17/03/2007
Ano 10 - Número 520

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

A RAINHA, MÃE DE TODOS

Ela não chega a ser uma Madre Teresa de Calcutá, vá lá, mas como ser humano está num nível muito acima da média e certamente da grande maioria de nós, pobres mortais, com certeza.

Em relação a afeto, afeição, amor, à capacidade de perceber e sentir as necessidades dos outros, de se doar por inteiro na solução de todos os nossos problemas, de qualquer ordem, superando suas próprias dores e tristezas sem as passar para nós, ela, podem crer, já merece o título de anjo, faz tempo, por sua bondade, sua caridade, e suas muitas virtudes.

Conheci uma freirinha que teve uma vida bem longa, que era amiga de minha falecida esposa desde que esta era criança, uma quase santa, e que por sinal tinha o mesmo nome dela. Coincidência na pia batismal e na disposição sempre constante para a prática do bem. Apenas a pessoa a quem me refiro não é freira. Não importa.

O virtuosismo de alguém independe de batinas, de fazer votos a alguma ordem, e muito menos de ser casto. Sua semente está no coração da pessoa, nasce e cresce com ela, se revela, se irradia por sua aura e se esparge pela bondade, pela dedicação incansável aos que dela precisam.

Esta é a nossa rainha, mãe de todos, ou quase. Ela foi a sexta na ordem de nascimento numa família onde seus pais, sem o “prejuízo” da televisão, naqueles tempos, lograram amar muito e muito, para chegar a colocar 10 (dez) filhos no mundo, como dizem alguns. E com um placar equilibradíssimo de 5 x 5, entre homens e mulheres. Isso é que trabalhar bem, em todos os sentidos.

Ela acompanhou e cuidou, nos últimos anos de vida, não só de seus pais como também de Carmita, a dindinha, meio mãe de quase todos também, além de Vivi, que igualmente já partiu desta vida, e ainda cuida de Nilza, essas duas últimas antigas empregadas domésticas nos áureos tempos de sua família e que depois foram à ela integradas. Todos quatro partiram com mais de 80 anos. Teve ainda que administrar a dor de realizar o sepultamento de dois irmãos, mortos precocemente.

Igualmente ela foi uma espécie de assistente social, psicóloga, procurando contornar conflitos entre casais, sendo que um dos dois era sempre um seu irmão. Amparou sobrinhos em momentos difíceis na convivência dos pais deles. Socorreu e consolou manos e manas quando se fez necessário aquele apoio, aquela palavra, aquela presença, pela doença ou pela perda de um ente querido. Jamais esteve ausente.

Por tudo isso podemos considerá-la como “a mãe de todos”, no sentido mais amplo e dignificante da palavra mãe. Ela mesma não casou, não teve filhos, talvez porque não lhe tivesse sobrado tempo pra isso. Afinal qualidades e virtudes tantas não lhe faltam até hoje. Beleza interior e exterior, além de simpatia, afabilidade, cortesia, ou como gostam alguns... lhaneza no trato, sobejam ou superabundam de sua personalidade.

Mas vocês me perguntariam: e por que “rainha”? Explico: recentemente ela foi surpreendida com um convite daqueles que massageiam o ego de qualquer mulher, especialmente após viver tantos anos. De repente sugeriram que se candidatasse à rainha da terceira idade, concurso que determinado clube iria realizar.

Não obstante todo o seu trabalho assistencial, para além das horas diárias gastas na labuta na justiça do seu Estado, jamais ela renunciou à vaidade feminina a que tem direito. Ainda mais com o incentivo e a torcida dos familiares. Claro que ela aceitou. Era o primeiro concurso de que ela participaria em sua já longa vida.

Ela própria escolheu a roupa que usaria no desfile daquela noite: “Encantos do Pará”. Acabou se destacando também nos detalhes da bonita, simples e original fantasia. A torcida organizada vibrava junto com a emoção dela. Foi um show, amigos e amigas.

Quando desfilou, ao som do ritmo caribó, autenticamente paraense, já se prenunciava imbatível. Olhando ligeiramente para o júri percebeu que estava, no mínimo, agradando muito. Por fim saiu o resultado ansiosamente aguardado: “O título de Rainha da Terceira Idade ... “goes to”... Maria Luiza.” Sim, este é o seu nome.

Ela não cabia em si de felicidade e merecia muito, muito mesmo. Confiram na foto que acompanha este texto, por favor. Uma Rainha de fato e por todos os méritos, da altura dos seus 60 anos. Bem, ela me autorizou a revelar sua idade, ou eu não o faria.

Parabéns, Luiza, parabéns, mana Lu, querida de todos, a quase mãe de todos também. Não há na família quem não lhe deva um pequeno favor que seja. Um anjo sem asas, mas muita luz, uma alma amiga, solidária, sempre presente com seu amor, sua dedicação incansável a todos da família, e mesmo fora dela. Você mereceu.

Nossa Rainha, Maria Luiza Simões dos Santos. E a história não acabou por aí, não. Imaginem que já recebeu outro convite, agora vindo da direção do clube, para se candidatar, por ele, ao concurso de Rainha da Terceira Idade do Estado do Pará, a se realizar no próximo ano. E como a conheço bem, sei que ela não foge a qualquer desafio, podem crer que vai estar lá na passarela novamente.

Torcerei por você novamente, Mana Lu, sem medo de ser feliz e com aquele orgulho de ser seu mano véio, o primogênito em dez. Deus te abençoe e proteja sempre.


 


(17 de março/2007)
CooJornal no 520


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br