10/03/2007
Ano 10 - Número 519

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

BUSH x CHAVEZ ETC

Abro o noticiário e me deparo com esta manchete: “Bush compete com Chávez por corações latinos.” Confesso que fiquei meio estarrecido. Como podem eles dois almejar “conquistar corações” com o tipo de discurso de agressividade e de demagogia que distribuem? Que eu saiba coração se conquista com amor, mas será que eles entendem disso??

Como diria um amigo meu, mineiro, porém meio “apaulistado”: “...Uai, meu...!!” Pois é. Aí mergulhei na notícia porque não queria fugir a fazer algum comentário, sempre sem perder o bom humor, apesar de tudo. Então vamos lá.

Começa a notícia dizendo que o presidente americano vem à América Latina com uma retórica, vejam só, espelhada no populismo do presidente venezuelano a fim de competir com ele pelos “corações e mentes” deste lado do mundo. Notícia divulgada no Washington Post. Ele não deve estar bem informado sobre o seu “prestígio” por aqui ou é daqueles “cegos” que não querem ver, e/ou “surdos” que não querem ouvir.

E eu pensei que o Sr. Bush, com todo respeito, quando quisesse conquistar algo só mandasse suas tropas invadirem, soltar bombas, fuzilarem, enfim, tomar na marra, como se diz. E depois de ter sido chamado de “el diablo” pelo mesmo Sr. Chávez, lá na ONU, agora deseja usar os próprios métodos do, digamos, adversário? E o tal amor-próprio, ou sentimento de dignidade pessoal, etc, como fica? Deixemos pra lá.

Quanto ao “el diablo”, sinceramente, olhem que eu até concordei com o presidente venezuelano, mesmo com alguma resistência, a este, claro, nunca pelo mérito da pecha que impôs ao outro. Aliás, concordamos, eu, o Arnaldo Jabor (eu o ouvi dizer que concordava, na CBN) e certamente um batalhão de opiniões outras pelo mundo afora, especialmente no Afeganistão e no Iraque, mas não só lá, com certeza.

"Ele falou sobre a pobreza opressiva e classificou como ¿um escândalo¿ que a democracia e o capitalismo não tenham concedido mais aos latino-americanos. Os pobres trabalhadores precisam de uma mudança, ele declarou. Ele invocou Simón Bolívar, o ¿grande libertador¿, e prometeu ¿completar a revolução¿ e trazer ¿justiça social¿ à região.” -- E volta aquele amigo acima referido: “... uai, meu...!!”.

Acima reproduzi, em bom português, um trecho da tal reportagem do jornal americano. Alguns de vocês logo comentarão: “Mas este Chávez é mesmo muito demagogo, gente.” Então segurem o vosso espanto, amigos e amigas: quem disse aquilo foi o... Sr. George Bush, e não o presidente venezuleano, como esclareceu, em tom de ironia, a reportagem do “W.P.”

Eu confesso que não tive vontade rir porque tudo que venha de qualquer um dos dois não massageia o meu humor, de forma alguma. Por outro lado, amigos leitores, dizem que ter vergonha na cara é ter sentimento da própria dignidade. Bolas, mas o que isto tem a ver com este assunto? Tudo ou nada? Vocês decidem, pois nos meus 70 anos de idade nem mais sou obrigado a votar.

O presidente americano, pelo visto, também não deve estar com a memória muito afiada, pois parece não se lembrar de tantas promessas que fez para ajudar nossa América Latina e que jamais foram cumpridas. Como se vê não é só o nosso prezado presidente Lula que eventualmente não vê, não ouve, não lembra de nada.

Aliás, em outros órgãos da imprensa americana, como o “The New York Times”, o tom de nem tão velada crítica é feita ao presidente americano que, tardiamente, estando quase que na reta final do seu segundo mandato, tenta minimizar a ausência de qualquer ação mais decidida, mais efetiva, para o lado de cá do mundo, durante os seus seis anos de governo, até agora.  

Com certeza não será usando de uma prosopopéia barata, ainda mais plagiada abertamente do seu maior desafeto na América do Sul, que S. Sa. vai ser recebido com flores por aqui. Talvez não veja muitas das manifestações contrárias à sua visita porque, pelo menos neste Brasil, está sendo providenciado um fortíssimo esquema de segurança para que elas não aconteçam pelo trajeto onde o mesmo tiver que passar. Pelo que li serão cerca de 4.000 homens, só da segurança daqui.

É isso aí, gente, democracia também é isso, sabiam? Botar vendas, calar vozes, cacetear renitentes manifestantes, enfim, empurrar para baixo do tapete. Aí entra um amigo gaúcho inconformado: “Que barbaridade, tchê!” E não diga mais nada, pois do contrário a democracia se zanga com você, hein!

Nem sei se havia tanta necessidade de exagerar nos cuidados. Claro que um presidente americano, ainda mais hoje em dia, é sempre muito visado e necessita ser preservado, concordo. Porém dizem os jornais que na comitiva dele já estariam vindo cerca de 300 (trezentos) seguranças...

Então entra meu bom amigo nordestino: “Oh xente... isso tudo é medo, bichinho?” Talvez não, bom Severino, é mais uma questão de segurança, de precaução, percebes? Porém, como diz um velho ditado: “Quem tem... tem medo...” pois.

Para encerrar, os amigos e amigas sabem que o visitante, segundo a imprensa em geral, receando a água que nós bebemos, está trazendo água mineral para o uso pessoal enquanto cá permanecer? A imprensa tem publicado essa informação. Não deve confiar na qualidade do precioso líquido que por aqui é ingerido. Vai ver que ele está certo.

Querem saber de uma coisa? Cansei de valorizar essa visita. Que tenha uma boa estada e retorne logo ao seu país. Boa impressão ele deve levar, pois a violência urbana diária ele não vai ver, nem na TV, podem crer. Mas também, se visse, não se surpreenderia, afinal convive com a do Iraque há muito tempo. Boa viagem e tchau.



(10 de março/2007)
CooJornal no 519


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br