19/05/2007
Ano 10 - Número 529

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

OS EXÉRCITOS DAS PASSARELAS

Não tenho nada contra a moda, embora não costume seguir meus hábitos de vestir pelo que ditam os senhores, ou senhoras, que, a cada ano, estabelecem parâmetros tais e tais. Considero isso tudo muito efêmero, embora seja uma opinião pessoal sem a intenção de alguma crítica mais severa sobre quem segue rigorosamente os modismos.

Mas eu quero mesmo me referir é aos desfiles de moda. Desculpem, mas eu nunca entendi e não aceito que aquelas jovens, geralmente muito bonitas, sejam obrigadas a desfilar pelas passarelas do mundo inteiro daquela forma a que sempre assistimos.

Sinceramente, quando vejo aqueles passos firmes, de certa forma nem tão femininos assim, me lembro dos tais “passos de ganso” do exército alemão, por exemplo, na época da segunda guerra. Aquilo mais parece uma marcha mesmo do que um desfile que, a meu ver, exigiria muito mais graça, não só traduzidas nos modelos, ou pelo talento dos costureiros e costureiras, ou ainda pelos rostos lindos das modelos.

Graça, amigos e amigas, significa beleza, mas também elegância de gestos, de expressão e de movimentos. E eu lhes pergunto: onde está a elegância da expressão? Por que aquelas jovens têm que desfilar, o tempo todo, sem sequer esboçar um leve e simpático sorriso? Creio que não por vontade própria, mas certamente obrigadas.

Mal comparando, é uma espécie de “ditadura do mau humor”. Não seria muito mais simpático que as modelos desfilassem soltando eventuais sorrisos para a platéia que as aplaude? Por que não? Acaso o público só olha para as roupas que as jovens vestem? Claro que não.

A graça de um desfile, para o meu gosto pelo menos, teria que ter o somatório do estilo dos costureiros mais a simpatia das modelos e um jeito mais feminino de desfilar.

Nunca consegui entender nem aceitar a cara fechada, com traços de uma certa indignação ou raiva, sei lá o que, que as jovens estampam em seus rostos bonitos a enfeia-los durante os minutos em que passam exibindo as roupas.

E a elegância de movimentos, que também cito acima, onde está? Por acaso aquele jeito meio militar de andar, ou de marchar, pisando forte e com tal firmeza que a comparação, para mim, fica inevitável, é elegante, em se tratando de moças e jovens? Podem discordar de mim, mas jamais terão argumentos para justificar aquilo.

Por que não permitir que as modelos desfilem descontraidamente como já vi acontecer em certos desfiles beneficentes realizados em um clima festivo? A passarela parecia se iluminar não só de moda, mas também de vida, de alegria, de simpatia. As moças passavam uma imagem de felicidade e não de obrigação do dever cumprido sem o prazer de cumprirem bem o seu trabalho.

Hoje, aliás, já está caindo, ou despencando, aquela estúpida lógica, ou exigência, ou regra, que sempre fez com que as jovens mantivessem um corpo não apenas esbelto, mas com um peso bem abaixo do ideal para sua estatura, como se apenas magreza fosse algum sinônimo de beleza ou de elegância. Não é por aí.

Agora se vê quantas modelos sofriam de anorexia, enfrentavam, ou ainda enfrentam algumas o processo de bulimia, tudo mantido às escondidas, mas que agora veio à tona. Infelizmente está sendo necessário se perderem muitas vidas para finalmente algumas pessoas responsáveis por esses desfiles mudarem o seu “discurso”, suas exigências, visando a contornar o que vinha se agravando cada dia mais.

Parece-me que da Itália veio enfim a primeira decisão sobre este assunto, numa tomada de posição oficial que começa a ser seguida por outros países. Que assim seja e que as mulheres, jovens ou não, entendam que a elegância não está no esqueleto mais ou menos definido pelo físico, porém na postura, na simpatia, no jeito feminino de ser, no charme e numa certa sedução expressos pelo olhar, no andar, e mesmo pelo falar.

Para o meu gosto pessoal, acrescente-se ao que digo acima, um corpo bem cuidado, com linhas, se possível, bem definidas, e, por que não, até meio cheinho, sem parecer uma exposição óssea ambulante, pois. Nada contra as magras, não, porém nunca fui apreciador deste tipo de físico.

Falei e disse mas respeito as opiniões divergentes, afinal não sou dono da verdade, apenas busco ir ao encontro dela na medida do possível. E vamos sorrir nas passarelas pois a vida já está ficando feia demais para que jovens bonitas colaborem com este clima desfilando emburradas, carrancudas, escondendo rostos graciosos.

 

(19 de maio/2007)
CooJornal no 529


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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