23/12/2006
Ano 10 - Número 508

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

VIDA E EMOÇÃO

Amigos e amigas, já estamos vivendo sob o clima de Natal e caminhando, a largos passos, para o final de mais um ano. Não sou a pessoa mais indicada para discorrer sobre as festas natalinas, ou mesmo sobre o significado maior daquele dia. Deixo isso para os mais competentes cujos sentimentos divergem dos meus, felizmente.

Também nunca me sinto muito à vontade quando, a cada final de ano, me vejo quase que na obrigação de repetir os votos de um Feliz Ano Novo. Esta é a rotina normal e esperada por todos que nos lêem e nos estimam. De coração é evidente que manifesto este desejo, este anseio, esperando que seus sonhos possam enfim ser realizados.

No sentido global, convenhamos, fica mesmo difícil desejarmos sempre um Feliz Ano Novo, quando, de uma maneira geral, o que temos visto é muitos desses novos anos serem iguais ou bem piores que aqueles já ultrapassados. É uma verdade incontestável. Reconheço porém que não devemos deixar que nossa esperança seja derrotada por uma realidade cruel, chocante mesmo, que nos tem sido imposta.

Entretanto, prefiro desviar o foco de minha atenção para onde se festeja a vida, num incessante nascer que a morte jamais poderá impedir. Assim eu volto àquela frondosa, e meio mágica, mangueira que visito diariamente na casa de minha boa amiga Marlene. Ela está novamente a dar frutos a rodo comemorando o renascer que seus imensos e longos galhos acolhem em nome do amor.

Lena decidiu este ano, além de enfeitar sua árvore de Natal artificial, espalhar pequenas e inúmeras luzes coloridas pela mangueira fiel que se doa constantemente ofertando tantos e deliciosos frutos aos que com ela convivem. Lena tem agora também uma árvore de Natal real e nossa, muito nossa, com luzes, mangas e ninhos.

Enquanto instalávamos as pequenas luzes localizamos entre a folhagem da mangueira três novos ninhos. Eu já escrevera sobre outros dois anteriores em duas foto crônicas, mas ver três, na mesma árvore, no mesmo dia, atiçou mesmo a nossa emoção. E lá estavam, montando guarda, os felizes e vigilantes pais. Era mais uma consagração à vida que renasce sempre. E tão próximo do Natal. Sábia natureza.

Curtimos muito aquele momento de felicidade, pura poesia. Rendemos graças ao Poeta Maior. Pena que os ninhos estivessem tão bem protegidos que para fotografar ficava por demais complicado, mas respeitamos a privacidade das aves.

Naquele mesmo dia, ao voltarmos para minha casa no Braga, nossa vizinha de frente nos chamou. Ela tinha também uma surpresa por demais agradável para nós. Explico que uns dois meses antes nosso bravo Touche tivera uma rápida lua-de-mel com a pequena cachorrinha de Vânia, a Kiki, da mesma raça dele. Fora sua segunda experiência amorosa em já três anos de vida.

Entramos pela sala e... meu Deus, mais emoção, e quanta emoção. Dentro de uma bonita cama de cachorro estavam nada mais nada menos do que seis filhotes recém nascidos. Como de hábito eles se enroscavam todos, bem juntinhos.

Kiki, nervosa, olhava para todo lado. Eram quatro machos e duas fêmeas, todos lindos, muito lindos. Decidimos então chamar o nosso bravo reprodutor para conhecer suas novas “obras”. Quando Marlene entrava pela sala trazendo o Touche eis que Kiki, agora acariciando seus filhotes dentro da caminha, teve uma atitude que nos surpreendeu a todos.

Ela pulou para fora da cama e veio até onde estava o nosso Toucha, como que a chamá-lo para conhecer seus filhos. Os dois, juntos, acreditem, foram até a cama. Ela aconchegou-se aos filhotes enquanto o maroto Touche, com ar meio de quem quisesse “fugir” de alguma responsabilidade, olhava surpreso para os pequeninos yorkshires.


Mas todos eles, machos e fêmeas, já nasceram com aquele traço inconfundível que é a linda carinha do maroto Touche. Todos pretinhos, com eventuais manchas em branco ou dourado aqui e ali. Nem precisa de DNA. Nosso Touche é pai, sim senhor, mais uma vez. Poderia até já ter mais filhotes, porém outras “candidatas” acabaram não comparecendo ao compromisso antes agendado.

Elegemos então, “por unanimidade”, o nosso bravo Toucha como o pai canino do ano. Dez filhotes em apenas duas relações, em 10 meses, deste 2006. Infelizmente uma das fêmeas não resistiu a problemas no momento do parto de Kiki e acabou por morrer 24 horas depois de nascida. Coisas da vida que segue.

E neste renascer constante que nos embala de emoção eu aclamo a vida, ela que é eterna, com certeza, pois creiam que a morte é apenas um breve corte para uma mudança de estado, de nível de consciência.

Só me resta desejar um Feliz Natal a todos vocês, com muita vida, muita emoção, e que a bênção de Deus os cubra sempre, e para sempre, assim como a seus familiares. Agora saio de férias até a segunda quinzena de fevereiro, mas de quando em vez farei alguma aparição na Internet. Saúde, paz e muito amor.




(23 de dezembro/2006)
CooJornal no 508


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br