07/04/2007
Ano 10 - Número 523

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

CERTO POR LINHAS TORTAS

Pois é amigos e amigas, há alguns ditos populares, muito conhecidos, que atravessam o tempo, viajam pelos anos e são constantemente repetidos nesta ou naquela situação.

Eles procuram definir certos momentos, determinadas ações, fatos ou feitos, enfim acredita quem quiser, evidentemente. Mas eles estão aí parece que para ficar eternamente. Vocês devem conhecer vários.

Bem, a gente vai vivendo, ora percebendo o quanto de bom a vida nos oferece, ora sentindo o peso de uma dor que machuca fundo, ora caminhando desorientado por algo inesperado que rompeu um viver pleno de felicidade, ora nos esforçando para retomarmos o caminho e continuarmos na vida em paz e com amor.

O importante é jamais nos deixarmos derrotar, mesmo nas situações mais adversas. Sei que é difícil aceitar esta sugestão se vivemos em situação extrema de infelicidade, eu sei. Mas, enquanto houver vida, é preciso vivê-la. Nunca desista disso.

Olhe em sua volta e veja quantos e maravilhosos exemplos de superação chegam ao nosso conhecimento. Pessoas que tinham tudo para desistir do que faziam e até mesmo de prosseguir na caminhada de sua existência. Têm sido muitos os exemplos de superação em qualquer idade. Devemos nos espelhar neles, não nos fracassos.

Fiz este intróito para lhes dizer que, apesar de tudo pelo que passei recentemente, hoje, mais do que nunca, acredito nessas palavras que procuram, não nos confortar, porém nos indicar outro caminho, outra atitude, ou mesmo explicar talvez porque certas coisas nos acontecem trazendo sinais que não devemos ignorar.

Presentemente levo mesmo a sério os ditos que afirmam: “Deus escreve certo por linhas tortas”... ou então... “Há males que vêm para o bem”. Eu os ignorava antes, não lhes atribuía a atenção que deveriam merecer, até porque a vida me premiava com a paz, com amor e felicidade. É quando a gente acaba se descuidando de observar certos sinais. Felizmente acordei em tempo, porém em plena tempestade de sentimentos confusos e conflitantes.

Olhei para os lados, comecei a ver que a vida ainda estava ali, comigo, esperando por mim. Vi que teria que jogar fora o script anterior sem precisar atirar ao lixo lembranças, recordações tantas que afinal foram o filme de uma vida da qual eu jamais me divorciarei.

Por outro lado havia que mudar de postura, de atitude, assumir outros propósitos, mas seguir caminhando entre sóis e luas, levando a bandeira da solidariedade para além dos limites que antes eu me impusera. Sabia que sem paz, sem amor, sem amizade dificilmente se reencontra a felicidade, e sem esta, amigos e amigas, a vida é muito árida, fastidiosa.

Despedi a solidão, que por tantas noites e madrugadas estivera comigo sem perceber o quanto me atormentava, me flagelava, compelindo-me por algumas noites mal dormidas, e tornado dias e dias arrastados, um tanto insossos.

Acredito hoje que todos devemos nascer com um traçado prévio de vida que até pode ser alterado pelo livre arbítrio, mas nem sempre o exercemos corretamente. As decisões são apenas nossas. Se ignoramos os sinais a que me refiro acima mais corremos o risco de enveredar pelo caminho que nos afastará da necessária evolução. Com certeza.

É difícil, bem sei, administrar uma perda muito significativa, assim também como são assustadores determinados flagelos que nos são impostos através da saúde e que ocorrem aparentemente sem mais nem menos. Sentimo-nos bem, nenhum problema, todavia de repente simplesmente não conseguimos deitar e dormir e nossa respiração fica por demais difícil. Por quê?

A descoberta é ainda mais assustadora. Este é o segundo susto, o segundo alerta. Exames e pareceres médicos provam que eu ainda não havia entendido nada. A mudança tornava-se imperativa, mudança de ambiente, de sentimentos, de emoções, de perspectiva de vida. Eu caminhava para o precipício sem o perceber. O mal que me acometera e o médico foram apenas instrumentos, outros, que o destino usara.

A vida me castigara em duas oportunidades bem distintas, me impusera dois sustos imensos, com intervalo de quase quatro anos, porém soube esperar que eu me recompusesse, que enfim eu despertasse para minha nova realidade.

A partir daí finalmente acordei para uma vida que já estava ali, ao meu lado, fazia tempo. Vem então a troca da solidão pelo clima de uma grande solidariedade familiar. Começo a reviver, a me agarrar a esta segunda chance de sobrevida. Precisava de paz, de ternura, de amizade, de carinho, enfim, de amor, tudo que já perdera antes e que agora iria compartilhar com outros.

Creiam ou não, hoje percebo mais claramente que “Deus escreve certo por linhas tortas”. A minha missão anterior havia terminado, mas agora há que seguir em outra direção, dividindo alegrias e tristezas com outras almas, vivendo e ajudando a viver a quantos me aguardavam sem mesmo terem consciência disso. Nem eu a tinha.

Espero porém ter tempo suficiente para dar conta do que me espera, desta nova missão nesta sobrevida, retribuindo igualmente a todo o bem que me está sendo doado, como diz o ditado... “por linhas tortas”.


 


(07 de abril/2007)
CooJornal no 523


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br