26/05/2007
Ano 11 - Número 530

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

EU AMO O MEU PAÍS

Já ouvi e li algumas vezes pessoas dizerem que têm vergonha de serem brasileiros, ou de viverem neste Brasil. Desculpem, mas eu amo o meu país e respeito o meu povo.

Quem me lê sabe que entre os anos de 1989 e 1998 vivi por quatro longos períodos na Europa. Não fui nunca um turista acidental, não, vivi procurando conhecer o melhor que eu podia da vida, da cultura, dos hábitos de cada povo.

Admiro muito a Europa e o respeito que cada povo tem por sua história, sua tradição. Sei que por aqui pouco ou quase nada se respeita, especialmente do que deveria ser preservado. É lamentável, mas parece que estamos começando a aprender isso.

Temos que reconhecer que o Brasil atravessa uma fase muito triste onde a ética, a honra, a dignidade, a honestidade, a retidão de caráter, são pérolas atiradas ao lixo. E os piores exemplos de há muito vêm de cima. Não é de hoje.

Com os recentes episódios de denúncias tantas por apurações realizadas pela Polícia Federal e as inúmeras prisões efetuadas fica claro hoje que não há partido político que não participe, com algum ou alguns de seus membros, de maracutaias muitas.

O que os federais têm feito, por ora, é cutucar as “onças” com vara curta, decididos que estão, assim parece, a pôr às claras toda a sujeira que campeia pelo nosso Brasil. Todos sabemos que o país não começou a se dedicar ao “exercício da corrupção” apenas agora, absolutamente. Este exemplo eu tirei hoje, 21.05.2007, do site da CBN:

“A União pagou R$ 103,1 milhões por serviços prestados à construtora Gautama entre 2000 e 2006, segundo levantamento preliminar da Controladoria Geral da União sobre contratos entre governo federal, estados e municípios e a empresa baiana. O resultado do levantamento mostra que a empresa era beneficiada por obras já na gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.” --- Pois é, amigos.

Quando antes se prendeu algum membro da nossa Justiça, em vários níveis? Quando? Quando antes se deu voz de prisão a governadores, deputados ou senadores, assessores de Ministro, ou mesmo Ministros? Quando? A Polícia Federal enfim está procurando cumprir o seu verdadeiro papel no seio de nossa sociedade. Inclusive está cortando na própria carne em certos casos, ou não?

Se alguns dos denunciados e presos têm sido soltos, antes do julgamento, por artifícios legais da justiça, a culpa não é de quem faz bem o seu serviço, de brasileiros que temos que aplaudir, sim, porque procuram cortar o mal pela raiz ao aprofundar ao máximo suas investigações, doe a quem doer. Deles devemos nos orgulhar.

Lamentavelmente ao serem julgados os tais hábeas corpus parece que os pesos são bem diferentes ao entrar em campo o julgamento maior da justiça. Afinal o que é o instrumento do hábeas corpus? Respondo: “Garantia constitucional outorgada em favor de quem sofre ou está na iminência de sofrer coação ou violência na sua liberdade de locomoção por ilegalidade ou abuso de poder.”

Por acaso a Polícia Federal está usando de “violência em atos ilegais e de abuso do poder”? De jeito nenhum. Ocorre que quem vive próximo do poder, de alguma forma acaba conseguindo um certo beneplácito no julgamento do tal instrumento legal, enquanto os menos favorecidos da influência, do prestígio, ficam mesmo na cadeia. O que não se deve querer é que este processo de apuração pare. Precisa prosseguir.

Então desminto quem julgue que nosso país esteja podre e não tenha salvação. Se nossos políticos também andam deixando, e muito, a desejar quando absolvem desavergonhadamente colegas seus, até quem seja réu confesso, desculpem, mas não aceito esta lengalenga de que a “culpa é do nosso povo”. Me poupem, por favor.

Não aceito esta acusação à nossa gente. Se alguns votam errado, ou seja, em pessoas já denunciadas por corrupção e outros crimes, ou em pessoas despreparadas para assumirem uma cadeira no Congresso, muitos outros tentam acertar elegendo pessoas que estão fora do processo político totalmente contaminado. Não é o que se diz deva ser feito? Renovar para limpar e podermos ter esperança de que esta situação mude?

Por outro lado, quantos que assumem seus cargos pela primeira vez logo não são catequizados, no mesmo e viciado processo, e acabam por fazer o jogo dos que já comandam a rotina e os procedimentos que gostaríamos de ver banidos de lá? E a culpa é do povo que acreditou neles, em suas plataformas, em suas promessas? E você que acusa, acha que sempre votou “certo”? Nunca se queixou do seu eleito? Então?

É evidente que temos hoje provavelmente o pior quadro de políticos de toda a nossa história. Concordo e não vejo quando isto poderá mudar. Mas temos que reconhecer que nesta “corrupção epidêmica” também estão envolvidos grandes empresários, policiais e magistrados, em vários níveis, e mesmo pessoas ligadas ao poder maior.

Tenho sido também um crítico ácido dessa situação que estamos vivendo, quem me lê sabe, assim como sou dos mais atingidos pela ganância de arrecadação dos governos, desde os anteriores, o que agora continua no mesmo diapasão, ou um pouco pior. Afinal pertenço à classe média desse país e integro o grupo dos que, mais do que ninguém, são achacados pelo governo, especialmente através do imposto de renda.

Também corri das botas da ditadura, quando mais jovem, junto com minha falecida esposa, entre os anos 60 e 70. Também fui vítima de censura, algumas vezes, quando produzia filmes em curta-metragem. Faz parte da minha biografia. Anos que me entristeceram muito, me machucaram muito, mas jamais deixei de amar o meu país. A nação está acima dos homens, especialmente dos maus brasileiros.

Não há de ser agora, por sentir imensa vergonha, sim, mas desta classe política que aí está, assim como de outros níveis de nossa sociedade e da estrutura do poder, que eu, aos 70 anos de idade, iria me render à fraqueza da visão curta que não consegue alcançar, por outro lado, a grandeza do país a que pertence, em que nasceu.

Só lembro que, ainda que possamos computar alguns milhares de brasileiros corruptos, mais alguns milhares dos que gostam de “levar vantagem em tudo”, convenhamos que o país tem cerca de 200 milhões de habitantes.

Apenas uns quase 90 milhões votaram no atual presidente ou contra ele, e mais de 100 milhões não participaram do processo por várias razões. Desses, certamente muitos poucos estarão envolvidos neste mar de lama que se espalha pelo país afora.

E eu poderia relacionar inúmeros fatos e feitos de tantos brasileiros, através de décadas, que sempre mereceram o nosso respeito e admiração, ajudando a colocar o Brasil no alto de vários pódios, e a construir um país melhor. Pessoas honradas existem e não são poucas. Não misturemos todos no mesmo saco. Por favor, mais seriedade e justiça e menos explosões emocionais.

Por isso, meus bons amigos e fiéis leitores, vocês jamais me ouvirão dizer que sinto uma imensa vergonha de viver no país em que nasci, mesmo tendo dupla nacionalidade.

 

(26 de maio/2007)
CooJornal no 530


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br