28/04/2007
Ano 10 - Número 526

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

UMA NOVA HISTÓRIA DO ZACA

Há algum tempo atrás eu lhes narrei aventuras do Zacarias, um personagem por mim criado mas que, em verdade, é um clone miscível de genes de vários amigos que conheci nesta longa estrada da vida, e do meu também, claro. Ali contei fatos reais mesclados com alguma ficção. A crônica era: O INTERNAUTA ATRAPALHADO.

Hoje lembrarei uma experiência que o nosso Zaca jura ter acontecido realmente. Vamos então dar crédito ao nosso bom Zacarias. Ele fora mandado pela empresa em que trabalhava para executar uma missão em outro Estado, justo na cidade em que nascera. O ano era 1969. Ficaria por lá cerca de dois meses.

Certo dia, quase ao final do expediente, um colega da terra o convidou para um programa, naquela noite, garantindo que ele iria adorar. Como ele não tinha nenhum compromisso decidiu aceitar o convite. Antes quis saber aonde iriam. O colega lhe falou que o levaria para conhecer o famoso “Forte Apache”.

Imaginou que seria alguma boate ou algo assim, mas não. Ficou sabendo tratar-se de uma muito conhecida e respeitada casa de, digamos, moças simpáticas, educadas, pessoas de fino trato, qualidade garantida pela senhora que administrava o empreendimento. Esta tinha um prestígio dos maiores junto ao universo masculino do referido Estado, inclusive nas mais altas camadas sociais, e mesmo além fronteiras.

Zacarias perguntou onde se localizava a tal casa. A resposta foi pronta: “Bem ao final da Av. Tito Franco, ali no bairro do...” Zaca interrompeu rápido: “Puxa, justo no bairro onde eu nasci e vivi minha infância e juventude? Nunca soube que houvesse disso por lá naquele tempo!” Pois é, mas haviam se passado mais de quinze anos e muita coisa estava diferente na cidade natal de Zacarias.

O interesse dele aumentou ainda mais. Lá chegando ficou encantado com a visão do local. Apresentações feitas à dona do estabelecimento e Zaca ainda corria os olhos sobre os detalhes internos daquela bonita casa quando as primeiras jovens começaram a adentrar ao recinto. Seu interesse logo mudou de foco.

Sorrisos, apertos de mãos, beijinhos inocentemente trocados e, de repente Zacarias tomou um susto daqueles. Uma das moças que acabara de entrar lhe parecia totalmente familiar. Cutucou o colega e falou: “Amigo, não acredito no que vejo, devo estar sonhando.” Ele logo se lembrou de uma bonita morena, mignon, pernas bem torneadas, séria, que tanto observava na fila do elevador, no Rio de Janeiro, mas que jamais correspondera às suas tentativas de aproximação.

“Ora, isso é impossível, Zacarias. O que me contas ocorreu lá no Rio, como dizes, não foi? Então, amigo.” Pois é, mas Zaca a conhecia muito bem, nos mínimos detalhes. Só se fosse uma irmã gêmea e daquelas realmente idênticas, completamente iguais. Sorrindo, o nosso personagem convidou a morena para sentar-se ao seu lado. Iniciaram uma alegre conversa sem entrar por ora nas questões que o intrigavam.

Ela, por seu turno, não demonstrava lembrar-se dele, ou disfarçava muito bem. Após alguns drinques, já mais descontraído, ele parecia ter caído nas graças dela também. Então Zaca reuniu  toda a sua coragem, convocou forças, pigarreou e perguntou se podia fazer-lhe uma pergunta com algo de indiscrição e de surrealismo. Ela aquiesceu sorrindo. Ele então sacou esta: “Você não é daqui, certo? Você é do Rio de Janeiro?”

Ela, olhando espantada para ele, retrucou: “Ora, porque você diz isso? Não está me confundindo com outra pessoa?” Não, ele tinha uma certeza que martelava em sua cabeça e recordações muitas de dias e dias de tentativas frustradas, na fila daquele elevador. Então acrescentou: “Olhe, acho difícil eu estar enganado, mas até afirmo que você, morena, trabalha no Rio, e nem preciso dizer o endereço, preciso?  Ela empalideceu, porém logo se controlou.

