11/08/2007
Ano 11 - Número 541

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

OLHO GRANDE E SEQÜESTRO FINGIDO

 

Em novembro do ano passado eu escrevi e divulguei neste mesmo coojornal um texto com o título: “VÍTIMAS, MAS DO OLHO GRANDE”. Volto ao mesmo tema ali enfocado face ao que tanto tem sido divulgado por nossa mídia.

As Tvs têm anunciado o que seria “um novo golpe”. Alguém liga para o seu telefone fixo ou celular, sempre a cobrar, cumprimentando-o por ter ganho determinado prêmio. Mais ainda: fala em nome de companhia telefônica e usa argumentos que não resistem ao menor raciocínio lógico e responsável. Mas tem gente que acredita.

Só há “vítimas” porque muitas pessoas continuam adeptas do odioso “jeitinho brasileiro”, que é irmão do “levar vantagem em tudo”, ou lei de Gerson, como se dizia antigamente. Não se trata nem de ser analfabeto, com pouca instrução, desinformado, não, é olho grande mesmo. Desculpem, mas isso me tira do sério.

Outro dia conheci um cidadão, com formação universitária, em Cabo Frio, que me contou ter uma irmã, com a idade ali pelos 30 anos, que é useira e vezeira em... “caçar prêmios”. Ele chegava em casa e a viu ao telefone, toda agitada, a perguntar: “O que eu devo fazer para receber o prêmio, senhor?”

Rápido ele indagou com quem ela falava. Meio irritada ela respondeu: “Espera, pô, nós ganhamos um Palio zero quilômetro da Telemar...” Mais rápido ainda ele arrancou o telefone da mão dela, enquadrou o sujeito com quem a irmã falava e, ato contínuo, desligou o aparelho.

Enquanto a mana esbravejava, o cidadão passou-lhe um sermão daqueles, sabendo porém que ela jamais se emendará. E vejam que não se trata de uma criança. Assim acontece com tantas “vítimas” que julgam ser mais espertas do que o vigarista, este do tipo “lobo mau”, que está sempre com a boca aberta para “devorar” mais um otário.

A cegueira do olho grande é tamanha que não deixa a pessoa entender que nenhuma companhia telefônica vai ligar a cobrar para algum cliente, seja pelo que for. O olho grande os leva à estupidez de achar que realmente vão receber um grande prêmio, sem ter havido qualquer tipo de concurso, sem a pessoa ter participado de qualquer concorrência. Me perdoem, mas não dá para ter pena deste tipo de gente.

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Mudando de assunto, há uns dias atrás nós entrávamos na loja de um bom amigo daqui e o vimos, quase apoplético, extremamente nervoso, enquanto o filho falava ao telefone. Ele saiu correndo dizendo que haviam seqüestrado a filha dele. Ora, fazia menos de dez minutos que a garota saíra e dissera ir a determinada loja, ali perto, isto aqui, no comércio de Cabo Frio.

Nunca, jamais, alguém foi seqüestrado em pleno comércio cabofriense e seria o absurdo dos absurdos acreditar nisso, pelo menos até agora. Tentei explicar isto a ele, mas o homem estava mesmo descontrolado. Só falava na filha. Já ia retirar determinada quantia para depositar na conta em que o mandaram colocar.

Outras pessoas chegaram e tentaram evitar que ele fosse, mas estava mesmo difícil. Enfim alguém conseguiu que ele voltasse até à sua loja e, nesta altura, com calma, eu insistia com o filho dele para que pedisse, ao sujeito do outro lado da linha, para falar com sua irmã, pois queria se tranqüilizar, saber que ela estava bem. É claro que eles não iam concordar, dado que não tinham a moça com eles. Tudo era mentira.

O sujeito, irritado, chegou a perguntar se havia algum policial ao lado dele, pois não admitia que, tendo se esforçado para o deixar também nervoso, ele fosse ter um raciocínio lógico daqueles. Disse que não permitiria, falou palavrões, afirmou que ia matar a irmã dele e outros terrorismos mais. Puro “teatro” de malandro metido a esperto mas mal sucedido.

Ato contínuo a jovem entrou de volta na loja, assustada, querendo saber o que se passava. A loja já estava cheia de gente. Meu amigo, quando a viu, teve uma expressão de alívio que só quem já passou por isso (minha amiga Lena e eu passamos) conhece bem o sentimento que nos acode.

O filho dele então passou a descompor o indivíduo do outro lado da linha que, para não perder a viagem, fez outras ameaças que não poderia cumprir, até porque sequer sabia com quem estava falando.

Medi a pulsação do amigo e estava um pouco acelerada. Nada demais. Àquela altura os presentes começaram a contar o que já acontecera com eles. Uma senhora me disse que para ela já haviam feito a tentativa nada menos que... 3 vezes. Estava mais do que “diplomada” e/ou vacinada contra esses falsos seqüestros.

O meu amigo chorava abraçado à filha enquanto deixava sair a emoção forte que quase o derrubou. É isso, gente, não dá mais para cair neste tipo de golpe, ou de falso seqüestro, pelo amor de Deus. Já está manjado demais.

Por precaução procurem, antes de se agitar, de passar mal, fazer um contato com algum parente que esteja fora de casa e que eventualmente pudesse ter sido vítima do falso seqüestro anunciado ao telefone. Para que serve o celular?

E, por favor, usem a cabeça não deixando que aquele que o ameaça o iluda com truques facilmente desmascarados. Há muitas maneiras. Uma coisa: nunca diga seu nome nem o de ninguém da família para eles, não dê endereços (pois eles nem os sabem), não forneça nenhum dado seu, pois o pegam e de pronto passam a usá-lo e você, pelo nervosismo, é levado a achar que eles é que os descobriram, entende?

Acima de tudo, calma, muita calma e com certeza tudo se resolverá, pois você verá que não passa de um truque para o enganar e eles lucrarem com isso.



 

ESPAÇO RETRÔ:
Leia também, nesta edição,
"
CRIANÇA. ESPERANÇA
", de ABRIL/2001. 



(11 de agosto/2007)
CooJornal no 541


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br