31/03/2007
Ano 10 - Número 522

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

E A FARRA CONTINUA...

O assunto que vou abordar hoje não deve ser novidade para ninguém, ou para quase ninguém. Já devem estar sabendo que os senhores congressistas aprovaram, em proveito próprio, um novo nível salarial para eles. Ainda vai ao plenário para a decisão final, mas alguém acredita que lá a proposta será derrotada?!

O salário considerado base, que andava à roda dos R$ 12.000,00, terá uma correção de 26%. Este índice eles obtiveram calculando cumulativamente a inflação de alguns anos passados. Até aí acredito que poucos discordarão, já que eles ficaram alguns anos sem aumento, embora boa parte do nosso povo não esteja conseguindo correção em seus vencimentos. Vencimentos, aliás, muito aquém dos números que definem os salários dos senhores congressistas.

E não nos esqueçamos que eles estavam articulando mas era para dobrar os seus vencimentos. Não conseguiram, porém, acreditem, eles nunca perdem.

Ocorre que, conforme muitos analistas políticos têm destacado, o montante recebido pelos senhores parlamentares vai muito além dos agora R$ 16.000,00 do salário base. Sabe-se que ele ultrapassa os cem mil reais mensais. Acreditam? Como se faz esta mágica? Ora, é verba para isto, verba para aquilo e para mais aquilo outro, e aí...

Você, trabalhador brasileiro, como eu, mesmo aposentado, paga todas as suas despesas, sejam de alimentos, de vestimentas, de aluguel ou prestação da casa própria, de combustível, se tiver carro próprio, de luz, de gás, de telefone, e se estiver num nível em que pode dispor de secretária (o), empregada doméstica, etc, naturalmente também arca com seus salários já que prestam serviço a você. E também paga, como eu, uma boa parcela de INSS, mensalmente, por conta dos salários de seus servidores. E não é pouco.

Eles não, pois nós, povo, através de inúmeros impostos é que seguramos “esta barra”, ou seja, mais esta. E eles estariam lá para legislar em favor do país e deste povo, generoso e pacífico, que fica indignado, mas acaba tolerando tudo, tudo mesmo.

Algumas vezes grita, estrebucha, porém logo volta à sua rotina de um trabalho suado, sem privilégios, e na próxima eleição estará elegendo mais alguém que acabará por se juntar aos que lá já estão e a fazer a mesma coisa. Quando foi diferente?

Vamos agora ao mais indigno de tudo, ao mais injusto. Sabem que as tais verbas que eles recebem, algumas pelas quais agora estão dispensados de apresentar comprovantes, ou Notas Fiscais, verbas que somadas elevam seus salários a mais de cem mil reais, não estão sujeitas à tributação do leão da Receita Federal? Ou seja, sobre elas os ilustres representantes do povo não pagam imposto de renda?

Você, como eu, está sempre na mira feroz do leão e nem pense em escapar valendo-se de meios ilícitos, o que é condenável. Nós pagamos o ano inteiro, na fonte, o meu caso, e ao final do ano eles sempre levam mais algum, ou muito mais algum do nosso salário, sejamos aposentados ou pensionistas também. O leão só discrimina os acima citados. Discrimina no sentido de os favorecer. Pois é.

E neste assunto, amigos e amigas, não existe político da situação nem da oposição, mas sim uma junção de interesses comuns, e por isso corporativos. Então eles se dão os braços, falam juntos a mesma língua, defendem a mesma causa, aliam seus sorrisos, e usufruem de vantagens que o povo, que eles deveriam defender, sequer pode sonhar.

O que você pensa sobre isso, amigo leitor, amiga leitora? A mim revolta, me causa enfado, me faz descrer que um dia este país será realmente justo, ou que seremos todos, todos mesmo, iguais perante a lei, como reza na nossa Carta Magna. Se nunca foi para valer, porque escreveram lá?

Afinal eles é que elaboram as leis, eles que administram seus próprios interesses, eles que, quando eleitos, mesmo pela primeira vez, parece que já assumem com aquela idéia fixa de que “nós somos nós, o povo é o povo.” Danem-se os eleitores que votam com a melhor das intenções pensando que vão mudar alguma coisa para melhor.

E nem vou me referir à outras injustiças tais como eles só trabalharem três dias por semana, de terça a quinta, havendo raríssimas exceções, além das férias que chegam a três meses e das tais verbas extras que também recebem quando são convocados, durante parte das férias, para fazerem o que não fizeram durante o ano inteiro.

E existe quem considere que ao emitirmos nossa opinião, como idoso que sou e assumo com muita honra, costumamos opinar porém... sem conhecimento. Nem preciso ir à Brasília, ou estar lá, para saber dessas coisas. Nem eu nem qualquer brasileiro a quem não se pode querer retirar o direito de se manifestar, sim, ainda mais contra essas injustiças, esses descalabros legais, entre tantos outros.

Chega, minha paciência se esgotou e se for escrever tudo que estou pensando acabo por deixar de ser o que sempre fui e defendo: um colunista, aprendiz esforçado, que jamais baixou o nível, que jamais perdeu a elegância em qualquer tipo de crítica.

Deus nos abençoe e proteja sempre, porque dos homens pouco ou quase nada se pode esperar. Especialmente daqueles que detêm algum poder.

 


(31 de março/2007)
CooJornal no 522


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br