“Vamos fazer assim, deixaremos para falar sobre isso lá embaixo no meu quarto. Pode ser? Eu prefiro, acredito que teremos muito que dizer um ao outro, não?” Ele pensou de imediato... “na mosca”... O gole seguinte foi mesmo de comemoração. O grande Zaca voltaria à ativa de peito erguido com seu ego soltando vivas muito controlados. Não via a hora de se recolherem e até esqueceu de que não avisara seus parentes da possibilidade de não voltar à casa naquela noite. O dia seguinte era um sábado.

Mais tarde, já estando no aconchegante quarto localizado por baixo do “Forte”, puderam então liberar suas confidências. E que confidências, amigos! Vou resumir pois não estou escrevendo um livro. Vamos lá então. Sob o olhar estupefato de Zacarias, a linda morena, desfazendo-se de algumas peças de roupa, revelou:

“Querido, você está certo, sou a pessoa a quem você se referiu, sim. Moro no Rio, trabalho onde você disse, e estou de férias por aqui. Ocorre que tenho um compromisso sério no Rio. Queria aproveitar ao máximo essas férias de solteira, certamente as últimas.” Tomou mais um pequeno gole e prosseguiu:

“Quem planejou tudo foi uma amiga que veio comigo. Ela já conhecia esta cidade e a dona do "Forte". Assim, ao mesmo tempo em que me divirto, conheço pessoas agradáveis, entre outros tantos prazeres. Este fim de semana, por exemplo, passaremos todo ele numa ilha e uma lancha virá nos buscar. Imagine a mordomia!”

Zaca entendera tudo, sim, e procurava se recuperar do choque daquele surrealismo traduzido para uma realidade insofismável. Chegara enfim o dia tão esperado por ele que quase já desistira de conquistar aquela morena quase inalcançável, antes, e que então estava ali, ao seu lado, tal e qual deve ter vindo ao mundo. Ele a olhou todinha, de cima para baixo e viu que era mesmo como ele sonhara por tantas noites.

Deixemos o casal desfrutar dos prazeres daquela noite que Zaca gostaria certamente que se prolongasse por muitas horas. Outros encontros aconteceram na mesma cidade, no mesmo “Forte”. Dias depois a morena sumiu sem deixar nenhum recado. Zacarias também retornou ao Rio de Janeiro, pois sua missão por lá terminara.

Ao voltar do almoço, numa terça-feira, ele a viu novamente na mesma fila de elevador. A morena sequer demonstrou que agora o conhecia. A mesma frieza, o mesmo desprezo. Ele acabou descobrindo um número de telefone do andar em que ela trabalhava e ligou para lá. Pediu para chamá-la sem se identificar, claro.

A morena atendeu e quando percebeu de quem se tratava, abaixando a voz foi incisiva: “Eu deixei bem claro que aquilo tudo foi um sonho, apenas um sonho que não vai se repetir, nunca mais, entendeu? Por favor, esqueça tudo. Vou me casar dentro de três meses e nada pode atrapalhar isto. Pare de me seguir e não ouse mais telefonar. Por favor.” Em seguida ela desligou o telefone no ouvido do nosso personagem.

Pobre Zaca, mesmo sabendo que isto iria acontecer preferiu arriscar e ver se a história poderia ter um desfecho, digamos, mais favorável a ele. Não, a sentença estava decretada: o sonho realmente terminara. A partir daquele dia Zacarias teve que se contentar com rápidos olhares, sempre na fila do elevador, até o dia em que a morena sumiu definitivamente.

Desde então a fila do elevador, naquele prédio, na volta do almoço, perdeu a graça, o atrativo, a esperança de conquista. Nenhuma morena a substituiria, jamais. Desta vez o nosso Zaca saiu bem machucado, mas também quem manda não controlar seu apetite? Pecador inveterado. Outro dia eu volto com alguma nova aventura deste nosso simpático personagem.
 


(28 de abril/2007)
CooJornal no 526


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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