02/06/2007
Ano 11 - Número 531

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

A VALSA DOS ABAÇANADOS ARDILOSOS

Amigas e amigos, na minha visão o nosso presidente Lula não tinha o direito de errar. Aliás, nem ele nem os seus companheiros de partido, o PT. Digo isto com a sinceridade e autenticidade de sempre, até porque, como sabem os que me lêem, eu votei nele, embora só para o primeiro mandato. Eu e outros cerca de 50 milhões de brasileiros.

Acompanhei o surgimento deste partido e seus primeiros movimentos pelas ruas do Rio de Janeiro em plena ditadura militar. Aquele grupo, ainda pequeno, crescia a olhos vistos. Por sua participação ativa à frente das lutas sindicais, em defesa da democracia, pronunciando-se sempre contra a corrupção, em favor da ética, Lula foi criando em volta dele uma aura de credibilidade, de confiança, de seriedade, etc.

Igualmente a estrela vermelha do partido transmitia uma idéia de que, chegando ao poder, haveria sim justiça social, as reformas de que tanto o país precisa, até hoje, um combate feroz aos corruptos, aos usurpadores do dinheiro público, enfim, uma mudança radical nos hábitos e costumes que se impunham com a anuência do poder. Parecia ser axiomático acreditar no que pregavam, no que prometiam. É, parecia!!

Porém todos lembramos da “tsunami de denúncias” que de repente assolou Brasília e que rapidamente chegou à ante sala do presidente. Curiosamente tudo começou com aquele pronunciamento de um dos envolvidos, o Sr. Roberto Jefferson, do PTB. Entretanto ele acabou sendo um dos três ou quatro únicos cassados de uma lista imensa de políticos envolvidos em vários tipos de crimes e falcatruas, a maioria do PT.

Não esqueci que o Sr. Jefferson, no feroz pronunciamento que fez acusando a tantos, procurou livrar o Lula de qualquer envolvimento. Por quê? Convicção de inocência? Há controvérsias. Quantos se saíram bem daquela situação apesar das denúncias e provas arroladas? O corporativismo parece ter atuado com desenvoltura e muito cinismo nas votações em plenário. Sempre pelo voto secreto, claro.

Do tal mensalão a tantos outros desvios de conduta, o saldo de cassações, no Congresso, evidenciou que a turma do “rabo preso” é maior do que se poderia supor. Lógica desses políticos: antes absolver, mesmo reconhecendo culpa, do que amanhã ser alvo também. Eu os chamaria só de impudentes para manter o nível.

Uma coisa que costumo cobrar de amigos que vivem, ainda hoje, a dirigir sua condenação somente ao Lula, é porque não se perguntam o que levou a tal “oposição” a desistir de abrir votação de impeachment, ou algo parecido, contra ele? Lembramos todos dos discursos inflamados de líderes, especialmente do PSDB e do então PFL, das palavras agressivas usadas junto com outras bem chulas, transformando a tribuna num teatro mal ensaiado, grotesco, saltando da tragédia à comédia vulgar.

Espernearam, acusaram, ameaçaram, o presidente estaria com os dias contados, mas, misteriosamente frente aos microfones das emissoras de rádio e de TV esses mesmos líderes, ou algozes de uma sentença tão anunciada, baixaram o tom, pigarrearam, disseram que precisavam examinar melhor o assunto e... nada aconteceu. Por quê?

Ficou o dito pelo não dito, Lula acabou reeleito, apesar de tudo, e no amplo leque de adesões ao governo acabamos vendo pessoas que haviam sido críticos severos de Lula, durante o primeiro mandato, agora alçados a cargos importantes no mesmo governo que antes queriam cassar. O que mudou? Eu diria que nada, ou melhor, que a sem-vergonhice não tem cor partidária nem pátria, apenas visa “meu pirão primeiro”.

E de repente a Polícia Federal resolve pôr em prática sua verdadeira missão, doa a quem doer. Aplausos muitos do público que acredita na seriedade deste trabalho. A PF está atuando em sintonia com o Judiciário, ou parte dele. Os escândalos se sucedem e já chegam em pessoas poderosas, alcançando empresários, Ministro de Estado, etc. A PF também está tendo que cortar na própria carne.

Pior: uma bomba de efeito retardado estoura no colo do Presidente do Congresso. Pois é, e agora? O atingido, em vez de fazer um pronunciamento em sua defesa usando a tribuna, ficou na cadeira de presidente. Sabem que ali ele sequer pode ser aparteado? Artimanhas tais que o cidadão comum jamais pode alcançar.

Os jornais informam que a Comissão de Ética do Senado, para o caso Renan, estaria sendo montada “criteriosamente”, com seus membros escolhidos, não a dedo, mas parece que pelo “juízo formado” de cada um. E haja juízo... Está na imprensa. Façamos aquela cara de otário e aguardemos no que vai dar, ou não vai dar.

Digo isto porque de repente a presidência da tal Comissão foi entregue a um senador do PT, do qual eu nunca ouvira falar. Mais, a Tv mostrou o referido senador indo abraçar o seu colega, o presidente do Senado, que será por eles julgado(!?), manifestando sua amizade e apoio. Tempos modernos, hábitos modernos.

De escândalo em escândalo, parece que voltamos ao começo. Os detidos, ou presos, às dezenas, estão sendo libertados. Ou cumpre-se o direito legal de aguardarem o julgamento em liberdade, ou se permite que alguns possam eliminar provas, evidências, de suas falcatruas, e assim se livrarem das denúncias incômodas, ou....

Acima de tudo cumpra-se a lei, mesmo que ela desampare a sociedade ávida de justiça. Habeas corpus... hábeas.

E o governo segue... “governando”. Até onde vai dar esta novela toda eu não sei, mas quanto ao fundo musical da mesma conhecemos bem, é “A Valsa dos Abaçanados Ardilosos”. Os únicos que “dançam” somos nós, povo. E contra isso não há vacina alguma. Mas, afinal, quando foi diferente? E continuem votando, votando, votando...

 

(02 de junho/2007)
CooJornal no 531


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br