12/05/2007
Ano 10 - Número 528

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

CLODOMIR, OUTRO GRANDE AMIGO

De quando em vez eu gosto de render minha homenagem a pessoas com as quais convivi e aprendi a respeitar e admirar. Foi o caso dele, do Clodomir. Nós nos conhecemos quando bem jovens no Colégio Nazaré, de Irmãos Maristas, em Belém, onde cursamos o ginasial e mais os três anos do que se chamava curso científico.

Seu nome completo: Clodomir Grande Colino. Sua estatura era de médio a pequeno todavia era grande a sua inteligência, o seu talento, a sua cultura geral, a sua capacidade de fazer amigos e ser reverenciado por eles. Orgulho-me de o ter conhecido tão cedo. Fomos colegas de turma. Clodomir disputava, mês a mês, o primeiro lugar de nosso grupo com Michel. Eu estava sempre entre os 10 primeiros.

Crescemos amigos e nossos caminhos foram se cruzando por longo tempo. Eu estava com 17 anos e terminando o científico quando me submeti ao concurso externo promovido pela Rádio Marajoara. Quem me conhece sabe que o rádio sempre foi uma das paixões da minha vida. Clodomir já era rádio ator da mesma emissora. Havia 50 candidatos para os testes de locutor. Idos de 1953.

Apenas três foram aprovados, Clodomir, um outro jovem e eu. Na rádio nos submeteram a um difícil período de testes de três meses, sem salário, ora abrindo a programação da emissora (das 6 às 9 horas da manhã) ora encerrando a mesma (das 22 h à meia-noite). Ao final somente o Clodomir e eu fomos aprovados.

Com o tempo e o apoio do bom amigo acabei crescendo no excelente “cast” da Rádio Marajoara. Mantive-me sempre como locutor, mas acabei tendo aprovados também meus projetos de um programa humorístico e outro de escrever e ler crônicas diárias. Como rádio ator tive apenas uma rápida experiência na novela “O Conde de Monte Cristo”, uma obra muito conhecida.

Aos domingos à noite, logo após a apresentação ao vivo do meu humorístico “Hoje tem espetáculo”, havia um programa de gala, muito concorrido, no auditório da rádio. Muitas atrações eram apresentadas com artistas locais e outros que vinham do sul. A cada noite alguém da própria rádio era escolhido para ser entrevistado pelo apresentador. Este variava sempre a cada domingo, em rodízio.

Numa semana em que o programa era comandado justamente pelo Clodomir ele me convidou a participar da entrevista. Foi muito importante para mim. Tive oportunidade de falar sobre a minha vida, sobre planos para o futuro (isto apenas aos 18 anos) e apresentar outras eventuais qualidades não exibidas na minha atuação na Marajoara. Claro que antes combinamos e ensaiamos alguns números musicais.

Eu estudara violino por 6 anos, mas abandonara a contragosto do meu pai. Gostava de brincar solando músicas em apenas uma corda, a quarta, do violino. Pois ele me apresentou como uma espécie de “fenômeno” e me fez tocar um rápido pot-pourri de canções. Eu estava nervoso, confesso, mas não recuei. O público foi muito gentil e me aplaudiu mais do que eu merecia, talvez pelo inusitado do que tive coragem de fazer.

Apresentamos depois outro número musical, também sugerido pelo Clodomir. Eu gostava de piano mas, em casa, não me deixaram aprender porque, naquele tempo, diziam que era instrumento para mulher. Costumava me exercitar tirando muitas canções de ouvido e ficava horas a treinar, sozinho. O amigo propôs tocarmos no palco, a quatro mãos. Ele era um exímio pianista, também, mas eu...

Sentado à direita dele, me incumbi dos solos enquanto Clodomir cuidava dos acompanhamentos, o que me era mais difícil. Parece que agradamos. Foi uma noite e tanto. Curiosamente, a partir daquilo surgiu-nos a idéia de formarmos um trio: Clodomir, eu e Michel, o outro que disputava o primeiro lugar da turma com ele, mês a mês, no colégio. Claro que nunca pretendemos nos profissionalizar na música, mas apenas divertir-nos ao mesmo tempo em que alegrávamos pequenos públicos.

Passamos a tocar eventualmente em alguns clubes. Nessas apresentações o Clodomir ficava com o piano, Michel com o violão e eu... bem, passei a usar minha gaita de boca. Outro instrumento que muito me atraía. Algumas vezes tocamos em bairros, para poucas pessoas, porém aquilo nos satisfazia muito. Nessas improvisações, em ruas, Clodomir também tocava violão. Quando tínhamos algum número musical em que era necessário cantar deixávamos para ele mais esta proeza. E Clodomir aceitava.

Em 1960 eu me mudei para o Rio e fiquei muitos anos sem ter contato com o amigo. Minha vida mudou bastante, tive altos e baixos até me afirmar no BB, na Direção Geral, ainda com menos de 30 anos de vida e cerca de seis anos de Banco. Em 1969, já casado com Zezé, minha saudosa esposa, fomos a Belém participar, como padrinhos, do casamento de minha irmã, Maria Deolinda, a caçula das cinco mulheres.

Aproveitei para visitarmos o amigo Clodomir. À época ele era o proprietário e Diretor do Colégio Moderno, um dos mais conceituados de Belém. Recebeu-nos em sua sala com a fidalguia e a amizade de sempre. Conversamos muito, desfilamos recordações, e o amigo nos contou sua experiência como professor nos últimos anos. Como mestre também fez uma carreira brilhante reconhecida inclusive além Belém.

Alguns anos depois quando telefonei para ele me informaram que o bom amigo já não estava mais entre nós. Uma perda irreparável, e tão jovem. Devia estar ali pelos quarenta e tal. É a vida que dá e toma, que semeia alegria e felicidade, mas respinga sempre alguma dor, e muita saudade, com certeza.

Clodomir Grande Colino, um amigo como poucos, um ser humano que honrou a nossa raça, que dignificou todas as profissões que exerceu. Vives em nossas lembranças para sempre, amigo.

 

(12 de maio/2007)
CooJornal no 528


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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