Records Research Services: “We have examined the information that you kindly sent and given ful consideration to your claim. I appreciate that you have gone to a lot of effort and we are obviously delighted to hear from people around the world with their record claims and suggestions. However, I am afraid that, on this occasion, we are unable to accept your proposal as a record.”

Em verdade, de lado os cumprimentos pela minha tentativa em obter a tal informação, a referida senhora deixou claro que não obstante “os meus melhores esforços para produzir algo merecedor de ser um recorde” (o que não é verdade) ela  diz lamentar que naquele momento eles não estivessem em condições de aceitar minha proposta como um verdadeiro recorde.

Ora, eu não escrevi este poema visando a isto, a obter algum mérito como recorde, absolutamente. Ele foi como que soprado ao meu ouvido, certa tarde, sei lá por quem, quando eu trabalhava ainda na minha velha máquina de escrever Práxis 20, isto em julho/1999. Entrei como que em transe e logo tratei de anotar as cinco sílabas para ver o que faria depois com elas. Minha única testemunha foi minha saudosa esposa.

Só no dia seguinte me veio a idéia de construir a cruz. O poema estava completado. Mas, como uma entidade reconhecida mundialmente se diz sem condições de me prestar aquela informação? Do que mais eles precisariam? Será que poesia não interessa ao Guinness?! Talvez não.

Imaginem que, a seguir, a referida senhora ainda me enviou essas palavras. Deva ou não ser um modelo padronizado, esperava mais atenção deles, mas me enganei mesmo. Vamos lá, já devidamente traduzido:

“Considerando o objetivo dos recordes que temos em nosso banco de dados e o crescente número de pessoas nos contatando com seus pleitos de Record e sugestões, necessitamos de exercer certo controle editorial sobre o que é  e o que não é aceito como Record.  Lamento que isto possa desapontá-lo, mas esperamos que volte a nós posteriormente com uma nova tentativa.” 

Um bom amigo me pediu para não os levar a mal porque tudo é feito de forma automática, até a tal resposta que a mim enviaram. Pergunto: e o respeito que deveriam ter com quem os procura e não é um simples “caçador de recordes”, como parece eles me julgaram? Eu só quero saber se meu poema é ou não o menor do mundo. É tão difícil assim para eles me darem este tipo de informação?

Outro dia vi na Tv e li na imprensa, eles a promoverem determinada festa para comemorar mais um desses recordes que não têm mesmo maior significado. Sei que, pelo mundo afora, há muita gente que até se reúne para fazer tentativas de entrarem para o livro Guinness. Este não é o meu caso. Deixei bem claro.

Só desejava uma resposta, uma simples resposta, afirmativa ou negativa, mas uma resposta sem as voltas que a correspondência que recebi deles dá e acaba por não se comprometer, por não responder ao que indago. Tratei de poesia, talvez se apresentasse àqueles senhores o resultado de algum concurso de cuspe à distância eu fosse melhor atendido. (!!)  Pois é.

E encerraram a tal carta com estes dizeres que, pelo desinteresse na resposta, a mim soou até como algo meio ofensivo, digamos assim: “Se necessitar algum aconselhamento com relação à quebra de recordes existentes, faça a gentileza de nos contatar. Desculpem, mas é lamentável.

Outro dia, no Rio, numa livraria, folheei o bonito livro, recentemente editado, em que eles apresentam uma série de recordes. Se contém assuntos que são realmente de alguma relevância, apresenta tantos outros, como eu já disse, que nada representam, nada significam, muito menos culturalmente.

Vou continuar sem saber se o meu poema “Derradeira Solidão” é ou não é o menor poema do mundo. Talvez até seja, mas o Guiness parece não ter interesse em saber, logo...





(09 de dezembro/2006)
CooJornal no 506


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br