04/08/2007
Ano 11 - Número 540

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

LEÃO ESPERANÇA?

 

Vocês sabem que não sou de dar muito crédito a uma tonelada de mensagens dessas que costumam circular pela Internet, ora fazendo terrorismo, político ou não, ora com apelos emocionais que nem sempre confirmam a veracidade da necessidade citada, ora com afirmações levianas e escritas com palavras chulas. Deleto-as todas.

É claro que usamos de algum critério para avaliar o que eventualmente possa merecer crédito de nossa parte, usando especialmente um raciocínio lógico, a inteligência, alguma verdade que se revela incontestável, a convicção quanto à seriedade de certa denúncia ou informação.

Outro dia um bom amigo me repassou algo que me fez pensar muito no que se continha na, digamos, revelação. Todo mundo conhece o tal programa da Rede Globo “Criança Esperança” repetido anualmente com muita festa e apelos emocionais. O SBT costuma também apresentar outro, em moldes semelhantes e esquema idêntico.

Pois bem, a mensagem que recebi começa com essas palavras: Criança Esperança: Você está pagando imposto da Rede Globo!”  Sabemos que “de grão em grão” eles fazem uma significativa arrecadação naquele programa a cada ano. É a manifestação de solidariedade do nosso povo brasileiro que propicia atingirem o objetivo colimado que é, em verdade, muito nobre, sem dúvida alguma.

Mas, vamos ao outro aspecto que tem sido contestado por alguns, não quanto à distribuição ou aplicação correta do montante arrecadado, não, porém quanto à afirmação feita pela televisão de que o tal programa não gera qualquer lucro para a emissora. Nisso é que o texto que recebi se baseia e apresenta uma análise simples, porém com lógica total e, de certa forma, indiscutível. Vejamos.

Está na mensagem: “Quando a Rede Globo diz que a campanha Criança Esperança não gera lucro, é mentira. Porque no mês de Abril do ano seguinte, ela (TV Globo) entrega o seu imposto de  renda com o seguinte desconto: doação feita à Unicef no valor de... (aqui vem o valor arrecadado no Criança Esperança). Ou seja, a Rede Globo já desconta pelo menos 20 e tantos milhões do imposto de renda graças à ingenuidade dos doadores!”

Para fazer tal afirmação o autor, que não se identificou, deve estar muito bem informado e, ademais, a emissora jamais viria de público tentar desmentir isso talvez por considerar que a sua credibilidade seja maior que qualquer eventual “calúnia”. Ainda mais na Internet.

Mas ignoram que aqui há uma força que cresce cada dia mais, no lado positivo da rede, que une internautas na salvaguarda da ética, da honra, da verdade, e contra tudo que se oponha ao juízo desses valores. Eu só trocaria, naquele texto, a palavra “ingenuidade” por “generosidade”. Afinal quem doa o faz sim com a melhor das intenções, com o espírito de solidariedade deste povo e isso tem que ser respeitado.

Aí você perguntaria como fica a situação dos doadores em relação à Receita Federal. Ou seja, têm ou não o direito de também declarar, abatendo, os valores destinados ao tal programa? Pois é, aí começa a injustiça nas regras do Leão, embora tudo seja feito rigorosamente dentro da lei. Legal sim, mas muito injusto realmente.

Afirma o autor, a seguir, no seu texto divulgado nesta Internet: “Agora se você vai colocar no seu imposto de renda que doou 7, 15, 30 ou mais reais pro “Criança Esperança”,  não pode, sabe por quê? Porque “Criança Esperança” é uma marca somente e não uma entidade beneficente. Já a doação feita com o seu dinheiro para o Unicef é aceita. E não há crime nenhum.”

Vejam que as afirmações acima são coerentes sim. Tanto o doador não pode se valer da doação com o abatimento na declaração de renda, visto que a afirmação acima confere com a verdade, assim como a atitude da emissora, usando o total apurado no programa como abatimento ao declarar renda, é legal, nada a contestar.

Até hoje não vira ninguém levantar a voz para defender os doadores que contribuem com o que podem na maior boa fé para aquele programa. Então o texto faz a indagação lógica que ficará, com certeza, sem resposta, lamentavelmente. Leiam:

“Aí, você doou à Rede Globo um dinheiro que realmente foi entregue à Unicef, porém, por que descontar na Receita Federal como doação da Rede Globo e não na sua?”

No sentido dos milhões de brasileiros que fazem as doações o olhar frio e profundamente injusto do Leão sequer se sensibiliza. Não é surpresa, considerando que ele nos leva, especialmente da classe média, o mais que nos pode tirar através de regras que o próprio governo estabelece sempre em seu benefício, lógico.

Os que mais podem, é bem sabido, são de certa forma os que menos pagam imposto de renda neste país. Isto é histórico, digamos que “genético”, economicamente falando, e continua a sê-lo em pleno governo do PT, do Sr. Lula que, enquanto atuou no Congresso fazia veementes críticas a essas injustiças. As mesmas às quais agora ele fecha os olhos, assim como deve fechar seus ouvidos às críticas, que nem esta.

As crianças até podem ter esperança em serem assistidas pelo muito que nossa gente doa através daquele programa, enquanto a televisão ri, monta um programa alegre, posa de generosa, finge que não, mas provavelmente deve se valer do que a lei lhe faculta, conforme afirma o texto a que me refiro.

Não posso afirmar que seja verdade, mas também ninguém desmente o teor daquela mensagem que já circula na internet há algum tempo.

Quanto ao povo, os doadores, ora, eles são olhados pelo governo tal e qual quando atuam como eleitores: apenas chamados, (e até obrigados, no caso do voto) ou convocados a contribuir, no mais que se lixem. País injusto o nosso. Até quando?


 


(04 de agosto/2007)
CooJornal no 540


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br