16/12/2006
Ano 10 - Número 507

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

COM MAU HUMOR

O rádio brasileiro, no passado, apresentou excelentes programas humorísticos. Poderia destacar, por exemplo, “Balança, mas não cai”, que depois teve também sua fase na TV – Globo, com a felicidade de ainda estarem, à época, participando desta versão, atores como Paulo Gracindo e Brandão Filho. Esses criaram personagens inesquecíveis, tais como o primo rico (Gracindo) e o primo pobre (Brandão).

A versão televisiva, todavia, não superou a radiofônica, a primeira, que tinha uma audiência incrível em todo o país. Humor da melhor qualidade e sem precisar de apelações, como é comum hoje em dia. Aliás, hoje, muitos ditos “humoristas”, julgam que fazer humor é gritar, falar alto e fazer caretas. Rei das caretas foi só o grande Costinha, competentíssimo, e cuja cara já era uma piada.

Destacaria ainda, no tempo áureo do rádio, programas de humor como “PRK-30”, com Lauro Borges e Castro Barbosa. Dupla fantástica. O “Hotel da Sucessão”, no qual eram caracterizados personagens de grande destaque da política de então, como Ademar de Barros, Carlos Lacerda, Juscelino, Jânio Quadros, entre tantos outros.

Quando trabalhei no rádio paraense, entre os anos de 1953 e 1958, recebíamos o “Hotel da Sucessão” gravado em discos de 78 rotações e o reproduzíamos na Rádio Marajoara, do Grupo Associados, de que a Rádio Tupi, do Rio, era a grande líder.

Cheguei a produzir também um programa humorístico com o nome de “Hoje tem Espetáculo”. Sempre gostei de escrever sobre humor. Acabei, por sorte, ganhando da crítica o troféu de “Melhor Programa Humorístico do Rádio Paraense”, no final dos anos 50. Claro que não concorríamos com programas que vinham do sul.

Na TV de hoje percebo como fazem falta muitos humoristas, dos melhores que tivemos, e que já se foram desta vida. A cada dia o humor empobrece ainda mais. Uma das grandes perdas foi a do Golias, entre outros. A TV Globo, que já apresentou a excelente “Escolinha do Professor Raimundo”, e também o “Chico City”, hoje tem um cast, para humor, que em nada me agrada. Exceção feita a uns poucos humoristas, como Paulo Silvino e Agildo Ribeiro, o resto apenas se esforça.

Digo isto no que se refere ao tal de “Zorra Total” do qual só vejo os quadros daqueles dois remanescentes de uma maravilhosa safra de humoristas brasileiros. O tal de “Zorra Total” apresenta um humor feio, sem graça, cansativo, sem brilho, digamos assim, e a maioria dos quadros, confesso, até me irrita. Elogios e muitos para “A Grande Família”, onde só tem feras do humor. Um bom programa, com certeza.

Aliás, a TV Globo em matéria de mau gosto, ou de mau humor, tem caprichado bem. Eu diria que “cara de pau” é a deles ao anunciar este tal novo programa de “humor” com uma dupla que, já no Zorra Total, exibe muita falta de talento para serem considerados humoristas, na acepção da palavra. Têm muito que aprender, ou jamais aprenderão porque devem se considerar... o máximo.

Gritar e fazer careta, como eu digo, é com eles mesmo, mas isso não é humor, amigos. Ou pelo menos não é só isso, pelo amor de Deus. E mais, nem criatividade a Globo teve. Intitular o programa com o mesmo nome de um filme americano que fez relativo sucesso há alguns anos atrás é confessar que o tal padrão Globo de qualidade já foi para cucuia há muito tempo e forçar uma barra de quem se vale apenas do seu poder.

No SBT, o programa “A Praça”, que já foi muito bom, hoje ainda resiste com alguns quadros, mas também já perdeu bastante de sua melhor qualidade de antes. Além do mais o Sr. Sílvio Santos atrapalha muito mudando o programa de dia e de horário.

Voltando à Globo, salva-se também, para o meu gosto, o programa da turma do Casseta & Planeta, com restrições, claro. São inteligentes e sabem “pescar” direitinho assuntos no dia-a-dia da política, e da vida de todos nós. Uma crítica diferente e bem humorada, agora desfalcada talvez do melhor de seus talentos, o jovem Bussunda.

Diferentemente não tenho estômago para agüentar outros programas que a Globo insiste em anunciar e apresentar como de... humor. Aquelas meninas do “Sob Nova Direção” que me perdoem, porém não me passam nenhuma graça, ao contrário, me irritam, então eu mudo de canal. Sobre “A Diarista” eu diria que dá para assistir graças à participação de Cláudia Rodrigues. Gosto do estilo dela.

Já a Rede TV partiu para algo que tem muito mais de agressividade, de desrespeito às pessoas, especialmente artistas, além de telespectadores, do que humor. Refiro-me ao “Pânico na TV”. Aquilo jamais foi ou será programa de humor, mas, como há gosto para tudo... Eles, entretanto, devem se considerar muito engraçados. Problema deles.

Alguns que são “alvejados” por aquela turma de sádicos a serviço do mau humor, é como os vejo, rebelam-se, protestam, e até os processam. Assim fez a atriz global Carolina Dickman que acabou ganhando na justiça uma causa contra eles e que lhe rendeu certa indenização, entre outros efeitos determinados pelo Juiz.

Outros, com paciência de Jó, fazem que não se incomodam, disfarçam e procuram levar as “brincadeiras” numa boa, tratando de se desvencilhar dos tais “humoristas” o mais rápido que podem.

Eles invadem a privacidade das pessoas sem nenhuma cerimônia, são indiscretos, debochados, ora agressivos pela insistência, e chamam isto de... humor!!! Não gosto do que fazem e se insistisse em vê-los meu bom gosto é que talvez entrasse em pânico.

Aliás, outro dia eu ri, mas ri demais, porque alguém finalmente conseguiu inverter tudo e jogou de volta, no colo deles, o tal de “pânico”. Havia uma festa e eles não estavam convidados. Apareceram do lado de fora tentando tirar sarro de alguns artistas, para usar no programa. De repente toparam com o ... Amin Kader. Este cidadão é uma figura alegre, irreverente, que costuma aparecer muito na TV.

Ele era um dos convidados e, antes que os falsos humoristas partissem para cima dele Amin tomou conta da situação encarando-os numa boa e fazendo com eles o que costumam fazer com todo mundo de quem escarnecem. Só que o fez sem agressões, sem deboches, mas até com muita graça. Não deu nenhuma chance para eles comandarem a longa cena. Ele, sim, foi o dono, digamos, daquele espetáculo.

Eu vi, ninguém me contou. A turma do pânico, parodiando o vocábulo, chegou mesmo a pedir... penico... Era a caça se vingando dos “caçadores”. Diria que eles foram “à lona”, implorando, por várias vezes, que cortassem aquilo, que parassem de filmar. Minha avó diria: “pimenta nos olhos dos outros é refresco...”

Pois é. Eles mostraram que não só não entendem de humor como não têm espírito esportivo para suportar o que querem impor às suas “vítimas”. Papelão, gente!! Eles sim, entraram em pânico. Valeu. E a Tv segue... com muito mau humor.




(16 de dezembro/2006)
CooJornal no 507


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br