10/02/2007
Ano 10 - Número 515

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

E SE O POVO REAGISSE?

Ah se o nosso povo não fosse tão pacífico, apesar de tudo. Ah se nossa gente reagisse à altura de todo tipo de agressão que tem sofrido, através dos tempos, pelos seus políticos. Ah se o brasileiro não engolisse tanto sapo, todo tipo de patifaria, tudo que lhe tomam na mão grande e na impunidade.

E ainda é obrigado, por lei, a votar. A votar em muitos desses mesmos políticos que o enganam, que o traem descaradamente, que o roubam através da Previdência e de tantos planos fracassados, e de tantas promessas jamais cumpridas, e de impostos absurdos, exagerados, e muitas vezes cobrados como impostos duplos.

E ainda tem que conviver com tanta injustiça social, com tanta violência, com salários humilhantes, caso da esmagadora maioria de nossa gente, e tem que suportar risos masturbados, conchavos indecorosos, e até chegar a se aposentar e ser chamado de vagabundo por um atual ex presidente. Lembram dele? E ele tem diploma da Sorbonne. Pois é.

Respeito, senhores políticos, exige o nosso povo, que trabalha em horário integral, de segunda a sábado, e é mal remunerado. De pessoas tantas que estão desempregadas graças a esses mesmos políticos que quando descem do palanque assumem a sua verdadeira personalidade e ficam a se lixar para milhões de brasileiros que sequer têm o direito à cidadania completa, como reza na nossa Constituição.

Vagabundo, senhores políticos, é quem não trabalha, mesmo podendo, quem vive às custas de outrem, quem também entra para a política só pensando em se locupletar e jamais trabalhar pela sociedade que o elege, ou como diz também o dicionário, quem é velhaco, pelintra, biltre, etc.

Não bastasse a realidade que nos tem sido imposta, não bastasse a violência oriunda da bandidagem que parece ser mais organizada que nosso aparato policial, não bastassem as filas imensas que diariamente enfrentamos, muitos até para conseguir um atendimento hospitalar ou receber um minguado salário de aposentadoria. E quantos de nossa brava gente não têm morrido nessas filas, quantos, amigos?

Não bastasse tudo isso e aí nos deparamos de repente com aquele lamentável episódio, em verdade muito mais promovido pelo destempero, pelo descontrole emocional de um senhor que exerce um dos mais importantes cargos deste país, o de Prefeito de nossa maior cidade e uma das maiores do mundo.

Que coisa feia e ridícula, condenável sob todos os aspectos. Até porque quem promoveu tudo estava cercado de seguranças e investiu ferozmente contra um simples cidadão brasileiro, trabalhador sim, que não promoveu nenhuma baderna como depois quiseram afirmar para justificar a maior das violências, a de uma autoridade constituída para cima de um senhor que sequer o agredira ou ofendera.

As imagens mostraram tudo, comprovaram tudo, nos mínimos detalhes, inclusive os empurrões, sim, sofridos pelo cidadão Kaiser Paiva Celestino da Silva, 47 anos, um brasileiro que, como outros tantos, tem sido ofendido, agredido, prejudicado de alguma forma, por seguidos governos que só abraçam o povo às vésperas de eleições. Guardem este episódio, amigos, não o esqueçam. Amanhã pode acontecer com você.

De vagabundo, como lembrei antes, já nos haviam chamado, de outros adjetivos pejorativos também, e agora alguém resolve reavivar esta vergonha, esta ignomínia, quando nós todos, como povo, tivemos recentemente todos os motivos do mundo para usar o mesmo adjetivo contra todos aqueles políticos denunciados, acusados, julgados mas não condenados. E muitos aí estão, voltando à cena política.

Ah se nosso povo tivesse mais consciência de seus direitos, de sua verdadeira cidadania, se lembrasse disso também no momento em que o obrigam a votar. Ah se nossa gente fosse menos humilde e mais altiva, e se em vez de ficar a pedir desculpas, apesar de tudo a que lhe submetem, cobrasse justiça com firmeza, sim senhor, para os tantos gatunos do erário público, tanto convivendo na política como fora dela.

Se nada fizermos como povo, dificilmente alguma coisa vai mudar. Quantos Kaiser terão que sofrer humilhação para nós acordarmos, enfim?!



(10 de fevereiro/2007)
CooJornal no 515


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br